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Câmara de Lisboa abate jacarandás para construir parque de estacionamento subterrâneo

Este artigo tem mais de 1 ano

Petição pública critica retirada de 47 jacarandás na Avenida 5 de Outubro, em Lisboa, por causa de um parque de estacionamento. Autarquia rebate e diz que "será duplicado o número de árvores".

Troço da Avenida 5 de Outubro, em Lisboa
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▲Troço da Avenida 5 de Outubro, em Lisboa

▲Troço da Avenida 5 de Outubro, em Lisboa

A Câmara Municipal de Lisboa vai abater 25 jacarandás na Avenida 5 de Outubro, na zona de Entrecampos, em Lisboa, para construir um parque de estacionamento subterrâneo junto ao megaempreendimento que o grupo Fidelidade está a erguer nos terrenos da antiga Feira Popular de Lisboa.

A informação começou a circular nas redes sociais nos últimos dias, depois de terem sido afixadas folhas nas árvores em causa com informação sobre o abate. Os moradores rebateram com uma petição pública — que conta, à data de publicação deste artigo, com mais de 18 mil assinaturas. Através das redes sociais, o município liderado por Carlos Moedas (PSD/CDS-PP) respondeu com uma publicação em que atesta que a avenida “vai ficar mais verde e com mais árvores”.

Em causa está a alteração das áreas verdes que farão parte da nova centralidade da capital, a dois passos de um projeto promovido pelos donos dos terrenos da antiga Feira Popular, a seguradora Fidelidade, que os comprou por 238,5 milhões de euros, em 2018, em hasta pública promovida pela Câmara Municipal de Lisboa (CML). Em 2023, os arquitetos Álvaro Siza Vieira, Eduardo Souto de Moura e Ana Costa, responsáveis pelos projetos dos prédios residenciais do megaempreendimento, já tinham manifestado desilusão por terem sido ignoradas as sugestões por si apresentadas para os espaços verdes. Em 2024, também o jornal Público dava conta que o projeto, entretanto alterado, reduzia, de facto, a área de espaços verdes em 780 metros quadrados, mas previa a manutenção dos jacarandás. 

Só que a CML voltou atrás e, afinal, a implantação do estacionamento subterrâneo sob a zona nascente daquela artéria vai implicar o abate de árvores, tal como a primeira versão do projeto. Na última semana, folhas de papel A4 surgiram afixadas em várias das árvores em causa na Avenida 5 de Outubro. Nelas lia-se:

Intervenções no Arvoredo. Por motivo de urbanização, e por não ter viabilidade para transplante, esta árvore será abatida. No âmbito da obra será substituída por novos exemplares de outra espécie. Obrigada pela sua compreensão.”

A mensagem acabaria amplificada nas redes sociais graças a criadores de conteúdos dedicados a plantas — como Sofia Manuel (conhecida como @atripeirinha) e Nuno Prates (@the_lisboan_gardener, no Instagram) —, cujas publicações alcançaram milhares de gostos e partilhas. O passa-palavra resultaria numa petição pública na passada sexta-feira pelo “Não ao abate dos jacarandás da Av. 5 de Outubro”, dirigida ao Presidente e Vereadores da Câmara Municipal de Lisboa (CML), à Assembleia Municipal de Lisboa e ao Presidente e Junta de Freguesia das Avenidas Novas (JFAN). “Em causa está o abate de árvores adultas, mas também a falta de comunicação sólida e de prestação de esclarecimentos acerca do assunto”, consta no texto.

▲ Os jacarandás, à esquerda, diante dos antigos terrenos da Feira Popular de Lisboa, e que desaparecerão. O Observador questionou a autarquia quando está previsto o abate, mas não obteve resposta

A petição critica o formato — “algo preso a uma árvore: uma folha A4, com um texto ladeado por fotografias de vegetação, certamente para decoração, presa ao tronco com fita-cola” — e as “mensagens precárias” que “não sobreviveram ao temporal causado pela depressão Martinho”, para conhecer “as duas razões para o abate: motivos de urbanismo e a inviabilidade do transplante”. “Depreendemos que as razões de urbanismo, que poderiam ser quase qualquer coisa, são, na verdade, uma obra quando mais à frente se escreve “no âmbito da obra [esta árvore] será substituída por novos exemplares de outra espécie”. Ficamos sem saber que obra é, quais as razões que impossibilitam os transplantes, de que espécie serão as novas árvores e sequer se serão colocadas na localização anterior. Também ficamos sem saber onde consultar esta informação”, pode ler-se.

