29 de março de 1975. 16 horas da tarde. Céu limpo e um sol que já não é de inverno, mas de primavera. Essa luz reflete de forma particular em 10 camisolas brancas que vão percorrendo o relvado do Estádio da Luz. Uma dessas camisolas é vestida por um avançado barbudo, que, apesar de ter a barba ainda escura, já não vai para novo — em termos futebolísticos, claro.
Tem 33 anos e não marcou nesse jogo. Esta descrição poderia adaptar-se a muitos avançados que passaram pela “Catedral” como adversários, mas não. Nessa tarde, as camisolas brancas eram do Benfica — que jogou com o equipamento alternativo — e o personagem de que falamos é ele. Eusébio da Silva Ferreira. E nessa tarde, apesar da cor diferente, jogou com o emblema do Benfica ao peito pela última vez na sua vida.
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O Pantera Negra não marcou nessa tarde, apesar de o Benfica ter vencido de goleada. 4-0 frente ao Clube Oriental de Lisboa, da freguesia de Marvila, em mais um passo rumo a um título que foi conquistado no final da época, já sem Eusébio. Um dia feliz para os encarnados pelo resultado, mas que, para Toni, capitão do Benfica nesse jogo, teve outro sentimento: “É um dia em que o futebol português ficou mais pobre, porque perdeu um dos seus mais íntimos representantes. A tristeza estava em todos nós. E esse campeonato que ganhámos foi, todo ele, para Eusébio”, conta o antigo futebolista ao Observador.
Cinquenta anos e mil aventuras depois, a memória desse jogo já não estava fresca para o agora vice-presidente da FPF. Não se recorda, por exemplo, de o jogo ter sido interrompido por uma agressão ao árbitro assistente e de ter sido Eusébio a convencer o árbitro Nemésio de Castro a não finalizar o jogo naquele momento. Mas lembra-se do contexto, e esse já pesava nas pernas do número 10.
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“Esse Eusébio já era um Eusébio massacrado com sete operações aos joelhos. E estamos a falar de um tempo onde as ferramentas que existiam e os meios que tínhamos para recuperar não são os de hoje. Naquela altura ainda não se falava em crioterapia, era tudo água quente. Era água quente nos finais dos jogos, nos finais dos treinos… até era contra-natura em relação àquilo que acontece hoje. Portanto, naturalmente, o Eusébio dos anos 60′ não era o que tínhamos em meados da década de 70′”, explica ao Observador.
Ainda assim, foi um Eusébio suficiente para seguir de malas e bagagens para Boston, para representar os Minutemen durante o que restou daquela temporada. Por lá só fez oito jogos e dois golos, mas era uma estrela que finalmente se cumpria, ofuscada durante a ditadura que nunca permitiu a sua saída. Quase um ano depois do 25 de abril de 1974 lá saiu, mas voltou… só que não foi para o Benfica.
Em 1977, representou o Beira-Mar enquanto a Liga Norte-Americana estava parada, sendo que no ano seguinte fez o mesmo, aproveitando a pausa competitiva nos Estados Unidos para vestir a camisola do União de Tomar. Mas nunca, de novo, o Benfica. Ausência essa que se tornou uma mágoa eterna no coração de Toni: “Claro que eu gostava que ele tivesse vindo fazer um ‘gancho’ de dois meses ao Benfica, eu fui o primeiro a fazer esse raciocínio. Mas isso era eu a falar com o coração, e aqui era a razão que tinha de imperar. Mas para mim, com o coração, Eusébio e Simões regressavam dos Estados Unidos e era logo: ‘Vamos, Benfica’.”
Esse regresso nunca aconteceu, mas ficam as memórias de águia ao peito. Memórias que, para o antigo capitão, têm agora de ser preservadas. “Isso é uma obrigação do Benfica. E o Benfica é uma coisa abstrata, o Benfica são as pessoas, são as pessoas que transitoriamente estão lá à frente. E por isso é uma obrigação dessas pessoas manter vivo o Eusébio. Hoje está o Rui Costa, ontem esteve o Vieira. Quem vier, terá sempre que passar às novas gerações. E as novas gerações estão no Seixal, nas casas de Benfica, nas escolas de Benfica espalhadas por Portugal e pelo mundo. É aí que a figura do Eusébio deve ser estudada, já que ele foi a figura máxima”, pede o lendário jogador e treinador.
Cinquenta anos depois, a figura continua presente. Mas só quem esteve no Estádio da Luz naquele dia 29 de março de 1975 guardará o último sorriso do Pantera Negra de águia ao peito, mesmo que seja vestido de branco.