FC Porto, Liga Portugal, Federação Portuguesa de Futebol, Comité Olímpico de Portugal. Ao vencer as eleições desta quarta-feira, derrotando Laurentino Dias, Fernando Gomes foi eleito o novo presidente do Comité Olímpico, chegou ao quarto grande desafio no panorama desportivo português e tornou-se também o primeiro a liderar as três organizações.
Com 73 anos, pai de três filhos, o economista formado na Faculdade de Economia do Porto começou por ser jogador de basquetebol do FC Porto. Foi campeão nacional em três ocasiões, chegou à Seleção Nacional e foi já depois de licenciado que regressou ao clube como responsável pela modalidade, antes de chegar a vice-presidente e administrador da SAD.
Deixou o FC Porto para se atirar à Liga Portugal, mas o contexto da saída de Gilberto Madaíl pós-Mundial 2010 levou-o a decidir que estava pronto para voos mais altos. Candidatou-se à Federação Portuguesa de Futebol e por lá ficou até há bem pouco tempo – conquistando troféus no futebol, no futsal e no futebol de praia, levando o futebol feminino ao Europeu e ao Mundial, inaugurando a Cidade do Futebol e o Canal 11.
Agora, com a vitória nas eleições desta quarta-feira, segue-se o Comité Olímpico de Portugal e a preparação dos Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles. Com a garantia de que tudo será feito como o próprio sempre tentou: “Pensar sempre primeiro nos atletas e nos portugueses que deles se orgulham”.
▲ Depois de ter sido jogador de basquetebol do FC Porto, Fernando Gomes foi o braço direito de Pinto da Costa na área financeira
LUSA
FC Porto. O campeão nacional de basquetebol que se tornou homem-forte das contas
Ainda antes de ser Fernando Gomes, dirigente do FC Porto, foi Fernando Gomes da Silva, jogador de basquetebol do FC Porto. Tornou-se atleta dos dragões aos 12 anos, em plena década de 60, e não demorou até dar nas vistas pela qualidade acima da média enquanto base: foi duas vezes campeão nacional de juvenis, convocado para a Seleção Nacional de juniores e chegou ainda muito novo à equipa principal.
Com o passar dos anos, depressa se tornou “o Fernando Gomes do basquete” – para o distinguir do outro Fernando Gomes, o futuro Bibota do futebol, que na altura também já impressionava nas camadas jovens. Assistiu à construção do fenómeno Dale Dover, norte-americano com quem dividiu balneário e que é considerado um dos melhores de sempre a jogar em Portugal e fez parte da geração do basquetebol do FC Porto que teve tanto sucesso que levou à construção do Pavilhão Gimnodesportivo das Antas (mais tarde, Pavilhão Américo Sá).
Em 16 anos como jogador de basquetebol do FC Porto, conquistou três Campeonatos (1972, 1979 e 1980) e uma Taça de Portugal (1979), tendo sido convocado para a Seleção Nacional e recebido ainda o Troféu Pinga, o antecessor do Dragão de Ouro. Pelo meio, terminou a licenciatura em Economia na Faculdade de Economia do Porto, sendo depois convidado para ser professor assistente na mesma instituição.
Trabalhou na NCR, no Grupo Amorim e na SIAG antes de, no início dos anos 90, regressar ao FC Porto para começar uma longa carreira enquanto dirigente desportivo. Já depois de um curto período como presidente da Liga Portuguesa de Basquetebol, organização já extinta, reentrou nos dragões da forma mais expectável possível: como diretor do basquetebol, tornando-se o mais alto responsável pela modalidade durante vários anos.
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Em 1994, passou a vice-presidente de Jorge Nuno Pinto da Costa e ficou com a pasta do marketing, liderando o processo da criação da Porto Comercial. Com a profissionalização do clube e o advento das SAD a entrar em Portugal, assumiu o cargo de diretor-geral e administrador da SAD para a área financeira, tornando-se o homem-forte das contas do FC Porto. Pelo meio, por inerência, foi representante dos dragões no extinto G-14 e membro do Conselho da Associação Europeia de Clubes, para além de ter integrado vários comités da FIFA e da UEFA.
