Depois de explorar a infância, Diogo Mestre cresceu em idade e tamanho para se sentar à mesa dos grandes e chegar com os pés ao chão — ainda que admita que continua a ser “um baby”, atendendo aos seus 23 anos. Em “Não me esperes pra jantar…mas também não esperes encontrar-me em casa logo depois. Não sei a que horas volto, não sei quando volto… ou sequer se volto”, ao som de DJ 420@ôa @slowmo.mike (ou Miguel Alves) o designer estendeu a toalha e colocou no centro da refeição a rebeldia da adolescência — e os motivos regionais. Desde logo, a alusão ao pontilhado de Nisa, refletido nos estampados, mas também os instagramáveis acessórios. A handmade ceramics de Eggs.pt (que é como quem diz Mariana Gomes) trouxe para o menu mini carteiras de mão em tons de carro ou formato de alcofas com viçosos legumes. Também nos brincos, limões e outras iguarias cerâmicas compuseram o friso de peças.
“A base da inspiração desta coleção foi a louça alentejana, que acaba por se transformar em malas e em brincos. Fizemos esta parceria com a minha amiga Mariana. Tentei ao máximo continuar com esta questão toda da nacionalidade, ou seja, o burel, feito com a lã da Serra da Estrela, os tricôs Brancal, também uma empresa com 50 anos. De facto, era muito importante para mim. Também a Troficolor, nas gangas; é importante conseguir manter esta tradição e inová-la completamente.”, explica o designer da Mestre Studio ao Observador, no rescaldo do desfile de sexta-feira na ModaLisboa.
Os anos 90 e 2000 têm tanto de arquivo familiar como de referência iconográfica. Mais em voga que nunca, a nostalgia é trabalhada através de peças em denim que encaram aquelas décadas, sempre com um mix entre o usável e a assumida dimensão de espectáculo. “Por exemplo, as malas de cerâmica, dá para usar, mas não dá. Quis brincar um pouco com estes cortes mais baggy, as camisolas, e fazer esta reinterpretação das minhas memórias muito de infância, porque sou nostálgico. O meu irmão é 7 anos mais velho que eu e a minha irmã é 15 anos mais velha. Gosto muito de olhar também para o álbum fotográfico. O que eu vejo são fotos minhas quando era bebé e lembro-me muito dos looks deles. Há muito este cunho sentimental em todas as peças. Eu acho que a malta que está a começar a criar moda agora… isto é o passado mais próximo que tem.”, enquadra o designer.
Um look da coleção Mestre Studio
Para além da clara e renovada influência familiar em novo ensaio, Mestre Studio chegou à apresentação de março de 2025 com um orçamento mais apertado, mas nem por isso menos motivado. “Foi um parto muito mais difícil”, admite Diogo, “mas também já venho com a carga toda das outras três coleções atrás, o que acaba por facilitar.” Talvez numa lógica um pouco distinta de gerações anteriores, o momento do desfile deixa de ser um fim em si mesmo para funcionar sobretudo como uma montra ou portfolio vivo, para poder seguir outros caminhos, também de maior rentabilidade. A terminar o mestrado, é através do freelancing que se vai posicionando e amealhando, dos figurinos à publicidade.
Para quem seguiu com atenção a mais recente edição do Festival da Canção, não terá passado despercebido o cunho autoral e o ADN do design nacional e mais independente que acompanhou boa parte dos participantes. Se Constança Entrudo vestiu os conterrâneos e vencedores NAPA, Mestre ocupou-se de Du Nothin, “um grande amigo meu”.
“Andamos sempre em negociações, empréstimos para publicidade, fardamentos. E ainda trabalhos como ghost designer que acabam por facilitar a nossa sobrevivência. De facto é difícil ser um jovem designer porque nos sai tudo do bolso”, acrescenta Diogo Mestre, revelando como os contactos com outros áreas e decisores tem dado os seus frutos. “Eu já tenho imensas empresas que confiam no meu trabalho e que apoiam o meu trabalho e são elas, de facto, a que também devo um grande agradecimento para conseguir apresentar estas coleções porque não me limitam a nível de materiais, de quantidades e de facto dá-me muito gosto esta questão da indústria portuguesa me querer apoiar a mim, sendo eu um jovem designer que só lhe dá despesas.”
