O presidente da junta de freguesia da Estrela e um dos acusados da operação Tutti Frutti, Luís Newton, respondeu à ofensiva de Carlos Reis — que quer convocar eleições para a bancada dos sociais democratas na Assembleia Municipal de Lisboa para afastar o autarca. Numa carta, à qual o Observador teve acesso, Luís Newton critica Carlos Reis por levar a vida interna do PSD para os media e revela que durante muitos anos o agora adversário interno teve “frustração” por “nunca ter sido deputado da nação” — cargo que Newton, na mesma missiva, garante que o ajudou a alcança.
O deputado e membro da Assembleia Municipal de Lisboa, Carlos Reis, enviou — tal como o Observador tinha já dado conta — um email a pedir a marcação de eleições para a direção da bancada municipal do PSD. Luís Newton mantém-se em funções autárquicas, apesar de ter suspendido o mandato de deputado na Assembleia da República, mesmo depois de ter sido acusado na operação Tutti Frutti.
Na resposta, enviada também por email, a que o Observador teve acesso, Luís Newton recorda a cronologia do caso em que está envolvido, para avisar que depois de conhecido, já se propôs a “sufrágios vários, internos e na sociedade civil, sempre merecendo a confiança de maiorias” e alega que os processos judiciais precisam de tempo para se resolver e que, ser acusado ou arguido “não é sinónimo de culpa“.
Numa troca de missivas entre dois autarcas há vários anos em funções, e que está a provocar desconforto no PSD, Luís Newton recorda a Carlos Reis que estiveram “presentes nas fileiras da mesma batalha” e que “juntos” alcançaram “objetivos que poucos imaginavam possíveis” e recorda também que, desde que foi conhecida a acusação do processo em que está envolvido, recebeu “da esmagadora maioria dos quadros [do PSD], votos de respeito, confiança e amizade”.
Na parte mais pessoal da mensagem, Luís Newton deixa uma bicada a Carlos Reis ao dizer que tentou sempre “entender a maior frustração: não ser deputado da nação. Um sonho que tantas vezes te foi prometido e tantas vezes te fugiu” e considera até que se sente “parte dessa realização”. Sendo autarca há vários anos, Carlos Reis nunca conseguiu ser eleito para o Parlamento, mas depois da AD ter formado Governo acabou por entrar em substituição da atual ministra da Saúde, Ana Paula Martins. Curiosamente, Luís Newton foi o último eleito pela AD no circulo eleitoral de Lisboa.
É pegando na relação pessoal que mantêm há vários anos — e referindo até “uma conversa recente” –, que Luís Newton se mostra surpreendido pela movimentação de Carlos Reis em pedir eleições internas através de um curto email enviado ao ainda presidente da bancada municipal.
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A forma como o assunto tem sido tratado não agrada a Luís Newton que diz que “a escolha da comunicação social para este debate” colocou o PSD “numa posição desconfortável” e que “enfraquece” a causa social democrata na cidade de Lisboa, para além de ser uma decisão que “ignora o caminho acordado em diálogo” nessa tal conversa pessoal em que estaria uma terceira pessoa, indicando que existiria um acordo tácito sobre a gestão do poder em Lisboa.
Já na despedida da missiva, a questão prática: o pedido para convocar eleições tem que ser subscrito por “um terço” dos deputados municipais e por isso, Carlos Reis terá que encontrar cinco colegas da bancada municipal para assinar este pedido de eleições. Luís Newton garante ainda que não será um “obstáculo” a esse pedido.
Apesar do processo em que o autarca da Estrela está envolvido, a correlação de forças no PSD em Lisboa está distribuída, com Luís Newton a contar ainda com um grupo de autarcas que o apoiam, pelo que, a ofensiva de Carlos Reis não tem sucesso garantido à partida. Além disso, a forma como o deputado municipal colocou a questão gerou desconforto entre os dirigentes de Lisboa que procuraram uma saída sem grande ruído para os envolvidos na operação Tutti Frutti.
Para além de Luís Newton, que suspendeu o mandato de deputado mas manteve-se como autarca, o presidente da distrital de Lisboa, Ângelo Pereira, deixou o lugar de vereador mas mantém-se como presidente da distrital do PSD. Apesar da direção nacional ter chamado a si a escolha de todos os autarcas em Lisboa para as próximas eleições, não retira a esfera de influência que estes atuais dirigentes ainda têm nos órgãos locais e na Assembleia Municipal.
Durante os últimos anos foram várias as tentativas de retirar força e influência a Luís Newton, com várias tentativas falhadas, uma delas que levou à saída de José Eduardo Martins depois ter sido o cabeça de lista à Assembleia Municipal mas ter sido alvo de um golpe palaciano para lhe retirar a liderança da bancada municipal, que se manteve com o autarca da Estrela.
Apesar deste desafio, Carlos Reis disse há dias ao Observador que “Luís Newton foi um bom autarca e as acusações têm de ser decididas em tribunal. Mas é um caso de cumprimento de estatutos. O PSD tem regras e as regras têm de ser cumpridas”, justificando assim o pedido de convocação de eleições na bancada municipal de Lisboa.
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