A ligação ao FC Porto estendeu-se até ao início de 2010, altura em que acabou por abandonar todas as funções – numa saída que, na altura, foi muito associada aos elevados montantes investidos nas contratações de Rúben Micael e Kléber quando o passivo dos dragões já chegava aos 140 milhões de euros. Em março, o passo seguinte foi anunciado: uma candidatura à presidência da então Liga Portuguesa de Futebol Profissional, a atual Liga Portugal.
▲ Conquista do Campeonato da Europa, em 2016, foi naturalmente um dos pontos altos dos mandatos de Fernando Gomes na FPF
ANTONIO COTRIM/EPA
Liga. Uma ponte curta para chegar à outra margem
Na sequência da renúncia de Hermínio Loureiro, que tinha sido eleito quatro anos antes, Fernando Gomes surgiu como candidato único à Liga Portuguesa de Futebol Profissional – já que Rui Alves, o putativo adversário e então presidente do Nacional, não conseguiu reunir as assinaturas necessárias para apresentar uma candidatura. Foi eleito com 39 votos favoráveis e duas abstenções, sendo que FC Porto, Nacional e Sp. Braga não chegaram a votar.
Como presidente da Liga, garantiu ter “competências específicas” e “experiência acumulada” para assumir o cargo, defendeu sempre um modelo empresarial e assegurou ter “um projeto extremamente interessante e atraente para um novo ciclo”. Afastou-se do FC Porto, tomando como óbvio cartão de apresentação a certeza de que os dragões não estariam ligados ao mandato ou aos destinos do organismo, sublinhando uma independência que procurou manter ao longo dos anos.
“É necessário que o Estado, os portugueses e as empresas olhem para o futebol como uma atividade extremamente importante no contexto económico e social do país. Esse será o meu maior desafio, até porque existem ainda algumas reminiscências do passado a que urge pôr fim”, afirmou, numa linha de pensamento que acabaria por levar para a Federação Portuguesa de Futebol (FPF).
A passagem de Fernando Gomes pela Liga, porém, acabou por ser uma autêntica nota de rodapé no currículo. Em 2010, na sequência do Campeonato do Mundo da África do Sul em que Portugal não foi além dos oitavos de final, Carlos Queiroz foi despedido do cargo de selecionador nacional e Gilberto Madaíl anunciou que iria pedir ao presidente da Assembleia Geral da FPF que convocasse eleições. Não demorou a acrescentar que não seria candidato ao sufrágio, abrindo a porta a uma renovação no organismo depois de década e meia de liderança, e motivou o aparecimento de uma autêntica dinastia.
Em setembro de 2011, pouco mais de um ano depois de tomar posse como presidente da Liga, Fernando Gomes anunciou que queria mesmo trocar o organismo pela FPF. Confirmou a candidatura, após “uma reflexão exclusivamente pessoal”, e deixou desde logo a certeza de que não estava preocupado com opiniões exteriores ao assumir que não iria deixar a Liga até ser formalmente obrigado. Ou seja, até ganhar as eleições.
FPF. 13 anos e três mandatos com um Europeu, uma Cidade e um canal de televisão
Quando apresentou oficialmente a candidatura à presidência da FPF, Fernando Gomes ainda tinha dois adversários: Filipe Soares Franco, ex-presidente do Sporting, e António Sequeira, secretário-geral do organismo de 1993 a 2006. Pouco depois, juntou-se Carlos Marta, então presidente da Câmara Municipal de Tondela, que acabaria mesmo por ser o único a chegar ao dia das eleições na sequência das desistências de Soares Franco e Sequeira.
