Um cartaz do Chega com a mensagem “50 anos de corrupção” e os rostos de Luís Montenegro e José Sócrates está nas ruas há várias semanas, mas marcou o debate político nesta segunda-feira, com trocas de acusações entre os líderes do PSD, PS e Chega.
Tudo começou perto das 16h00, quando a CNN avançou a informação de que o primeiro-ministro tinha apresentado uma providência cautelar contra o Chega. Luís Montenegro pediu ao tribunal uma compensação de 10 mil e euros e a retirada no prazo de cinco dias de todos os cartazes que o associam ao antigo primeiro-ministro, que vai ser julgado por corrupção e outros crimes económico-financeiros no processo Operação Marquês a partir de 3 de julho.
A ação começou por ser recusada, com o tribunal a conferir direito ao contraditório ao Chega, notificando no passado dia 20 o partido liderado por André Ventura para essa situação.
Ventura e as semelhanças entre Sócrates e Montenegro
Ato contínuo, Ventura passou ao ataque e garantiu, em declarações aos jornalistas em Queluz (Sintra), que não ia retirar os cartazes, ao considerar que os mesmos “evidenciam que o sistema está podre e corrupto”.
“Começo a ver em Luís Montenegro muitas semelhanças do que tínhamos tido com José Sócrates“, disse o líder do Chega e sublinhou que, “se José Sócrates também quiser processar”, irá ver “o que é que a justiça quer fazer”.
Sem recuar na associação de Montenegro a Sócrates, o presidente do Chega recordou uma frase marcante de um juiz no âmbito do processo Operação Marquês para abordar as condições financeiras do atual primeiro-ministro e líder do PSD.
“Como os tribunais têm dito: ‘quem cabritos dá e cabras não tem, de algum lado lhe vem’. Luís Montenegro tem dado o pior exemplo nessa matéria e por isso eu soube hoje que tínhamos sido processados e respeito isso como exercício de ação judicial, mas não respeito isso politicamente, porque significa que o primeiro-ministro não convive bem com a liberdade de expressão“, vincou.
“Montenegro”, continuou André Ventura, “é um símbolo da corrupção que Portugal tem de combater”. Por isso, apesar de assumir “estupefação” com a situação, garantiu não se arrepender da decisão de avançar com aquele cartaz e expressou confiança na decisão da justiça: “É um mau dia para Luís Montenegro e para a democracia, mas estou confiante que a justiça vai tomar a decisão certa”.
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Montenegro acusa Ventura de “condicionar a justiça”. E teve resposta
Numa mensagem publicada na rede social X, Luís Montenegro acusou André Ventura e o Chega de tentarem condicionar a justiça, ao revelarem a providência cautelar na sequência da notificação para exercerem o direito ao contraditório.
“A providência cautelar entrou no passado dia 14. Sem notícias, deixamos para o tribunal a sua discussão e decisão. Hoje veio a público porque o Chega foi notificado e logo quis condicionar a justiça”, começou por escrever na sua conta oficial naquela rede social, reforçando as acusações: “O Chega e o seu líder não têm limites. Não se confunda liberdade de expressão com ofensas e calúnias gratuitas“.
A providência cautelar entrou no passado dia 14. Sem notícias, deixamos para o tribunal a sua discussão e decisão. Hoje veio a público porque o Chega foi notificado e logo quis condicionar a justiça. O Chega e o seu líder não têm limites. Não se confunda liberdade de expressão…
— Luís Montenegro (@LMontenegropm) March 24, 2025
Na providência cautelar, Montenegro defendeu, segundo a CNN, que aquele cartaz o prejudica “como cidadão, marido e pai”, pedindo ao tribunal para que atue rapidamente, multando o Chega em 10 mil euros caso não retire os cartazes no prazo referido.
A resposta chegou também via X. O líder do Chega acusou o primeiro-ministro de tentar calar o partido antes deste ser sequer ouvido, acrescentando que “José Sócrates quis fazer algo parecido”.
“O primeiro-ministro não processou apenas o Chega. Luís Montenegro tentou que, sem sequer ouvir a outra parte, o tribunal mandasse retirar todos os outdoors do Chega. Tentou calar-nos sem sequer sermos ouvidos. Como todos se lembram, José Sócrates quis fazer algo parecido”, lê-se na publicação.
O Primeiro-Ministro não processou apenas o Chega. Luís Montenegro tentou que, sem sequer ouvir a outra parte, o tribunal mandasse retirar todos os outdoors do Chega. Tentou calar-nos sem sequer sermos ouvidos. Como todos se lembram, José Sócrates quis fazer algo parecido. pic.twitter.com/aYH97HW1r5
— André Ventura (@AndreCVentura) March 24, 2025
Pedro Nuno Santos critica Chega e Montenegro
O cartaz do Chega e a troca de acusações entre Montenegro e Ventura não passou ao lado de Pedro Nuno Santos, com o secretário-geral do PS a distribuir críticas aos dois rivais políticos.
Na entrevista desta noite à CNN, o líder socialista assegurou que o “PS não se revê nesta forma de o Chega fazer campanha“. Todavia, não deixou de realçar que “em vários momentos o PS denunciou a forma do Chega fazer política”, acusando Montenegro de “só se preocupar quando agora lhe toca a ele”.
Com recurso a um cartaz da AD da última campanha eleitoral, no qual se lia “Corrupção e falta de ética — Já não dá para continuar”, Pedro Nuno Santos visou diretamente Luís Montenegro pela dualidade de critérios nesta matéria: “Os políticos não podem ter duas faces. Tenho pena que noutros momentos Luís Montenegro não tenha sido duro com o Chega”.