“Salva pelo futebol”. É desta forma que Débora Vieira Costa, conhecida por Debinha no mundo do futebol, se apresenta. Tem 22 anos, atua como média-ofensiva e, recentemente, tornou-se jogadora do Atlético Mineiro. Apesar de o seu percurso no futebol ser pautado pelo crescimento, nem sempre foi assim durante a sua vida. Com apenas um ano de vida, Debinha foi abandonada pelo pai biológico e cresceu na família que já tinha acolhido a sua mãe. Cresceu em São Sebastião do Tocatins, cidade no interior-norte brasileiro com cerca de quatro mil habitantes e, à semelhança do que já tinha acontecido com a sua progenitora, também foi abusada sexual pelo pai adotivo em criança. Volvidas duas décadas tornou-se num exemplo de superação e não tem dúvidas: “O futebol mudou a minha vida. É tudo o que tenho. É a minha motivação todos os dias. O futebol salvou a minha vida”.
Em entrevista à ESPN Brasil, Debinha partilhou a sua história de vida antes de se tornar jogadora profissional de futebol. Quando o pai a abandonou, ficou com a mãe, mas como “ela não tinha condições” para a criar juntamente com o irmão, entregou-a à mesma família que tinha cuidado de si. “Com a minha mãe adotiva era muito bom. Mas aí entra a parte do homem que devia ser o meu protetor, não é? Neste caso, o marido dela… foi [uma infância] conturbada, sofri… fui violada. Tinha cerca de oito anos e durou até aos 12. Foi bastante tempo. Na altura não contei a ninguém porque, em criança, não se entende aquilo e não entendia a atitude. Também tinha medo de não ter para onde ir. Esse homem é segurança numa escola e aproveitava quando a minha mãe não estava [em casa] para fazer tudo isso”, revelou, confidenciando que a mãe adotiva nunca desconfiou dos crimes do marido.
“Tinha muita vergonha e guardei isso para mim durante bastante tempo. Um dia voltei para a minha cidade natal para visitar a família que me criou e a minha mãe de sangue também estava lá. Contei-lhe o que aconteceu comigo e ela disse que tinha passado pelo mesmo, com o mesmo homem, que também a criou. Ele já tinha abusado dela e abusou de mim. Contámos às duas filhas desse homem e a mais velha relatou que ele fez a mesma coisa com ela e só não o fez com a mais nova porque a mais velha a protegeu. Na altura fiquei muito revoltada porque nenhuma delas teve coragem de partilhar publicamente”, acrescentou.
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“Ele tem duas netas de sangue e percebi que eu era mais uma vítima porque as outras não tinham dito nada. Sabia que não era a última porque haviam mais duas meninas a crescer na família. Não sabia como pedir ajuda. Publiquei um vídeo no Instagram e esse vídeo explodiu, chegando ao meu pai de sangue, que nunca fez nada na minha vida. Ele recorreu para a justiça e tomaram conta do caso. Depois da denúncia, demorou um ano ou um ano e meio até ele ser preso”, partilhou Debinha, que disse ainda que demorou nove anos até partilhar o que passou. O homem acabou por ser condenado pela justiça a oito anos de prisão.
???????????? Debinha é a nova meio-campista do #Galo!
Com muita juventude e velocidade, a atleta, que chega do São José-SP, fará parte do nosso elenco em 2025! pic.twitter.com/JtX8juFEuq
— Galo Futebol Feminino (@GaloFFeminino) January 29, 2025
“Quando contei à minha mãe tive de fugir porque tive medo de continuar a conviver [com o pai adotivo] no mesmo local. A única coisa que me custa é não poder voltar para casa, ver a minha mãe adotiva e os meus amigos. Espero que os pais estejam mais atentos e que observem, principalmente dentro de casa. O maior perigo está dentro de casa. Acontece sempre com a pessoa mais próxima de si porque se torna vulnerável. Espero que as mulheres não sintam vergonha do que aconteceu e possam ter a iniciativa de falar abertamente. Espero que possamos dar voz às mulheres, para que elas se sintam seguras, possam falar sobre isso e que não se sintam culpadas, porque a sociedade coloca a vítima como culpada. Espero que possamos falar sobre isso abertamente nas escolas e em casa, dar educação sexual aos filhos e dar abertura para que eles possam pedir ajuda, e não colocar a criança como culpada”, referiu a agora jogadora do galo.
Foi no futebol que Debinha encontrou salvação e prosseguiu o seu sonho. Saiu de casa com apenas 14 anos e partiu para Goiânia, onde representou o Campineira, passando depois por Palmeiras, Realidade Jovem e São José, no estado de São Paulo. Foi na equipa do interior paulista que despontou nas últimas duas temporadas e chamou a atenção do Atlético-MG, onde terá de lutar pelo seu lugar na equipas, mas é vista como uma jovem revelação. “Hoje em dia olho para trás e vejo onde cheguei. Estou no Atlético-MG e sinto-me muito feliz e realizada. Tenho a oportunidade que pedi a Deus. Tenho tudo que sempre quis e procurei. Sinto-me muito feliz pelo presente”, terminou.