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Fanfanfanfanfanfanfanfanfanfaranfanfanfanfanfanfan. Todos a cantar o hino da Eurovisão! Mais uma vez, escolhemos quem vai representar Portugal (que anda tão desafinado) na Europa (que já viu dias bem mais harmoniosos). Nas próximas horas deste sábado à noite vou abraçar o entretenimento puro e duro e enterrar a cabeça na areia, qual avestruz. Sendo que na verdade as avestruzes limitam-se a encostar a cabeça ao chão, portanto esta expressão popular baseia-se numa perceção e não num facto. Soa familiar? Mas vamos ao que importa e vejamos como é que os temas me soaram (excelente ponte, hein? não tivesse eu esta voz de cana rachada, estava na rádio a perguntar que barulho é este).

“Apago Tudo”

Intérprete:  Bombazine
Música e Letra: Filipe Andrade, Manuel Figueiredo, Manuel Granate, Manuel Protásio, Vasco Granate

Achei simpática, dançável, a atirar para o hipster, mas em engomadinho. Aliás, o vocalista usa uma entoação que, a tempos, me fez lembrar o B Fachada, só que com alegria de viver. A letra tem uns jogos de palavras engraçados, por exemplo “já me custa fazer das tripas canção”. Quanto à atuação, tudo afinadinho, com os 5 a dar uns pezinhos de dança que não envergonham ninguém e a passar aquela sensação de que estão bem contentinhos de ali estar. Menção honrosa para o teclista que, como dizer, demonstrou tal afinco naquele balançar pélvico que pode ou não ter engravidado o seu instrumento. Agora que já falei do que importa, deixem-me falar do que não interessa nada. Atenção, eu não tenha nada contra. Até tenho conhecidos que são. Mas a betalhada que para aqui vai, meus amigos. É que ou imitam bem ou disfarçam pauperrimamente. E bem tentaram. Ou acham que isto de se chamarem “Bombazine” e não “Veludo Cotelê”, que é como as pessoas que passam a segunda quinzena de agosto na Praia Grande dizem, foi inocente? Estou a ser preconceituosa? A estereotipar? A tirar conclusões precipitadas? Manuel (bateria) e Vasco Granate (voz/guitarra) têm outro irmão que faz parte da Seleção de Râguebi. Estamos conversados? Pronto, para a próxima acreditem em mim, que eu não vos engano. Pelo menos, intencionalmente.

“Eu Sei Que O Amor”

Intérprete: Margarida Campelo
Música: Margarida Campelo
Letra: Margarida Campelo, Ana Cláudia e Beatriz Pessoa

Recentemente, tomei conhecimento de Margarida Campelo, graças ao dueto no tema kuchisabishii do mui nobre trovador tondelense  Samuel Úria. Aproveito para recomendar o mais recente álbum do supra citado 2000 A.D., recheado de malhões até deitar por fora. E os outros álbuns todos dele, porque sim. Posto isto, Eu Sei Que O Amor é bem cantado, não posso dizer o contrário. E soa a genérico de novela portuguesa dos anos 80, o que por si só não é defeito, mas tenho que confessar que não me falou ao coração. As minhas desculpas aos amigos e familiares de Margarida, mas especialmente ao Úria. Parafraseando essa reconhecida pensadora da nossa praça “Samuel, bates forte cá dentro!”.  Fun fact, a propósito de família: Isabel Campelo, mãe de Margarida, faz parte do coro. O nome não dirá nada aos catraios que por aqui andam mas, para além de ser presença habitual no Festival (como concorrente ou backing singer), Isabel faz parte do imaginário da pequena Susaninha que via religiosamente o Regresso ao Passado de Júlio Isidro (até porque não havia alternativa) e se deixava embalar pela música do Vitinho. Nostálgicos, façam barulho!

“I Wanna Destroy You”

Intérprete: HENKA
Música: Cat Pereira, Jon Cassidy, Mirza Radonjica, Meyrick de la Fuente
Letra: Cat Pereira

Henka, Henka, Henka… Como é que eu te hei-de dizer isto… I Wanna Destroy You é certamente um ótimo tema. Para quem gosta. Válido ou não? Deixa-me ver o que é que eu posso dizer mais… Isto não é a minha praia. É legítimo, não me vão levar a mal. Mais coisas, mais coisas… Diria que o tema é uma espécie de filho dos Guano Apes com os Evanescence, se os Guano Apes e os Evanescence fossem primos? Direitos? E já me estiquei e vou-me calar e peço, desde já, imensa desculpa à Henka, porque sinto que ela me fazia um mata leão só com o olhar. Henka, girlie, adorei os tapetes de carro que usaste como saia. E isto não é uma piadola, foi ela que disse. E a última coisa que eu quero é entrar num confronto físico com alguém que vai comprar outfits à Norauto.