Diogo Mestre
Para Mestre, o facto de o foco se desviar da ambição dos números e vendas facilita o processo criativo e permite alargar a área de risco, arrojando e pisando fronteiras sem hesitações de maior. “A roupa para mim é muito mais uma amostra do meu trabalho e daquilo que eu sou capaz do que um look-look para a venda. O facto de nós não termos esta questão da comercialização acaba por não nos colocar boundaries e nós fazemos aquilo que nos dá na gana.”
Ainda na sexta-feira, no rescaldo do Sangue Novo, a plataforma Workstation trouxe as propostas de Inês Barreto. Em 2023, a designer do Porto destacou-se como vencedora do Prémio @lisboafashionweek x @ied_official no concurso SANGUE NOVO supported by @seaside.oficial. Agora, com um Mestrado em Fashion Design terminado no @ied_milano, estreou-se com a coleção “Desassossego”. Partindo da construção única da obra de Fernando Pessoa, Inês propôs que cada peça fosse vista, antes de mais, “como um fragmento independente e singular, mutável e inconstante, para que só depois a coleção consiga ser absorvida como maior do que a soma das partes.”, assim se fez anunciar em memória descritiva.
Um look da coleção de Inês Barreto
Barreto retomou o fio do látex líquido, mostrando o resultado do seu projeto de tese, no seguimento do prémio conquistado na ModaLisboa há dois anos. “Queria ver o que podia fazer de diferente continuando a explorar o mesmo material. Falo sobre as nossas raízes, sobre a arte, o design em si, trazer um bocado daquilo que nós somos, traduzir a nossa pessoa numa coleção.” A nossa pessoa e o próprio Fernando Pessoa, diríamos nós, refletido no efeito de tatuagem usado nesta coleção. As referências são dispostas sobre tecidos de deadstock de uma marca italiana. Priorizando a sustentabilidade, “até os fios que eu usei para fazer alguns dos coordenados iam para o lixo, nas fábricas. Fomos fazer uma visita e eu disse, ah, isto aqui podia ser interessante.” Um dos pontos altos, vai para o toque de tinta permanente a coroar algumas das peças. “Gostei imenso de tatuar o látex. Os prints que apareciam nas peças eram tatuagens e as etiquetas foram todas tatuadas. Uma das peças foi feita em colaboração com uma das minhas melhores amigas, que é a Teresa Bessa, uma artista que está em Berlim. Fiz a primeira peça a tatuar e mandei-lhe logo mensagem a dizer ‘tens que entrar nisto.’ E ela aplicou um bocado na identidade dela ao desenho, que eu gosto imenso.”
Inês Barreto
A estudar o mercado e a ponderar se fica por Portugal ou se regressa a Milão, Inês Barreto aposta num regresso a solo italiano, pelo menos próximos tempos, mas sempre com o país de origem no horizonte, ou pelo menos um pé e outro lá. Certo é que as ferramentas ao serviço de um mundo global permitem reforçar parcerias apesar de distâncias geográficas. “Lá está, acho que podemos fazer coisas muito interessantes sozinhos, mas acho que é ainda mais interessante abrir um bocado a visão e ver o que é que sai daí.Valorizo muito o aspeto de colaboração. Acho que ninguém faz nada sozinho e quando tem amigos que são criativos e que também estão nestas áreas, é giro chamá-los”. Outro bom exemplo? As gravatas de malha feitas pela amiga Filipa.
Depois das 17h de domingo foi a vez na passerelle de Bárbara Atanásio, que recuperou a urgência da colaboração num era tão fragmentada. “Nós somos tão pequeninos, não vale a pena andarmos só à batatada.”, deixa logo bem claro, em conversa com o Observador.
Bárbara Atanásio
Há um ano, saía vitoriosa do Sangue Novo e seis meses depois, em outubro, partilhava o diário de bordo dos passos seguintes. Em mais uma passagem pela sala do Risco do Pátio da Galé, mostrou a sucessora de “Egrégios Avós”, quando fundiu herança e um desejo de modernidade que quebra com as tradições de sempre, “grafitando um futuro seu” — e com direito a Lourenço a desfilar na passerelle, irmão e modelo de fiting de Bárbara. Se à época trouxe referências familiares e cruzamento de gerações, entre álbuns de família, rendas, malas e joalharia de passagem (camada atrás de camada refletidas nos looks), manteve o trabalho multidisciplinar de upcycling, desconstrução e humor, para pôr o dedo na ferida: habitamos um mundo à beira do seu próprio reflexo, que testemunha a “globalização da estupidez”.
