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Das noivas ao escritório, "tudo é uma forma de ganhar dinheiro". Como Gonçalo Peixoto guia a Moda na contramão da crise

Este artigo tem mais de 1 ano

Na mesma edição em que Luís Buchinho pode ter apresentado a última coleção, o jovem criador faz filas de influenciadoras e assume que domina o lado comercial. "Faço o trabalho de casa".

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Numa edição em que as reflexões sobre o cenário da moda em Portugal regressam à mesa — Luís Buchinho assume que não quer mais lançar novas coleções e antecipa dificuldades para a criação de autor e Nuno Baltazar destaca a falta de apoios e se demarca do conceito de indústria da moda — Gonçalo Peixoto é dos poucos que continua prego a fundo. “Tenho uma visão um bocadinho mais alegre e mais feliz, mas porque eu vou ao encontro daquilo que as clientes querem. Eu faço esse trabalho de casa que é: o que é que se está a vender? O que é que elas querem comprar? O que é que se está a comprar? E eu tento adaptar-me”, diz ao Observador, horas antes de apresentar a sua coleção outono/inverno 2025 na ModaLisboa.

Com uma coleção que não foge daquilo que já é tendência, levou o workwear pela terceira vez à passarelle desta ModaLisboa, mas com a sua identidade jovem, sexy e cool. “É o lápis a amarrar o cabelo, um lado descontraído mas ao mesmo tempo muito arrojado, e não é um regresso ao escritório normal, é um regresso ao escritório em Gonçalo Peixoto. É uma coleção de empoderamento feminino em que a mulher mostra que é a boss“, diz o criador que justifica a escolha por ser “um assunto muito século XXI que faz sentido ser trabalhado”. Porém, o designer deixa claro que nunca desvincula a inspiração do lado comercial. “Isto no final do dia tem que vender, tem que dar dinheiro. Ou seja, há uma parte comercial que não pode ser desligada. E nós precisamos pegar no workwear, aquilo que já é o regresso ao escritório, mas torná-lo cool, comercial. Questionar como é que conseguimos pôr isto a vender, que materiais podem ser usados, este é o maior desafio sempre, a parte comercial da dinâmica”.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Na passarelle vimos os fatos oversized em cores como o vinho ou o preto, casacos compridos e elegantes, mas também coordenados em seda listada, mini saias e muitos vestidos de lantejoulas, tudo aquilo que faz desta uma “coleção bem Gonçalo Peixoto”. E também uma coleção democrática, com peças para todos os gostos e ocasiões. “Isto é workwear cool. Mas há todo um processo de vestidos de casamento, vestidos de baile. Tudo isto pode ser retirado deste contexto e posto em outro. Ou seja, há looks para elas irem a batizados, casamentos, bailes de finalistas. A coleção para mim tem que ter toda esta panóplia de looks porque há dias em que elas querem comprar um fato e há dias em que elas querem comprar um vestido longo para ir num casamento.”

Gonçalo Peixoto tem uma abordagem descomplicada sobre o processo de criar coleções. “No Natal o que vende são os vestidos de lantejoulas porque é o que elas querem. Onde é que o português gasta dinheiro neste momento? Nas festas de casamentos e nas festas em geral. Eu faço muito esse trabalho de fazer roupa para esse tipo de situações. E aí eu sei que as vou vender. Também me tento adaptar um bocadinho àquilo que é a necessidade do mercado”, destaca. Foi o que o motivou a lançar em 2024 uma coleção de noivas. “Está a correr super bem. Sentia que tinha clientes que tinham crescido com a marca nos últimos anos, eram miúdas e entretanto começaram a casar-se e diziam: ‘Porque é que eu não posso casar-me em Gonçalo Peixoto?’ Não tinha pensado fazer, mas eu preciso de vender. Então ‘bora’ dar para poder ganhar dinheiro.” Se pretende lançar mais coleções para casamentos? “Sim claro. Porque as noivas gastam dinheiro.”

▲ Da esquerda para a direita: as influencers Mariana Machado, Mel Jordão, Su Oliveira e Inês Brusselmans. A seguir, Mafalda Sampaio e Alice Trewinnard, antes do desfile de Gonçalo Peixoto.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

É esta forma de ver a moda que levou Gonçalo Peixoto a crescer exponencialmente em Portugal e lá fora. Cá, veste a maioria das influenciadoras digitais, que lotaram as bancadas do desfile na ModaLisboa e o aplaudiram de pé. Foi também o desfile que mais filas gerou do lado de fora, um público jovem, e não só, à espera de ver o que o designer trendy das redes sociais tem de novo. Mas também já vestiu celebridades internacionais, como a cantora Rita Ora, e não esconde que ainda quer chegar a nomes como Rihanna. “Daqui a 5 anos a internacionalização já estará mais consolidada“, acredita o criador. “Há muito peixe no oceano, mas acho que é normal, nós todos os anos temos figuras públicas internacionais a usar, e acho que é um processo”. Ao contrário da visão menos otimista de alguns designers, nesta ModaLisboa Gonçalo Peixoto consolida-se como o criador mais popular da sua geração e prova que viver da moda em Portugal pode ser possível, mas tem um preço. “Estamos num momento em que a moda está a mudar então é importante aproveitar tudo. Tudo é uma forma de ganhar dinheiro, temos é que estar aqui para agarrar. Senão é isto, caímos numa rutura.”

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