Cerca de um terço dos estudantes do Ensino Superior dizem ter jogado a dinheiro no espaço de um ano. O jogo de eleição foi a lotaria (jogado maioritariamente por alunos de 40 ou mais anos) e logo atrás as apostas desportivas. As cartas e dados surgem em terceiro (e são o tipo de jogo mais comum entre alunos com cerca de 20 anos). Os resultados constam do livro Saúde e Estilos de Vida no Ensino Superior em Portugal, onde é apresentado um estudo que abrange, pela primeira vez, todo o universo das instituições de Ensino Superior universitário e politécnico e usa uma amostra representativa de todos os estudantes.
No trabalho divulgado esta quinta-feira e coordenado por Pedro Alcântara da Silva (professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa), os investigadores abordaram vários hábitos, desde os alimentares aos de consumo e atividade física. E concluíram ainda que quase metade dos alunos inquiridos têm caraterísticas que indicam que podem ser mais propensos à depressão.
Dos 9.611 inquéritos válidos, realizados entre abril e junho de 2022, 32,6% dos inquiridos dizem ter jogado a dinheiro nos 12 meses anteriores, revelam os investigadores. Desta percentagem, o jogo em que os estudantes mais mostraram interesse foi a lotaria (como raspadinhas, Totoloto, Euromilhões, ou bingo). Falamos concretamente de 17,7% dos jogadores a dinheiro.
Logo atrás seguem-se as apostas desportivas: 13,3% dos inquiridos. Em terceiro, o jogo a dinheiro em que os estudantes mais investiram foram nas cartas e dados (12,7% dos inquiridos) e, por último, as slot machines, 9,2%.
Segundo o livro, independentemente do jogo que está em causa, o grupo que se destaca é o masculino, com os homens a jogar com mais predominância que as mulheres. Contudo, a nível de idade ou regularidade, o cenário é outro e varia de acordo com o tipo de jogo a dinheiro.
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Quando falamos da lotaria, os principais estudantes a procurar este jogo têm 40 ou mais anos e jogam pelo menos duas vezes por semana. A frequência diminuiu quando falamos das apostas desportivas, uma vez que os estudantes que mais procuram este tipo de jogo a dinheiro fazem-no, em média, duas vezes por mês. Os investigadores não descriminam idades, mas adiantam que a maioria destes estudantes estão deslocados.
No que toca às cartas/dados, este jogo é popular sobretudo junto dos mais novos, com menos de 20 anos, e estudantes deslocados. De acordo com o estudo, estes alunos jogam pelo menos duas vezes por semana.
Já no que toca às slot machines, esta frequência reduz-se para cerca de duas vezes por mês, mas o padrão de ser essencialmente procurado por alunos deslocados mantém-se.
Jogar como forma de fugir de “sentimentos difíceis”
O estudo destaca também que o jogo online se mantém como parte do dia a dia da maioria dos estudantes que foram inquiridos, sendo que seis em cada 10 alunos diz ter jogado num espaço de um mês.
Quando foram questionados sobre os potenciais problemas que advêm do jogo (seja online ou presencialmente), 28,6% dos inquiridos destacaram a prática de jogo como forma de evitar ou fugir de “sentimentos difíceis” (como culpa, ansiedade ou desamparo).
Logo atrás, 19,3% destacou que se preocupa com o próprio comportamento em relação a videojogos (porque, na verdade, nunca conseguem desligar, ficam a pensar no que correu mal em sessões de jogos anteriores e começam logo a antecipar o próximo, por exemplo).
Alguns outros problemas relacionados com o jogo são, segundo os inquiridos, a perda de interesse por outras atividades (19,3%) e até mesmo a necessidade de manter a intensidade do jogo apesar de saber que causa problemas a familiares (16,1%).
13,6% já provocaram dor física a si mesmos de propósito
Neste estudo, o bem-estar psicológico dos estudantes esteve também em análise. Segundo os investigadores, quase metade dos estudantes apresenta características que permitem a sua inclusão no grupo de risco com maior propensão à depressão.
“A propensão para a depressão refere-se à predisposição ou tendência de uma pessoa para desenvolver a condição de depressão, e é importante ressalvar que não significa necessariamente que desenvolverá a doença”, lê-se no estudo apresentado. Para chegarem às suas conclusões, os investigadores avaliaram cinco indicadores: sensação de alegria e boa disposição, sensação de calma e tranquilidade; sensação de energia; acordar com a sensação de estar freso e repousado; e dia a dia preenchido com coisas interessantes.
O indicador de ter acordado fresco e repousado é o mais mal avaliado, uma vez que um em cada três estudantes (30,6%) diz que “tal nunca aconteceu, ou que ocorreu apenas algumas vezes” nas semanas anteriores. Segue-se o ter dias preenchidos com coisas interessantes (18%), sensação de energia (16,8%) e sensação de calma e tranquilidade (15,8%).
Segundo os investigadores, 46,8% dos estudantes do Superior têm, então, “características que podem contribuir” para serem incluídos no grupo de risco da tendência para a depressão. O sexo feminino é aquele com mais destaque: do universo de alunos com tais características, 52,9% são mulheres. Em termos de idades, o destaque vai para alunas com menos de 30 anos.
O estudo adianta que 61,8% dos alunos de Artes e Letras, apresentam também as características que os podem levar a ser incluídos neste grupo de risco. seguem-se os estudantes de Ciências da Vida e da Saúde (52%); Ciências Exatas, Naturais e Engenharias (49,2%); e Ciências Sociais e Humanas (47,8%).
Os investigadores alertam ainda para o facto de 13,6% dos alunos inquiridos admitirem que já provocaram, intencionalmente, dor física a si próprios, um dos sintomas extremos e mais significativos de mal-estar psicológico.
Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) e com o Hospital da Luz e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.
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