“Ninguém”

Intérprete: Bluay
Música: Bluay
Letra: Bluay e Murta

Não vou dizer que é jogo sujo, porque o Bluay parece-me uma joia de moço e, não tenho dúvidas, que teve a melhor das intenções. Nem vou dizer que é golpe baixo, porque gente mal intencionada poderá achar que é uma referência à reduzida estatura dos bailarinos mais encantadores que já passaram pelo palco do Festival. Sendo que, na verdade, não devem estar muito longe da minha altura e têm muito mais talento que eu. Ninguém é uma canção agradável, mas não é o tema mais interessante na chamada “minha opinião pessoal”. Mas mesmo que fosse, eu estava tão absolutamente encantada com a performance da Maria e do Filipe, utentes da Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental Lisboa, que a música passou para um papel secundário. A Maria, em particular, envergou um sorriso maior que o palco do início ao fim da atuação. O problema não és tu, Bluay, são eles. Mas obrigada por isto.

“Calafrio”

Intérprete: Jéssica Pina
Música: Jéssica Pina e Tomás Marques
Letra: Jéssica Pina

Sou fervorosamente contra o conceito “isto não é música de festival”. E aposto que há muita gente colocar este tema nessa caixa e quero que vão todos à fava com um saco, que é uma expressão que adoro e faz tanto sentido como essa vossa opinião quadrada do que é o candidato ideal para o certame, sendo certame uma palavra que se usa muito menos do que deveria. A música de Jéssica Pina pode não arrepiar (viram o que eu fiz aqui?), mas tem boa vibe, dá-me ganas de puxar do meu marido e dançar juntinho (isto é provavelmente oversharing, mas um dia não são dias) e Jéssica e as suas clones espalharam beleza e dengosidade no palco do Festival (eu sei que a palavra dengosidade não existe, mas fez-me sentido). Gostei. Mas não é a minha canção preferida.

“A Minha Casa”

Intérprete: Marco Rodrigues
Música: Tiago Machado
Letra: Tiago Machado, Marco Rodrigues

Um bom pedaço de fado, um bocadinho de Disney e o vozeirão/sentimento de Marco Rodrigues que soa bem em qualquer uma das opções. É uma canção bem bonita, uma das melhores desta edição, penso eu de que, e acredito que fique bem classificada, mas não sei se levará o caneco. É verdade que é interpretada por um fadista reconhecido pelo público, o que pode não querer dizer absolutamente nada. O histórico dos últimos anos não aponta para que a notoriedade do artista seja equivalente à vitória, muito pelo contrário. Apreciei deveras, mas também não é a minha canção preferida. Curiosidade: Marco Rodrigues tem um videoclip muito catita (Eu sou do Roque), realizado pela Cláudia Pascoal e Ricardo Leite. Essa mesma, que ganhou este certame (foi só mais esta vez) em 2018, tendo empatado inicialmente com Emmy Curl, de que vou falar daqui a quatro canções. Veem como todos os caminhos vão dar ao Festival da Canção, seus haters?

“Deslocado”

Intérprete: NAPA
Música: João Guilherme Gomes, João Lourenço Gomes, João Rodrigues, Diogo Góis, Francisco Sousa, André Santos
Letra: João Guilherme Gomes

Tem uma letra com que muita gente se poderá identificar, é orelhuda e está trending no TikTok (e não estou a julgar ninguém por isso). Numa nota mais pessoal, acho que o vocalista dos NAPA tem um ar tão querido  que me apetece convidá-lo para ir lá a casa jantar ao domingo e mandá-lo embora com tupperwares para a semana, mas pode ser só o meu instinto maternal a falar. O facto de ele ter citado Saramago no vídeo de apresentação “Só podemos ver a ilha, quando saímos da ilha” pode ter tido influência. E como se isso não fosse suficiente, estes 4 imberbes madeirenses elencam este rol de influências musicais: Arctic Monkeys, Red Hot Chilli Peppers, Beatles, Caetano Veloso e Tom Jobim. Deslocado não me cativou à primeira escuta, mas foi ganhando a minha afeição com a repetição. E sou menina para apostar que vai ficar lá para o topo da votação, assim os likes se transformem em votos. Mas mantém-se o suspense que está a enervar absolutamente ninguém: também não seria esta a minha vencedora.

