Morreu Luís Oliveira, fundador da Antígona, confirmou o Observador junto da editora. O editor, de 84 anos, morreu esta segunda-feira, em Lisboa.
“Ingénito provocador, fundou a Antígona em 1979 e construiu um catálogo coerente, de língua de fora, centrado na crítica do mundo e um eterno elogio à inteligência dos leitores”, lê-se num comunicado da editora enviado às redações esta terça-feira. “Dono de uma força imensa e de uma energia contagiante, fazia do mundo um «espaço de encontros que visam o prazer e a construção de um lugar ameno, deleitoso e voluptuoso». Dançou até ao fim.” Numa nota de pesar, a ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, descreve um homem que “dedicou a sua vida aos livros e ao pensamento crítico, cultivando o gosto pela palavra, pelo debate e pela liberdade”.
Natural de Chãos, uma aldeia perto de Tomar, Luís Oliveira foi amigo de Herberto Helder e antes de ser editor teve uma livraria, a Apolo, em Santarém, onde também frequentava o Café Central, cenário de tertúlias literárias e conspirativas durante o Estado Novo, até se mudar para a capital em 1973, contou em entrevista ao jornal Público.
Em junho de 1979, fundou a editora Antígona — que deve o nome à figura grega, heroína de Sófocles, que simboliza a desobediência —, que iniciou a sua atividade com a publicação do título Declaração de Guerra às Forças Armadas e Outros Aparelhos Repressivos do Estado. O livro, assinado sob o nome Custódio Losa, foi escrito a quatro mãos por Oliveira e Torcato Sepúlveda, e anunciava já o programa editorial que se viria a concretizar ao longo de 46 anos. “Esta declaração de guerra é um convite à dissidência”, lê-se na sinopse da obra, há muito esgotada.
“Uma conspiração permanente contra o mundo. Desde 1979 a empurrar as palavras contra a ordem dominante”, era o mote da editora que publicou mais de 400 títulos, entre eles A Desobediência Civil, de Henry David Thoreau, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell ou a obra completa de Albert Cossery. O Banqueiro Anarquista, de Fernando Pessoa, publicado à revelia da editora que detinha os direitos da obra, a Ática, foi um dos primeiros grandes sucessos, apesar de lhe ter valido ameaças de processos.
Ao longo dos anos, a chancela raras vezes publicou autores portugueses. A justificação é explicitada no site: “Poucos autores portugueses se identificam com a nossa linha editorial”.
Com uma imagem gráfica ímpar, a Antígona distinguiu-se também no plano da edição, tendo sido pioneira no destaque dado ao papel do tradutor, catapultando o seu nome para a capa das obras. Em 2007, da Antígona partiu uma nova chancela, a Orfeu Negro, fundada por Carla Oliveira, filha de Luís Oliveira. A editora, dedicada à publicação de ensaios e outros trabalhos documentais no âmbito das artes contemporâneas, ganhou independência da Antígona em 2012.
Nos últimos anos, Luís Oliveira andara a escrever uma novela de título Ela Voltou para Erguer um Monumento ao Seu Primeiro Amor, como contou em entrevista ao jornal Expresso, aquando dos 40 anos da Antígona — que não seria a casa pela qual haveria de lançar o livro, “evidentemente”, diria. O livro acabaria por sair com outro título: A Tempestade Foi um Instante, em 2021, com o pseudónimo de Leopoldo Alves dos Reis (Edições Ismene e distribuição Antígona).
Na mesma entrevista ao semanário, a caminho dos 80 anos (faria agora 85 em abril), Luís Oliveira dizia que não tencionava retirar-se. “Farei isto até ao fim”, anunciava. “Acordo todos os dias bem disposto porque sei que venho para aqui. Se quer que lhe diga, agora tenho ainda mais gozo em descobrir livros para publicar do que tinha no início. Até salivo!”
Notícia atualizada às 17h15 para incluir a nota de pesar do Ministério da Cultura.
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