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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

PSD prepara limpeza em Lisboa e Moedas começa a escolher equipa. Gonçalo Reis na calha

Ex-presidente da RTP pode vir a desempenhar papel importante no próximo executivo de Moedas e há quem aposte nele para número dois. Anacoreta não será obstáculo. PSD/Lisboa tenta afastar maçãs podres.

Carlos Moedas já vai preparando a equipa que vai levar a jogo na próxima corrida à Câmara Municipal de Lisboa. E vai fazê-lo com uma vantagem que não tinha há quatro anos, que só saiu reforçada com o terramoto chamado Tutti-Frutti: com o aparelho social-democrata na capital feito em frangalhos, o antigo comissário europeu ganhou margem redobrada para escolher a sua equipa de vereadores e para se rodear de figuras da sua mais estrita confiança.

Um dos nomes que deverá figurar no próximo elenco autárquico será Gonçalo Reis, atual administrador executivo do Conselho de Administração da Empresa de. Gestão de Equipamentos e Animação Cultural (EGEAC), antigo presidente da RTP, militante do PSD, ex-vereador em Lisboa e figura muito próxima de Moedas — foi, aliás, presença assídua na campanha de 2021. De resto, o próprio Gonçalo Reis chegou a ser apontado como uma hipótese sólida de Rui Rio para liderar essa campanha até Carlos Moedas ser convencido de facto a avançar.

Quatro anos volvidos, nesta nova equação, Gonçalo Reis tem sido apontado com insistência ao lugar de futuro vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa. O atual administrador não executivo da EGEAC tem estado particularmente ativo nos últimos tempos, seja nas redes sociais, seja na comunicação social — escreveu dois artigos de opinião para o Expresso no espaço de um mês, sendo que o primeiro era um manifesto de apoio a Carlos Moedas e o segundo uma defesa da “vitalidade das indústrias criativas” em Lisboa —, seja na sua própria intervenção política. Ainda no final do ano, apresentou, ao lado de Moedas, um programa de apoios à comunicação social com grande pompa e circunstância.

Ora, a possível promoção de Gonçalo Reis a número dois de Carlos Moedas implica duas coisas: que o PSD/Lisboa se sinta confortável com a escolha e que o CDS abdique do lugar de número dois na autarquia. No primeiro caso, nada está definido, mas a vontade de parte do aparelho social-democrata é não criar obstáculos a Carlos Moedas. O nome de Gonçalo Reis circula há muito, não merece anticorpos de maior e cumpre um requisito básico e inegociável para a estrutura: tem cartão laranja e é militante do PSD.

Para o CDS, a escolha é mais difícil de engolir mas não há muito que os democratas-cristãos possam fazer. Em primeiro lugar, porque Filipe Anacoreta Correia, atual vice-presidente de Lisboa, está perfeitamente consciente de que a escolha é de Carlos Moedas e, ainda que mantenha excelentes relações com o autarca, compreende que a última palavra seja sempre do antigo comissário europeu. Quer isto dizer que estará disposto a aceitar outro tipo de responsabilidades que não necessariamente o cargo de número dois no executivo camarário se for essa a vontade de Moedas.

Os democratas-cristãos lembram agora que mesmo quando a primeira negociação aconteceu, em 2021, a vice-presidência da autarquia não foi condição para que o acordo chegasse a bom porto, nem ficou dependente de uma “distribuição partidária”. Ou seja, deste lado aceita-se que uma alteração na hierarquia da autarquia, em termos partidários, “não violaria” o acordo entre PSD e CDS nem seria motivo para romper a coligação: o que os partidos negoceiam são os assentos atribuídos a cada um; só depois, e de acordo com a vontade do presidente da câmara, é que se define quem assume o posto de braço-direito.

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Em segundo lugar, coloca-se a questão de o CDS ser hoje um parceiro de coligação com força reduzida. Há quatro anos, o principal critério para a distribuição de lugares teve que ver com o resultado obtido em 2017. Nessa altura, como é sabido, Assunção Cristas ficou em segundo lugar nas eleições, batendo a candidata do PSD, Teresa Leal Coelho. Em 2021, nas negociações então lideradas por Rui Rio e Francisco Rodrigues do Santos, o CDS tinha um ascendente sobre o PSD que agora não tem a nenhum nível — nem  local, nem nacional. Terá portanto de se contentar com outro tipo de correlação de forças na autarquia.

Ainda sem ter anunciado a sua recandidatura à Câmara de Lisboa, há muito que se discute o problema que Carlos Moedas poderá ter no rearranjo da sua grande frente de direita. Se a Iniciativa Liberal entrar de facto no barco da coligação, é de prever que o CDS tenha direito a apenas um vereador e que os liberais consigam dois — sendo que os restantes seis em lugar elegível pertencerão ao PSD.

Formalmente, Filipe Anacoreta Correia, que tem péssimas relações com a atual liderança do CDS, poderia eventualmente entrar na quota de independentes se se desvinculasse do CDS (hipótese que não agrada à IL) ou migrar para outro tipo de funções, como o de presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, por exemplo, libertando um lugar de vereador. Ainda nada está fechado, mas Moedas e Anacoreta não vão dizendo que não a essa hipótese. A vice-presidência da Câmara de Lisboa, essa, já não deve escapar aos sociais-democratas.