“Adamastor”

Intérprete: Peculiar
Música e Letra: João Nicolau Quintela

Vou ser polémica. Ou talvez não, porque esta canção está na fase final graças à repescagem por voto do público, na primeira semifinal. Não sei se gosto da música, mas gostei da performance. Não sei se vou ouvir mais coisas do Peculiar (bom nome artístico, by the way), mas acho aquele número meio homem das cavernas, meio homoerótico um tanto ou quanto fascinante e tenho dificuldade em desviar o olhar e não é por isso que estão a pensar, seus javardos. É tudo meio aleatório, mas tudo parece encaixar, muito graças à coreografia com sentido de espectáculo, bem executada, vocalista incluído. E não tenho mais grande coisa a dizer, porque há pouco de racional ou lógico nesta avaliação. Gosto, não sei bem porque é que gosto, mas…. também não é esta.

“Medo”

Intérprete: Fernando Daniel
Música e Letra: Fernando Daniel, Diana Lima

“Ah e tal, tens que separar a arte do artista!” Para começar, não tenho que fazer nada, porque quem manda em mim sou eu. E tenho de ser fiel ao meu público (sou ridícula) e dizer as coisas como elas são. Ao longo deste Festival, não consegui afastar o eco de um episódio relativamente recentemente do Extremamente Desagradável em que Fernando Daniel surpreendeu ao partilhar duas coisas extraordinárias. 1- Foi visitar a fábrica de móveis de Celso Las Kasas, por sua livre iniciativa, horas antes de um concerto. 2- A sua certeza inabalável de que vai ser o maior artista português de sempre. E tenho poucas dúvidas que ele olha para esta competição como um passo nesse sentido, tanto que garantiu na semifinal que o objetivo dele não era ganhar o Festival, era ganhar a Eurovisão. Posto isto, goste-se ou não, o Fernando Daniel tem um um estilo bem definido e reconhecível. Sou das que não gosta e, mesmo assim, sei cantar uma mão cheia de músicas dele. Estou, aliás, disponível para atuações em pequenos eventos, cachet a negociar (sou muito ridícula). Mas falando a sério, que eu sei que o jurado do The Voice levou isto muito a sério, acho sempre corajoso um artista com um alcance como o de Fernando sujeitar-se a uma competição como esta, em que a popularidade não é necessariamente um trunfo, como referi anteriormente. Quando ouvi o tema no YouTube, achei que não aproveitava o facto dele cantar nas horas. Mas vim a perceber que foi uma estratégia rumo a Basileia, onde vai acontecer a final da Eurovisão, porque Fernando subiu de nível na semi-final e subiu a parada na final. Sabes muito, ó Nandinho. Nem vou julgar. Não adoro a canção, especialmente aquele coro meio Coldplay, mas acredito que vá agradar a muita gente, como os senhores das pulseiras de LED que enchem estádios. Há que dizer, ainda, que o nosso Fernando esticou o orçamento para esta performance multi-cenários e não me espantava se ainda tivesse metido algum. Não sei se vai compensar.

“Rapsódia da Paz”

Intérprete: emmy Curl
Música: emmy Curl
Letra: Catarina Miranda, Marília Miranda

Esta querida faz-me lembrar horrores a La Via de Marie, fada das internets e ex-concorrente de reality show. Pronto, já tirei isto do caminho, podemos prosseguir. Em 2018, emmy concorreu ao Festival com um tema de Júlio Resende (fazer vénia, enquanto se pronuncia o nome). E um músico desta estirpe tê-la escolhida para ser a sua intérprete é, sem dúvida, coisa para me impressionar. Dito isto, não fiquei impressionadíssima na altura, mas certamente o problema era meu, até porque emmy ficou em segundo lugar. Corta para 2025 e eu não gostei nem um bocadinho deste tema, agora da sua autoria, que me soa a alguma coisa que ouviria na Feira Medieval de Óbidos e talvez seja esse o problema: falta-me uma ginjinha no bucho para apreciar isto. Ou uma garrafa inteira. Sorry, emmy. It’s a no for me. Nota de rodapé: a minha solidariedade com as pobres bailarinas, que pareciam uns morcegos albinos. Também deve ter havido álcool envolvido quando aceitaram apresentar-se naqueles preparos. Ou então sou eu que sou uma bota de elástico e isto é tudo espectacular. O que é bastante plausível.

