Victor Hugo Cardinali, artista conhecido pelo seu circo homónimo, está a ser acusado de agressões, ofensas e ameaças de morte por um casal de trapezistas que trabalhava no circo do empresário. O vídeo de um dos artistas, ensanguentado a relatar a alegada agressão, está a ser amplamente partilhado nas redes sociais desde que foi publicado este domingo.
Tudo terá acontecido na passada sexta-feira, 4 de abril, o primeiro dia de uma série de três espetáculos do Circo Victor Hugo Cardinali na Trofa. Ao Observador, Vítor Constant e Bárbara Farias, trapezistas brasileiros que trabalhavam no circo, relatam que Victor Hugo Cardinali terá começado por tentar invadir a caravana onde estes viviam.
“Mandei uma mensagem para a Lesley [responsável pela contratação dos artistas do circo] por volta das 11h da manhã a dizer que as minhas mãos não estavam em condições, e que ia no hospital tomar uma injeção para poder fazer o espetáculo à noite”, recorda Vítor Constant. O artista acredita que terá sido o facto de não poder continuar o trabalho de montagem do circo por estar lesionado que terá levado ao episódio que se seguiu. “Dez minutos depois ele [Victor Hugo] foi lá golpear a nossa porta, a dizer para eu ir até à caravana dele e a expulsar-nos”.
▲ Os trapezistas fizeram uma publicação no Instagram esta segunda-feira, a denunciar as alegadas agressões de Victor Hugo Cardinali
Terá sido quando o casal saiu finalmente da caravana em busca da funcionária em questão, que o dono do circo terá agredido fisicamente um dos trapezistas. “Aí ele [Victor Hugo] encontrou-me no meio do caminho já querendo me bater”, conta Bárbara. “Eu tentando-me esquivar a todo o momento e ele a tentar avançar sobre mim… Disse-lhe: quer bater em mulher? Está acostumado a bater em mulheres? Aí ele fechou a mão para me bater na cara e foi o momento em que o meu marido se meteu à frente”, continua. Vítor corrobora e diz que se colocou em frente da mulher quando foi imediatamente agredido. “[Victor Hugo] Deu-me um soco na cara e caí. Ele veio para cima de mim e veio-me continuando socando e pisando. Quando me levantaram do chão veio o primo dele, que me deu outro soco”, conta ao Observador. Depois, contam, Cardinali terá agarrado numa pá e ameaçado o trapezista de morte, segundo o relato do casal.
Bárbara Farias diz que tentou pedir ajuda a outros trabalhadores do circo no local, mas sem sucesso. “Pedi ajuda, mas essa pessoa me ignorou porque é uma coisa comum no circo. Muita gente faz vista grossa. Ele é um domador de animais e acha que os seres humanos são animais. Ele faz o mesmo com os animais”, acusa. “Estamos cada vez mais sabendo historias de pessoas que trabalham ali. É uma coisa comum.”
O casal acabaria por se trancar de novo na caravana, só saindo com a chegada da polícia. “Chamámos a polícia, foi aí que gravei o vídeo”, conta Vítor. “A polícia chegou à porta do circo e disse-nos para ir apresentar queixa à esquadra. Disseram para fazer isso na cidade que fossemos ficar mais tempo para fazer todos os trâmites legais”, explica.
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Foi isso que fizeram esta segunda-feira. O casal formalizou uma queixa na esquadra do Bairro Alto, em Lisboa, confirmou o Observador junto de fonte oficial da PSP. Segundo a declaração a que o Observador teve acesso, Vítor Constant apresentou uma queixa por crimes contra a integridade física, por alegadamente ter sido agredido pelo suspeito, devidamente identificado no auto de denúncia. Além disso, o casal diz que também se dirigiu ao Hospital de São José para uma avaliação dos ferimentos.
Os artistas, de nacionalidade brasileira e com contrato até outubro, dizem estar em contacto com o Consulado do Brasil e advogados para perceber como lidar com um “processo complexo” que implicará não apenas a agressão, mas “também quebra de contrato”, notam. “Ao expulsar-nos ele deixou-nos sem casa, porque o nosso contrato inclui a moradia, está cedida pelo circo”, explica Bárbara, justificando a mudança temporária para a capital. “Estamos cheios de malas, cheios de tudo, contávamos ficar até outubro”, conta ao Observador. Nos últimos dias, ambos estão a viver na casa de uma amiga, em Lisboa. “Não sei o que vai suceder, mas não tem como perder [o caso] porque estou só lutando pelos meus direitos”, acredita.
Vítor Constant e Bárbara Farias vivem no Rio de Janeiro e têm uma escola de circo no Brasil. Chegaram a Portugal em novembro para trabalhar no Circo Victor Hugo Cardinali. Começaram a fazer parte dos espetáculos a partir das galas de Natal, naquela que é considerada a época alta nesta área. Várias fotografias nas redes sociais mostram os trapezistas em espetáculos dos últimos meses.
▲ Os trapezistas Vítor Constant e Bárbara Farias, num dos espetáculos do circo português
“Já conhecia o circo porque era um circo grande em Portugal, mas não tinha conhecimento do que já se passava”, lamenta Vítor. Bárbara diz que desde que partilharam o vídeo nas redes sociais têm sido inundados com denúncias de ex-trabalhadores. “Ouvimos que ‘nesse circo todo o mundo apanha, se não obedece apanha’, Estamos a receber histórias de há 30 anos”, conta.
O Observador tentou contactar Victor Hugo Cardinali por diversas vias, sem sucesso até à data de publicação deste artigo. Lesley, apontada como responsável pela contratação de artistas do circo, também não respondeu às tentativas de contacto deste jornal. Entretanto, os comentários nas redes sociais do Circo Cardinali foram desativados. À TVI, Cardinali prometeu um esclarecimento para breve através do advogado.
Nas redes sociais, Isabela Cardinali, que, segundo a própria, é familiar de Victor Hugo Cardinali, mas faz parte de outro circo da família, pronunciou-se sobre o tema. “Não sei o que se passou, o que sei é que efetivamente alguém foi agredido”, começou por dizer numa história no Instagram. “Sempre que me perguntam, és família do Vítor Cardinali? Sim, sou. É a verdade. É a realidade. Mas não trabalho para ele. Nunca trabalhei para ele. O circo dos meus pais é o Circo dos Horrores. E, portanto, tenho um nome familiar, sim, mas é só.”
“Não foi no meu espaço empresarial que aquela situação aconteceu. E, portanto, não tenho nada a ver com isso. E em relação ao restante, nem vou dizer comentários. Porque, como devem calcular, não sei de nada do que se passou ou não. Tenho pena que em pleno século XXI ainda haja agressão de parte a parte. E tenho, sinceramente, vergonha principalmente que coloquem o circo todo dentro de um saco.”
Depois da Trofa, o Circo Victor Hugo Cardinali está de 11 a 20 de abril na Póvoa de Varzim.