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Homenagem à viagem de Vasco da Gama à Índia, Bonança é o novo restaurante da Associação Naval de Lisboa

Este artigo tem mais de 1 ano

Nem de propósito, depois da depressão Martinho há um novo restaurante à beira rio. É no clube náutico mais antigo de Portugal que nasce e vem homenagear o caminho marítimo para a Índia.

O mural do Bonança evoca o presente de D. Manuel I ao Papa Leão X, em 1514, com símbolos dos Descobrimentos
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▲O mural do Bonança evoca o presente de D. Manuel I ao Papa Leão X, em 1514, com símbolos dos Descobrimentos

▲O mural do Bonança evoca o presente de D. Manuel I ao Papa Leão X, em 1514, com símbolos dos Descobrimentos

História

Há uma bonança pela qual os portugueses anseiam que chegue depois da depressão Martinho, que tem caído sobre o país neste início de primavera — que nem se parece com uma —, mas não é dessa que falamos. Se depois da tempestade vem a Bonança, em Lisboa não há que esperar mais, com um soft opening desde o início de março do restaurante com aquele mesmo nome a convidar a entrar e a fugir ao temporal, enquanto que lá fora as águas do Tejo quase que galgam as margens da zona ribeirinha de Belém. É essa a vista que temos: rio, Padrão dos Descobrimentos, Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém, mais lá ao fundo. Estranho seria se esta Bonança não os tivesse como ponto fulcral da história que conta: os Descobrimentos.

Foi em 1497 que Vasco da Gama partiu de Belém com uma frota de quatro caravelas rumo a um então oceano desconhecido. É essa mesma viagem — o caminho marítimo para a Índia — que se conta à mesa deste novo restaurante que vem dar uma segunda vida à Associação Naval de Lisboa, no mesmo sítio onde, no século XV, Vasco da Gama seguiu a sua aventura. Fundado em 1856, este que é o clube náutico mais antigo de Portugal chegou a este edifício depois da Exposição do Mundo Português, organizada em plena Segunda Guerra Mundial, em 1940, com o objetivo de divulgar a história de Portugal, e sendo também um instrumento de propaganda do Estado Novo. Oitenta e cinco anos passados, restam desses tempos um íconico mural que nos enche as vistas assim que colocamos pé no Bonança. E que também se enquadra com o tema.

▲ A decoração do Bonança é uma mistura de contemporâneo com náutico

Recuperado pelas técnicas Pureza Peres e Anaísa Franco, do WOA – Way of Arts, a peça central deste restaurante evoca o presente de D. Manuel I ao Papa Leão X, em 1514, com símbolos dos Descobrimentos portugueses, como o elefante, o lince e o cavalo árabe, que veio selar uma longa relação entre Portugal e Roma. Refletindo o espírito da época na cozinha, música e atmosfera, o Bonança vem assim celebrar esse legado. “Há um centro de tudo o que nós contamos. A viagem de Vasco da Gama daqui até à Índia. E tudo o que envolve em termos gastronómicos, culturais, dos ambientes criados e mesmo da nossa programação musical”, explica Salvador Sobral (não confundir com o cantor), um dos quatro sócios do projeto, que, afirma ainda, quer que seja “muito mais do que um restaurante”.

Ao leme da cozinha desta que quer ser “uma nova alternativa cultural” em Lisboa está o chef Carlos Nunes que, vindo do Artsy Cascais, não hesitou em abraçar a proposta de celebração do mar e da cozinha portuguesa e ibérica, para ser provada em diferentes contextos — já lá vamos — mas sempre com o rio Tejo como pano de fundo.

Espaço

Percebemos a grandiosidade do espaço assim que entramos pelas portas. Com mais de 10 metros de pé direito, o Bonança “é um barco enorme”, diz-nos Salvador Sobral. Se contarmos só com o número de lugares que recebe cá dentro, são logo 150, mas, com a esplanada que tal como o povo português também anseia por sol, acrescem aos 200. Com espaço para tanto, os sócios não quiseram fazer deste um lugar estanque, dando por isso destaque à ideia de flexibilidade: cada zona do restaurante proporciona uma experiência diferente. Começando no piso zero, há uma montra de marisco fresco entre a cozinha e o bar, que em breve vai convidar a sentar e a provar os cocktails, e uma sala onde quer se almoce ou jante se tem o mural como companhia e um teto desafogado que, pintado de azul escuro e com grandes candeeiros dourados pendurados, quer ser encarado como um céu estrelado.