“Tristeza”

Intérprete: JOSH
Música: JOSH, João Gaspar
Letra: JOSH

“Tristeza” tem uma sonoridade que tem tido bastante saída na competição internacional e apresentou-se com um staging profundamente eurovisivo, mesmo que numa versão low cost, o que o torna um pouco repetitivo. Mas a versão low cost é a possível, tendo em conta o teto orçamental da RTP ao nível da sub-cave, embora alguns queiram fazer crer que é coisa para pagar vivendas de 3 andares a menos de 100 metros da praia para cada um dos funcionários da estação pública. Mas falemos do Josh, que tem 21 anos e chegou aqui por mérito próprio e não por apelido. Não me vou armar em esperta e dizer que vi primeiro, mas eu vi primeiro. Quer dizer, eu e toda a gente que assistiu à edição do The Voice em que o Josh participou. Gostei logo da voz dele, chamou-me a atenção o facto de escolher canções que não não passam na Mega FM ou na RFM (o que é bastante refrescante), mas o que me encantou mesmo foi a forma de cantar. Este amor à primeira vista só foi maculado pelas suas opções ao nível de manicure, aquele tamanho de unha é coisa para me angustiar em mãos femininas e masculinas, em igual medida. Mas o talento sobrepôs-se e decidi aceitar, garras incluídas. Aceitar, não abraçar, que ele deve passar o tempo a golpear pessoas inadvertidamente. Josh é um bom candidato à vitória, mas não é a minha canção preferida.

“Cotovia”

Intérprete: Diana Vilarinho
Música: Joana Alegre, Diana Vilarinho e Ricardo Ribeiro
Letra: Joana Alegre

Este vai ser curto e não é por ser a última e não é a paciência a escassear, juro. Está tudo certo com o tema Cotovia. A Diana entregou voz, intenção e carisma. A mensagem “Sem cara lei que mascara / A ferida que nunca sara / Maldade, orgulho, doente / Achar que mulher não é gente” que, por coincidência, chega à final no dia da Mulher. A composição taylor-made para a voz da intérprete. Dito isto, não me ficou na memória e acho que padece de ter algumas semelhanças com o Grito que ganhou o ano passado, mas pode ser só o caso de “o problema não és tu, sou eu”.

Enquanto se contam os votos, vou ser curta e grossa, no que diz respeito ao resto. Ao nível da apresentação, a Filomena e o Vasco fizeram isto bem, como nas anteriores edições. A abertura estava muito bem feita, com graça e teve a Rosinha e a Serenella Andrade. Logo, está tudo certo. O estreante Alexandre Guimarães foi ótimo na Green Room, a Catarina Maia esteve melhor do que em ocasiões anteriores e eu tenho um crush gigante pelo Wandson, por isso não sei se a minha avaliação de que ele é perfeito em todas as ocasiões, é de fiar. Houve paródia musical, como de costume, e funcionou muito bem. O habitual momento de imagens de arquivo acompanhado de voz off é sempre um ponto alto para mim, que adoro estas viagens ao passado. Quanto aos interlúdios musicais, a homenagem a Carlos Paredes (Expresso Transatlântico, Legendary Tigerman e Ana Lua Caiano) é mais que devida e o original medley dos temas vencedores da Suíça (João Borsch, Maria João e HUCA) foi incrível a tempos, confuso noutros, mas interessante sempre. Isto é: gostei, mas já conheço o formato de cor. “Então, diz lá como é que fazias, chica esperta?” Também não sei e está tarde para pensar nisso agora. Mas confio em vocês, RTP.

[a homenagem a Carlos Paredes:]

E rufo de tambores, ganhou o Tiktok. Mais uma vez, não estou a julgar e já lá levámos temas bem piores, mas preparem-se para o coro “isto é música de Festival” nas caixas de comentários. O que é certo é que foi batido o recorde de votos por chamada e estou convencida que foi o efeito “NAPA”, que trouxe eleitores estreantes para o Festival da Canção (fonte: vozes na minha cabeça). Espero que venham para ficar. A Henka, a quem mando um grande beijinho e os parabéns pela justíssima aclamação popular, recebeu os 12 pontos do voto do público e zero pontos dos jurados, que se encontram neste momento num local seguro com escolta policial, por precaução (fonte: a mesma anteriormente referida).

“Então, Susana, qual era a tua canção preferida?”. Pronto, pronto. Eu digo: Quem Foi? do Luca Argel. Levou-me às lágrimas, coisa que nunca me tinha sucedido no Festival “Ninguém escolhe a terra onde nasceu / Mas se foi Deus quem nos deu pés p’ra caminhar / Quem foi que disse que eu não posso aqui ficar?”. Não passou na segunda semifinal. Quem é que é a especialista disto, quem é? Vemo-nos em Basileia.