A incerteza foi esvaziada ainda antes de a cerimónia começar. Ao lado de Fernando Gomes, o diretor nacional da Polícia Judiciária (PJ) garantiu que o antigo presidente da Federação Portuguesa de Futebol “não é visado” na investigação por suspeitas de corrupção que desencadeou buscas na sede do organismo durante esta terça-feira. De um segundo para o outro, a nuvem negra que poderia pairar no Auditório Almada Negreiros, no Centro Cultural de Belém, dissipou-se.

Ainda assim, o dia não foi um dia qualquer. Horas antes da tomada de posse como presidente do Comité Olímpico de Portugal, uma semana depois de vencer Laurentino Dias nas eleições, Fernando Gomes ficou a saber que a Polícia Judiciária está a investigar vários crimes relacionados com a venda da antiga sede da Federação Portuguesa de Futebol — algo que ocorreu durante o seu penúltimo mandato e que, até agora, causou um arguido. Com a inocência atestada pelo diretor nacional da PJ, porém, Fernando Gomes recebeu Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro de queixo erguido e sem reservas.

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No Centro Cultural de Belém, onde também marcaram presença Carlos Moedas, André Villas-Boas e Pedro Duarte, o economista de 73 anos tomou posse como o 15.º presidente do Comité Olímpico de Portugal, sucedendo a Artur Lopes, que era o líder interino desde agosto do ano passado e da morte de José Manuel Constantino. No início da intervenção, já depois dos restantes órgãos sociais também serem empossados, Fernando Gomes decidiu começar por falar sobre o silêncio.

“Há uma série da Netflix a espantar a Europa e o mundo. Chama-se ‘Adolescência’. Uma produção densa, dura, dilacerante e profundamente atual. Nela se mede impacto e a dimensão do silêncio, do que não vemos, mas está diante de nós todos os dias. Sem a dimensão trágica e contundente desta história, que aproveito para recomendar a todos, o desporto vive a maioria das vezes no silêncio”, começou por dizer.

“Só se ouve a água puxada pelo canoísta na manhã fria do inverno, só se ouve o eco de paredes altas no pavilhão em que aquela jovem empunha o sabre, o florete ou a espada. E ouvem-se tantos e tantos outros silêncios. Demasiados silêncios. De repente, num mês de verão, em anos pares de quatro em quatro, vem um ruído desabrido. Um sobressalto geral que espanta e assusta. Ou não fosse tão atrevida a ignorância. Não das federações, não dos atletas, não das equipas. Mas de tudo o resto”, acrescentou, garantindo que “a era do silêncio e da ignorância precisa de terminar”.

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Mais à frente, sem nunca esquecer a vontade de honrar o legado de José Manuel Constantino, Fernando Gomes pediu a Estado, empresas e comunicação social que “não se escondam” e ainda saudou Diana Gomes Pedras, antiga nadadora olímpica que será a primeira mulher a exercer o cargo de secretária-geral do Comité Olímpico de Portugal, antes de desejar “votos de sucesso” a Kirsty Coventry, recém-eleita presidente do Comité Olímpico Internacional.

No discurso, o novo presidente do Comité Olímpico sublinhou uma linha de pensamento que já tinha deixado na altura em que apresentou a candidatura, assim como no dia das eleições, e ressalvou a importância que o apoio do Governo tem para o desporto. “Tenho a certeza de que, aconteça o que acontecer no dia 18 de maio, o Governo vai perceber definitivamente esta centralidade e a ambição de um plano claro e mensurável para os nossos objetivos comuns. Sei que, independentemente desse resultado, o desporto precisa de olhar para as suas fontes de financiamento e perceber se elas estão a contribuir para o equilíbrio e competência ou se estão a aumentar a vertigem que existe entre o futebol e todo o restante universo desportivo de muitos milhares de jovens talentos”, atirou.

Fernando Gomes anunciou ainda que já comunicou à FIFA e à UEFA que vai deixar os cargos que ocupava nos dois organismos, no Conselho da FIFA e como vice-presidente da UEFA, e dedicar-se por inteiro ao movimento olímpico. “O Comité Olímpico de Portugal é, a partir de hoje, a minha vida. A tempo inteiro e em exclusivo, sem amarras e sem agenda que não seja a defender os atletas, o olimpismo e o desporto nacional num todo”, garantiu.

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“Aqui ninguém vai baixar os braços, nem vai virar a cara às dificuldades. A campanha eleitoral terminou. As federações olímpicas e não olímpicas, que entenderam apoiar o Dr. Laurentino Dias, que mais uma vez saúdo de forma calorosa, são, aos meus olhos e aos de todos, tão importantes como qualquer outra. Se o resultado fosse diferente, sei que também seria assim. Estamos no caminho do espírito e dos valores olímpicos. É a eles que recorremos sempre. Terminou o tempo das palavras. Começa agora o tempo da ação. É para esse tempo que convoco todos. Pelo olimpismo, pelos nossos atletas e por Portugal”, terminou.

A cerimónia contou ainda com as intervenções de Luís Montenegro, que reafirmou o pacote de 65 milhões de euros para os Comités Olímpico e Paralímpico anunciado pelo Governo há vários meses, e Marcelo Rebelo de Sousa, que lembrou que “o mundo vive um tempo que é a negação do espírito olímpico”.

Nos órgãos sociais que foram eleitos para liderar o Comité Olímpico de Portugal nos próximos quatro anos, num mandato que inclui os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028, incluem-se também o vice-presidente Domingos Castro, atual presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, o vice-presidente Vasco Costa, atual presidente da Federação Portuguesa de Ténis, e a secretária-geral Diana Gomes Pedras, ex-nadadora olímpica. Rosa Mota também integra a Comissão Executiva, Leandro Silva lidera o Conselho Fiscal e Tiago Brandão Rodrigues, antigo ministro da Educação de António Costa, fica à frente do Conselho de Ética.