▲ A sala Vasco da Gama e o recanto mais privado no piso superior

Já no piso de cima, e com vista lá para baixo, as paredes enchem-se de pormenores náuticos, mantidos da vida antiga que tiveram no clube, e que se espalham até à sala Vasco da Gama onde aí sim se entra num barco: “É uma homenagem ao clube, quase que uma gentleman’s room. A vivência é completamente diferente do resto. O teto é muito mais baixo. É literalmente como se estivesse num outro restaurante”, descreve. Mais fechada em si, com a lareira acesa e os tons castanhos da madeira a tomarem conta do espaço, pode ser reservada para eventos e reuniões. Na mesma ótica, há também um recanto — já fora da sala Vasco da Gama — com uma mesa escondida com grandes cortinas para os clientes que queiram mais privacidade.

Assinado pelo Oani Studio, o projeto ganha agora vida depois de uma viagem, podemos dizer, atribulada. “Isto estava um bocado ao abandono, com o teto a cair”, descreve o sócio, explicando que tiveram de restaurar todo o espaço, até mesmo a fachada, e algumas das peças que “eram bonitas e recuperámos”: “Estes candeeiros pequenos, um brasão de madeira”, enumera, dando ainda destaque à canoa que baloiça sobre as cabeças de quem se senta na mesa junto à janela.

“Nós olhamos para isto com várias perspetivas. Isto é um centro que é lindo de manhã à noite. À noite é lindo porque está tudo iluminado. Durante o dia é lindo porque estamos em cima do rio. E ao fim da tarde porque temos um pôr do sol de frente para nós”, descreve. Mas, esta ideia de Bonança que chega com o projeto pronto pode vir a mudar em breve com a Intempérie. Aberto de quarta-feira a domingo, dentro de dois meses o Bonança vai passar a estar aberto todos os dias, e todo o dia, com uma programação cultural que vai também picar a viagem de Vasco de Gama. “Durante o fim de semana vamos ter dj e a partir de determinada hora vamos virar da parte da bonança para a intempérie. São duas nuances que temos sempre. A Bonança é sempre a base principal mas depois temos essa parte de festa”, explica. Esta mudança de bonança para intempérie é assim “simbolicamente representada pelo atravessar do cabo da Boa Esperança”.

▲ Também na carta do Bonança é evocada a viagem de Vasco da Gama à Índia com sabores que vão do Ocidente ao Oriente

Comida

Há uma rosa dos ventos que nos recebe quando abrimos o menu para nos guiar por esta viagem de sabores que começa em Portugal e se espalha até à Índia, passando por influências africanas e árabes pelo caminho. Sem a mínima “pretensão de sermos asiáticos”, há apontamentos que nos encaminham até uma cozinha de conforto que tanto celebra o mar como a cozinha de fogo. A viagem começa assim no mar com o tártaro de atum com molho ponzu e maçã (21 euros) acompanhado por uma crocante folha de arroz e alga nori frita e o carpaccio de camarão vermelho e ovas de truta (25 euros). Tendo sempre em vista a partilha, a carta vai variar conforme a sazonalidade e os sabores da estação apresentando agora tártaro de carne maronesa com pão tostado (18 euros), uma fresca burrata com pistácio e romã (13 euros) que equilibra o doce com salgado, o tradicional croquete de carne com maionese de mostarda (12 euros) e as macias espetadas de cachaço de porco fumada com vinagrete de pimentos (14 euros).

▲ Tártaro de atum com molho ponzu e maçã acompanhado por uma crocante folha de arroz e alga nori frita

Passando da partilha aos principais — também de conforto — há arroz malandro de lingueirão com coentros (22 euros), spaguetti de camarão com manteiga de ouriço (27 euros) e arroz de pato com miúdos, enchidos e gomos de laranja (48 euros). A acompanhar esta “homenagem à alma portuguesa”, há uma carta de vinhos selecionados pelo sommelier Fernando Cortes que se apresenta com 95% de opções nacionais: “É uma carta de vinhos maioritariamente portuguesa mas com referências incontornáveis”.

Já para as sobremesas, chega-nos à mesa um vinho do porto tawny que vem acompanhar quatro opções doces e, talvez, leves. Começamos pelo fofo e húmido pão de ló à moda de Alfeizerão (12 euros), acompanhado por gelado de laranja, seguido do leve arroz doce com curd de limão e canela do ceilão (6,5 euros). Também com fruta da época (5 euros) e gelado artesanal (5 euros), esta doce carta conta ainda com o aromático abacaxi grelhado com gengibre e merengue (7,5 euros) e o brownie de chocolate negro com gelado de avelã e cacau (9 euros).

▲ brownie de chocolate negro com gelado de avelã e cacau

“Cuidado, está quente” é uma rubrica do Observador onde se dão a conhecer novos (e renovados) restaurantes e cartas.

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