Um look da coleção de Bárbara Atanásio
“Vivemos zangados, deprimidos e medicados. E vivemos felizes, eufóricos e medicados. Adornamo-nos com as ferramentas do nosso próprio alucinamento, afogando-nos no ruído do vasto mar digital. Já não há nada de novo.”, escreve a designer, alongando-se depois do desfile sobre esta “vida de sobrevivente delirante” em que nos encontramos. Na passerelle onde fez desfilar “Profecia do Presente”, os manequins surgiram com feridas, mazelas e outras evidências das escaramuças dos nossos dias. “Eu acho que no mundo atual estamos mesmo a sobreviver e foi um bocadinho isso que eu quis demonstrar. Trazer a minha herança, outra vez, o layering, o reaproveitar de peças, a sustentabilidade nos materiais, mas ao mesmo tempo passar esta questão: parecemos que somos nós contra o mundo.”
Para a passerelle, trouxe ainda o amigo Diogo Mestre, que voltou a desfilar para a designer. “Pelos vistos não costuma ser assim, mas acho que depois da nossa edição do Sangue Novo ficámos todos muito amigos, no geral.” Outra ponte entre ambos é o Festival da Canção. No caso de Bárbara, coube-lhe vestir Iolanda. “Eu acho mesmo giro, porque é um bocadinho aliar os baby designers com os baby músicos, eles super talentosos. Parece que estamos a andar ao mesmo tempo, mas em áreas diferentes, é muito fixe”.
As correntes e outros acessórios trazem consigo uma das marcas mais fortes de Atanásio, que continua a apostar no upcycling de joalharia. Nesta edição, aliás, recorreu a elementos que já fez desfilar no Sangue Novo de outros anos, já que cada criação pode ser desmontada e refeita. Para comprar, nada como enviar mensagem diretamente à designer ou passar pelo Prata Riverside Village. Pondera ainda apostar na modalidade de pré-venda de algumas peças, evitando desperdícios e tiros ao lado — “eu não acredito na questão de ter um stock.”
Depois de ter estagiado com os Marques’Almeida, a designer está ainda a trabalhar com a dupla em full time, a partir do Porto. “Nas entrevistas que dei há seis meses, disse que o meu próximo passo era arranjar um emprego e foi literalmente na quinta-feira a seguir dessa semana.”
ARNDES
Junto de um dos mais internacionais pares criativos portugueses, Atanásio está entregue à parte de produção, um contacto encetado por Ana Rita de Sousa que também trabalha a tempo inteiro com a marca, enquanto gestora de produção, e a quem coube encerrar as hostilidades Workstation na tarde desde domingo, último dia de ModaLisboa. “Estou numa fase muito embrionária, acho que tenho muito a aprender, e também tenho que sobreviver. Portanto, é trabalhar durante o dia e fazer as coisas da marca à noite e fim de semana. Isto é quase um hobby“, conta no final do desfile.
Um look da coleção ARNDES
Sob a sua etiqueta ARNDES, Rita propôs um guarda-roupa versátil que corta com o ritmo acelerado da Moda. Silhuetas híbridas, que oscilam entre o slim e o oversized, com o antigo a misturar-se com o novo, ou as peças herdadas a dividirem atenções com as projeções de futuro. Daí o lema “Borrowed Clothes”. “Nesta coleção quis representar muito o contraste de materiais, texturas,.. A questão do borrow era mesmo para representar a partir de certa forma, se podemos ver as peças vestidas nos modelos, parece que a nenhuma delas serve realmente.” A aparente ausência de um sentido estético pessoal, ou uma provocação de desconforto, que serve afinal de contas para mostrar aquilo que a cliente ARNDES procura: “acho que tenho pessoas muito práticas no dia-a-dia, que gostam de se sentirem confortáveis, gostam de sentir que vestem coisas funcionais mas realmente únicas, moda de autor, e não massificada”.
Para o próximo inverno, serve camisaria desconstruída, pesados tecidos de lã, tricots feltrados, riscas, muito xadrez, prensados e muitas pontes invisíveis. Fundamentais nas roupas e nas ligações criativas que vão surgindo neste viveiro de jovens designers.