▲ O estado dos jacarandás na Avenida 5 de outubro, em Lisboa, esta segunda-feira, já sem folhas afixadas

A fundamentação para o abate está explicitada no site da autarquia. “Esta é uma intervenção no âmbito da operação urbanística de Entrecampos, necessária para a concretização da Unidade de Execução de Entrecampos e construção de um estacionamento subterrâneo na Avenida Cinco de Outubro“, lê-se na Ficha Técnica do Arvoredo Ref.ª NA/TBT/N.º 1 de 16/01/2025, que anuncia a “remoção de quarenta e sete árvores, das quais vinte e duas serão transplantadas para outras áreas verdes da freguesia, não reunindo, as restantes, condições para transplante“. Em suma, serão “25 árvores a abater” e “22 árvores a transplantar”.

Câmara de Lisboa vai explicar publicamente projeto que inclui abate de jacarandás

Perante a revolta de muitos cidadãos, a Câmara Municipal de Lisboa recorreu às redes sociais este domingo com a seguinte publicação: “A Avenida 5 de Outubro vai ficar mais verde e com mais árvores”, lê-se sobre uma imagem 3D do projeto final para o troço em causa. “A intervenção tem por objetivo construir o novo parque de estacionamento público de Entrecampos e, no final, será duplicado o número de árvores naquela zona, o que contrasta com o plano original para a zona, que previa que todas teriam que ser cortadas. O projeto em execução considera um aumento considerável de área verde e permeável através da plantação de nova vegetação de mais de 30 novas espécies de arbustos e herbáceas, com mais 41 árvores que atualmente, na Av. 5 de Outubro. permitindo, assim, um aumento de área de sombreamento e de passeios permeáveis da Avenida para cerca de 3500m²”.

▲ A publicação nas redes sociais da Câmara Municipal de Lisboa este domingo, 23 de março

Questionado pelo Observador, o gabinete de imprensa do Presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, partilhou uma apresentação sobre o “processo de transplantes de árvores”, onde se revela que os 21 transplantes vão ser realizados num raio inferior a três km do ponto de origem e que à, exceção de um, todos os outros transplantes irão decorrer na freguesia das Avenidas Novas. No mesmo documento, enviado a este jornal, a CML garante que que após o fim dos trabalhos ficarão 118 árvores naquela via, contra as atuais 77.

No mesmo documento é visível o resultado da intervenção. Junto à antiga Feira Popular não restará qualquer jacarandá: serão abatidos 19 e outros 21 transplantados. Do lado poente, ficam 30 jacarandás, seis serão abatidos e um irá para transplante.

▲ No documento sobre a intervenção na Avenida 5 de outubro vêem-se as árvores que serão abatidas, as que serão transplantadas e as que serão mantidas

CML

O Observador endereçou uma série de questões à CML, nomeadamente o que motivou a mudança na decisão sobre o abate de árvores, a data prevista para a operação, o que inviabiliza as transplantações, se foi medido o impacto ambiental do processo, além da escolha da autarquia na forma de comunicar o abate aos cidadãos, mas não obteve resposta até à data de publicação deste artigo.

A floração dos jacarandás no hemisfério Norte é de maio a junho. A árvore originária da América do Sul e que colora as ruas de azul e roxo terá chegado a Lisboa pela mão de Félix de Avelar Brotero, diretor do Jardim Botânico da Ajuda no início do século XIX. O poeta Eugénio de Andrade dedicou-lhe um poema intitulado Aos Jacarandás de Lisboa.

Numa nota de imprensa esta segunda-feira, a vereadora do Livre, Patrícia Gonçalves, recorda que, em 2022, nas primeiras reuniões na CML sobre o projeto de Entrecampos, “o Livre chamou a atenção para a importância de se preservar na íntegra o conjunto de jacarandás na Av. 5 de Outubro” e lembra que na reunião de Câmara, a 26 de julho de 2024, o partido votou contra a proposta dos Novos Tempos de alteração do loteamento, que determinou o abate. “Infelizmente, os votos contra a proposta não foram suficientes para evitar esta decisão.”

Notícia atualizada às 15h32 para incluir a nota de imprensa do Livre.

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