A compra da empresa de manutenção e engenharia no Brasil teve aspetos positivos porque ajudou a TAP a crescer no Brasil e não só. Mas foi o “melhor negócio” como defende Lacerda Machado (parceiro da TAP na operação)? “Foi bom, mas faria de novo? Não. Tentaria fazer de outra forma”, respondeu Fernando Pinto.

O ex-presidente executivo da TAP foi ouvido esta quarta-feira na comissão parlamentar de economia e obras públicas por causa da auditoria da Inspeção-Geral de Finanças (IGF) que, no caso desta operação, conclui que a mesma não teve racionalidade económica. A empresa de manutenção no Brasil foi comprada à Varig em 2006 e foi encerrada em 2022, período durante o qual deu praticamente sempre prejuízos e teve que ser suportada financeiramente pela TAP. Quando fechou, a fatura superava os 900 milhões de euros.

O que falta limpar na casa que ficou com os problemas da TAP

Fernando Pinto defendeu que a manutenção no Brasil foi uma das operações que trouxe benefícios para a TAP, que cresceu — triplicou passageiros e receitas — e para o país, porque “colocou Portugal no mapa do turismo”. A VEM (Varig Engenharia e Manutenção, nome original da empresa) “teve influência nisso”. Para além do forte crescimento no Brasil, também ajudou a TAP a entrar no mercado do Canadá.

O antigo gestor não negou os problemas financeiros que a empresa trouxe à TAP durante a sua gestão, que chegou a ter injetados mais de 500 milhões de euros na VEM sob a forma de suprimentos (empréstimos acionistas).

“A manutenção era o melhor negócio do mundo”

Sobre a racionalidade da operação, ou a falta dela, Fernando Pinto afirmou que a “manutenção à época era o melhor negócio do mundo”. Isto porque havia falta de capacidade de manutenção na Europa e a TAP não tinha espaço no aeroporto de Lisboa para expandir. O setor da manutenção era aliás o que dava mais resultados positivos à empresa e a Parpública, holding que controlava a TAP, foi entusiasta da operação.

Mas depois, reconhece, tudo mudou porque os aviões mais antigos e que precisavam mais de manutenção pararam e foram substituídos por novos. Por outro lado, os custos aumentaram com a valorização do real e a TAP foi descobrindo “contingências fiscais da VEM”. Se “parássemos a operação no Brasil isso seria negativo para a imagem da TAP porque teríamos aviões retidos”.

[No podcast “Somos Todos Malucos“, António Raminhos fala sobre os nossos medos, ansiedades e superações em conversas descomplicadas e divertidas em torno da saúde mental. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts e no Spotify]

Fernando Pinto explicou também porque é que enquanto esteve no cargo, até final de 2017, sempre afastou o encerramento da empresa no Brasil.  “Não podíamos fechar a empresa porque isso traria muito mais perdas para a TAP” — a liquidação feita em 2022 obrigou a reconhecer uma perda de quase mil milhões de euros que foi suportada por parte da ajuda pública dada à companhia aérea.  A sua gestão apostava na venda — a empresa esteve à venda muito tempo — e na recuperação económica que, diz o gestor, estava prestes a acontecer antes da crise provocada pela pandemia.

A compra da empresa de manutenção no Brasil pela TAP começou por ser um adiantamento “para ganhar tempo” e permitir realizar a compra da Varig, companhia aérea brasileira que era o verdadeiro objetivo. No entanto, com o agravamento da situação financeira da Varig, a TAP desistiu desta operação, mas decidiu ficar com a empresa de manutenção, explicou aos deputados. O crescimento da TAP era à data — 2006 — tão forte que precisava de mais capacidade de manutenção uma vez que a atividade não podia ser expandida no aeroporto de Lisboa. E o Brasil era um mercado de alto retorno à data.

Quando desistiu da Varig, a TAP vendeu a empresa de carga do grupo brasileiro — a Variglog — que tinha comprado em conjunto com a VEM. E essa venda (feita à Varig) tinha associado um prémio de 20% sobre o preço pago pela TAP e pela Geocapital no quadro de uma operação que teve como objetivo avançar fundos à companhia aérea brasileira até que fosse comprada pelos portugueses.

Esse foi também o prémio que a Geocapital de Lacerda Machado encaixou quando vendeu as suas ações na VEM à TAP, depois do negócio da Varig cair. Isto porque, como explicou o advogado esta terça-feira, a Geocapital financiou a operação porque estava interessada na Varig e não na empresa de manutenção da Varig.

Ex-administrador Lacerda Machado defende que TAP “deve ser privatizada e rapidamente”

Sobre o facto de ter recomprado a posição da Geocapital sem a autorização da tutela — à data a TAP era uma empresa pública — Fernando Pinto refere que o Ministério Público, que investigou a operação durante anos, concluiu que a aprovação da operação no conselho de administração, nomeado pelo Estado, era suficiente.

O antigo CEO sublinhou ainda que a TAP não investiu um cêntimo na aquisição da VEM porque o dinheiro recebido na venda da Variglog foi suficiente para reembolsar o financiamento dado pela Geocapital e para recomprar os 20% desta sociedade presidida por Lacerda Machado. O “problema veio depois”.