▲ Gonçalo Reis é apontado como possível elemento do próximo executivo de Carlos Moedas

JOSE SENA GOULAO/LUSA

Operação Tutti-Frutti. PSD/Lisboa rebela-se contra Newton

Seja como for, Carlos Moedas parte para as próximas eleições autárquicas praticamente livre dos constrangimentos a que foi sujeito em 2021. Nessa altura, poucos acreditavam que o social-democrata fosse de facto capaz de derrotar Fernando Medina e o antigo comissário europeu era um perfeito outsider no aparelho social-democrata, o que fez com que tivesse de aceitar vereadores e candidatos a presidentes de Junta que não faziam parte do seu círculo de confiança.

Quatro anos depois, tudo mudou. Moedas tem não só a vantagem de ser presidente da Câmara (o que lhe dá um estatuto e um valor muito próprios), como os principais figurões do PSD em Lisboa — Luís Newton, presidente da concelhia, e Ângelo Pereira, líder da distrital e agora ex-vereador da Proteção Civil — se viram formalmente acusados no âmbito da Operação Tutti-Frutti, enfraquecendo as suas respetivas posições de força. Em cima disto, para tentar evitar qualquer tipo de contaminação, a direção nacional do PSD decidiu retirar às estruturas do partido em Lisboa a prerrogativa de escolherem os candidatos a autarcas, entregando esse poder, informalmente, a Carlos Moedas.

Quer isto dizer que o atual presidente da Câmara de Lisboa tem a cobertura quase total de Luís Montenegro para escolher quem bem entender para a equipa de vereadores e candidatos a presidentes de Junta. “Haverá espaço para todos os que vierem por bem. E vir por bem significa saberem que o líder é Carlos Moedas”, avisava fonte da Câmara Municipal de Lisboa ao Observador ainda no arranque de fevereiro. Traduzindo: o atual presidente da capital quer poder decidir com quem quer contar (e em que termos) com quase total liberdade.

A somar a isto, o aparelho social-democrata em Lisboa começa a dar sinais evidentes de que está disposto a virar a página e a acabar com influência de Luís Newton — apesar de ter suspendido o mandato de deputado, Newton é ainda presidente da Junta de Freguesia da Estrela, líder da concelhia do PSD/Lisboa e líder da bancada laranja na Assembleia Municipal, cargos de que não se desfez apesar de ter sido formalmente acusado pelo Ministério Público de cinco crimes de prevaricação e cinco de corrupção passiva.

Esta segunda-feira, Carlos Reis, deputado do PSD e homem forte do aparelho social-democrata em Lisboa, enviou um email a Luís Newton a exigir a convocação de eleições para o cargo de líder da bancada municipal social-democrata. Nesse email, a que o Observador teve acesso e que foi igualmente noticiado por outros órgãos de comunicação social, Carlos Reis invoca o Regulamento Interno da bancada do PSD para pedir novas eleições, já que o próprio Luís Newton se encontra como líder interino há 15 meses.

“Considero que Luís Newton foi um bom autarca e as acusações têm de ser decididas em tribunal. Mas é um caso de cumprimento de estatutos. O PSD tem regras e as regras têm de ser cumpridas”, diz ao Observador Carlos Reis. Apesar da irregularidade, até hoje, ninguém tinha levantado qualquer tipo problema de natureza formal. O facto de acontecer agora, depois da acusação e em véspera de autárquicas, é sinal evidente de que o PSD quer tentar cortar o mal pela raiz.

Segundo apurou o Observador, a decisão de Carlos Reis de desafiar abertamente Newton foi tomada em articulação com a direção nacional do PSD e com a equipa de Carlos Moedas, o que é mais uma prova de que o partido está apostado em neutralizar a influência do ainda líder da concelhia e afastar de vez a “maçã podre“. O objetivo é devolver normalidade ao aparelho social-democrata e esperar que Newton abdique de todas as funções políticas que ocupa — atingirá o limite de mandatos enquanto autarca da Estrela e não poderá apresentar recandidatura, mas nada impede que se mantenha como líder da concelhia até 2026.

Aliás, em julho de 2022, foi Carlos Reis quem enfrentou em privado Luís Newton e obrigou o líder da bancada municipal do PSD em Lisboa a dar uma cambalhota política depois de o social-democrata ter ajudado a oposição a chumbar a proposta da própria equipa de Moedas sobre os aditamentos ao contrato programa da Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU). Na altura, o caso provocou um monumental embaraço político ao presidente da Câmara e deixou o aparelho social-democrata embrulhado numa guerra interna que só ficou resolvida quando Newton deu o braço a torcer e reviu a posição.

Ao mesmo tempo, o partido conseguiu também afastar Ameetkumar Subhaschandra, tesoureiro da Junta de Freguesia do Areeiro, acusado de 39 crimes de corrupção passiva, relacionados com a contratação das mesmas empresas, que se afastou do cargo depois de, num primeiro momento, ter resistido a sair. O Observador sabe também que está em curso a preparação de um moção de censura apoiada pelo PSD e demais partidos para afastar Rodolfo Pimenta, presidente da Assembleia de Freguesia do Areeiro, acusado da prática de nove crimes de corrupção passiva.

A convicção que existe entre algumas figuras influentes do universo social-democrata em Lisboa é de que quanto mais cedo se libertarem de Luís Newton e demais figuras associadas à operação, consideradas, por estes dias, ativos tóxicos do partido, mais hipóteses terão de evitar que Carlos Moedas seja contaminado pelas consequências da Tutti-Frutti e mais rapidamente garantirão influência nas escolhas do partido para as próximas eleições autárquicas. Neste momento, e enquanto a casa não estive a arrumada, o PSD continuará a ter dificuldades em preparar a próxima campanha autárquica na capital.

▲ Luís Newton foi abertamente desafiado por Carlos Reis

ANDRÉ MARQUES / OBSERVADOR

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