▲ Uma das últimas pedras do legado de Fernando Gomes na FPF foi a candidatura à organização do Mundial 2030, com Espanha e Marrocos
ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Fernando Gomes fez campanha “em contacto permanente com todos os associados”, de forma discreta e sem grande abertura a debates ou entrevistas, mantendo um silêncio que estava muito ligado à tal ideia de que ainda era presidente da Liga. Em dezembro de 2011, ano e meio depois de ser eleito para a Liga, venceu Carlos Marta e foi eleito presidente da FPF com 46 votos contra 36, garantindo também o controlo da Assembleia Geral, do Conselho de Disciplina, do Conselho Fiscal e do Conselho de Arbitragem.
Seguiram-se 13 anos anos e três mandatos onde se torna impossível não considerar Fernando Gomes como o presidente mais bem sucedido da história da FPF. Com a conquista do Euro-2016 como o natural ex libris, as modalidades tuteladas pela organização somaram títulos, troféus e distinções: a Seleção Nacional de futebol também ganhou a Liga das Nações em 2019, a Seleção Nacional de futebol de praia foi campeã do mundo em 2015 e 2019 e a Seleção Nacional de futsal foi campeã do mundo em 2021, campeã europeia em 2018 e 2022 e ganhou a Finalíssima de 2022.
A tudo isso, acrescentam-se ainda os Europeus Sub-17, Sub-18 e Sub-19, em 2016, 2018 e 2023, e um óbvio crescimento do futebol feminino, com a Seleção Nacional a qualificar-se pela primeira vez tanto para o Campeonato da Europa como para o Campeonato do Mundo. No que toca à organização de grandes eventos, Portugal recebeu novamente a fase final de uma competição de seleções, com a Final Four da Liga das Nações de 2019 entre o Estádio do Dragão e o Estádio D. Afonso Henriques, e também albergou três finais da Liga dos Campeões masculina (2014, 2020 e 2021) e uma final feminina (2014).
Surgiram a Liga Revelação e a Liga 3, a Liga feminina passou a Liga BPI sob a tutela da FPF e nasceram tanto o Canal 11 como a Portugal Football School. Obviamente, foi também inaugurada a Cidade do Futebol, agora a casa de todas as seleções em Oeiras, atualizada em novembro do ano passado com a Arena Portugal, dedicada ao futsal. O legado de Fernando Gomes, naturalmente, culmina com a apresentação da candidatura conjunta à organização do Mundial 2030, com Espanha e Marrocos, que vai trazer para Portugal uma competição que nunca passou pelo país.
FPF. Fernando Gomes despede-se como o mais bem sucedido presidente de sempre
A aproximação do fim do terceiro e último mandato culminou com um processo particularmente agitado. Entre a saída de Fernando Santos e a chegada de um pouco consensual Roberto Martínez, as eliminações precoces no Mundial-2022 e no Euro-2024, as críticas à volta da eternização de Cristiano Ronaldo e até as dúvidas legais sobre o contrato do antigo selecionador nacional, os derradeiros dias de Fernando Gomes na Cidade do Futebol não foram simples. Mas foi precisamente isso que recordou há cerca de um mês, na carta de despedida, no dia da tomada de posse de Pedro Proença.
“Consciente de que este dia – o último como presidente da FPF – chegaria, nas últimas semanas reservei tempo para estar com as centenas de pessoas que contribuíram para o trabalho realizado na Federação Portuguesa de Futebol: funcionários da FPF, parceiros, sócios, clubes, mas também, claro, treinadores, jogadores e jogadoras das diferentes seleções. Nas conversas – onde se incluem colegas de Direção e órgãos sociais –, agradeci o apoio incondicional e salientei o orgulho que foi construir em conjunto o legado da FPF. Hoje, dirijo-me aos portugueses. Afinal, foi sempre neles que pensámos. Representar Portugal é o orgulho maior de cada um de nós. Ter oportunidade de o fazer ao mais alto nível é um privilégio e uma responsabilidade”, escreveu.
▲ Recente inauguração da Arena Portugal, no final do ano passado, terminou a fase 3 da Cidade do Futebol
JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA
COP. Uma corrida que chegou a ser a cinco, ficou só com três e acabou a dois
Com a anunciada saída da FPF, foi surgindo uma vaga de fundo para que liderasse um novo projeto: uma candidatura ao Comité Olímpico de Portugal, com eleições marcadas para março e à procura de um futuro depois da morte de José Manuel Constantino, que estava à frente do organismo desde 2013. Fernando Gomes pediu tempo para pensar, ganhou força com a declaração pública de apoio das Federações de Basquetebol, Râguebi, Ténis e Canoagem e tomou a decisão final já em dezembro.
Com todas as pastas definidas, arrumadas e resolvidas na FPF, depois da aprovação do 13.º Relatório e Contas com lucro, da inauguração da parte 3 da Cidade do Futebol com a Arena Portugal e da confirmação da organização do Mundial 2030 com Espanha e Marrocos, reuniu com o secretário de Estado do Desporto, realizou uma série de contactos no espaço de poucos dias e assegurou vários apoios adicionais que lhe davam boas chances de vitória.
“O meu foco esteve sempre nos portugueses, desde a Liga de basquetebol à Liga de Clubes, passando pela profunda transformação da FPF. Pensámos sempre primeiro nos atletas e nos portugueses que deles se orgulham. No Comité Olímpico, este princípio continuará inabalável. Vivo e sinto as emoções do desporto e do olimpismo desde os anos em que fui praticante de basquetebol. Como sempre fiz, venho para agregar o valor de todos e é com todos que irei impulsionar Portugal e o movimento olímpico nacional no mundo”, explicou na apresentação da candidatura, há algumas semanas, em plena sede do Comité Olímpico.
Chegou a ter quatro adversários: Jorge Vieira, antigo presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, José Manuel Araújo, secretário-geral de José Manuel Constantino no Comité Olímpico, Alexandre Mestre, antigo secretário de Estado do Desporto, e Laurentino Dias, também ele antigo secretário de Estado do Desporto. Jorge Vieira abandonou a corrida, lamentando aquilo a que chamou “contornos políticos inéditos”, José Manuel Araújo abdicou para apoiar Laurentino Dias enquanto candidato a vice-presidente e Alexandre Mestre acabou por decidir não apresentar a candidatura a dias da data limite.
No fim, Fernando Gomes foi a eleições contra Laurentino Dias – que durante as últimas semanas o acusou de nunca ter marcado presença numa Assembleia Geral do Comité Olímpico enquanto presidente da FPF. Venceu, tornando-se o primeiro a juntar as lideranças da Liga Portugal, da Federação Portuguesa de Futebol e do Comité Olímpico de Portugal.
Sob o lema “Saber Fazer, Fazer Vencer”, baseou a candidatura em cinco objetivos estratégicos: abordagem centrada no atleta, colaboração integrada, representação internacional, sustentabilidade no desporto e inclusão de diversidade. Nos últimos dias, numa entrevista à Rádio Renascença, garantiu ainda que não irá abdicar do apoio de 65 milhões (50 para o Comité Olímpico, 15 para o Comité Paralímpico) que foi anunciado no final do ano passado pelo Governo que agora caiu, assegurando que o próximo executivo terá de assumir a responsabilidade.
Nas listas que foram agora eleitas para liderar o Comité Olímpico de Portugal nos próximos quatro anos, num mandato que inclui os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028, incluem-se também o vice-presidente Domingos Castro, atual presidente da Federação Portuguesa de Atletismo, o vice-presidente Vasco Costa, atual presidente da Federação Portuguesa de Ténis, e a secretária-geral Diana Gomes, ex-nadadora olímpica. Rosa Mota também integra a Comissão Executiva, Leandro Silva lidera o Conselho Fiscal e Tiago Brandão Rodrigues, antigo ministro da Educação de António Costa, fica à frente do Conselho de Ética.