O Festival de Cannes acaba de anunciar que O Riso e a Faca, quinta longa-metragem de Pedro Pinho, vai competir na secção Un Certain Regard, num momento em que também se aguarda uma participação lusa no concurso pela Palma de Ouro de curta-metragem. Os novos filmes de Lynne Ramsay e Saeed Roustaee foram integrados na competição principal. Cannes vai decorrer entre 13 e 24 de maio.

O Riso e a Faca é um projeto já com alguns anos, iniciado em 2018 e depois travado pela pandemia. É a quinta longa-metragem do cineasta português após três documentários e uma ficção e um regresso à Croisette depois do enorme êxito de A Fábrica de Nada, estreado em 2017 e recebido em apoteose pela Quinzena dos Realizadores (entretanto renomeada Quinzena dos Cineastas).

O Riso e a Faca foi rodado na África Ocidental, conta com interpretações de Sérgio Coragem, Cleo Diára e Jonathan Guilherme nos principais papéis e volta a cruzar, tal como A Fábrica de Nada, atores profissionais e não profissionais no elenco (note-se que Cleo Diára estará também em Cannes pela sua participação em “Entroncamento”, de Pedro Cabeleira, selecionado pelo L’ACID).

Pedro Pinho numa foto de rodagem de “O Riso e a Faca”

A ficção segue a história de Sérgio, um engenheiro ambiental português que viaja para uma metrópole da África Ocidental. “Ali, trabalha para uma ONG, na construção de uma estrada entre o deserto e a selva, e envolve-se numa relação íntima mas desequilibrada com dois habitantes locais, Diara e Gui”, lê-se no comunicado de imprensa. “À medida que se adentra nas dinâmicas neocoloniais da comunidade de expatriados, esse laço frágil torna-se o seu único refúgio perante a solidão ou a barbárie.”

A sinopse sugere problemáticas e geografias que são muito caras a Pedro Pinho. O seu primeiro filme, o documentário Bab Sebta, co-realizado com Francisco Lobo, partia daquela zona africana, rumo a norte. Além desta relação com o continente negro, há um vínculo muito forte nesta obra a assuntos como o neocolonialismo, a política e a sua ligação problemática a estruturas económico-financeiras.

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O Riso e a Faca, que terá como título internacional o bem diferente (mas não menos enigmático) I Only Rest in the Storm, foi produzido pela Uma Pedra no Sapato, de Filipa Reis, e pela Terratreme (da qual Pinho é membro fundador), numa coprodução internacional que reuniu também o Brasil, a Roménia e a França.

Na competição principal, Cannes anunciou na lista das repescagens o aguardado regresso da escocesa Lynne Ramsay com Die My Love, que reuniu Jennifer Lawrence e Robert Pattinson a Sissy Spacek e Nick Nolte, assim como Mother And Child, de Saeed Roustaee, que assim se junta no concurso do seu conterrâneo Jafar Panahi – vamos ter, portanto, dois iranianos na disputa pela Palma de Ouro.

Jennifer Lawrence e Robert Pattinson em “Die My Love”, de Lynne Ramsay

Na secção não competitiva Cannes Première está Magalhães, de Lav Diaz, projeto há muito desejado pelo realizador filipino sobre o navegador Fernão de Magalhães, autor da primeira viagem de circum-navegação ao planeta. É um olhar sobre Magalhães contado pelo “outro lado”, o dos colonizados no tempo das Descobertas. O filme conta com coprodução portuguesa da Rosa Filmes, de Joaquim Sapinho. Já Ethan Coen, uma vez mais a solo (isto é, sem a assinatura do irmão Joel), mostrará Honey Don’t nas Sessões da Meia-Noite.

Voltando ao Un Certain Regard, Pedro Pinho terá afamada companhia no concurso que o acolhe e, curiosamente, é dos cineastas listados com maior experiência. Dos 16 filmes anunciados há duas semanas para esta secção, metade são primeiras obras. Contudo, algumas delas foram realizadas por rostos bem conhecidos. É o caso de Eleanor the Great, por exemplo, estreia na realização da atriz norte-americana Scarlett Johansson. A história gira em torno de uma nonagenária da Florida que se muda para Nova Iorque e se torna amiga de uma pessoa de 19 anos. Interpreta o papel June Squibb, veterana atriz da Off-Broadway que só começou a fazer cinema já sexagenária, no início da década de 90. Em 2014, Squibb foi nomeada para um Óscar de Melhor Atriz Secundária por Nebraska, de Alexander Payne.

Noutra primeira obra, Urchin, o britânico Harris Dickinson vai mostrar as suas capacidades na realização. Dickinson deu que falar em Cannes há 3 anos quando interpretou a personagem principal de O Triângulo da Tristeza, de Ruben Östlund, Palma de Ouro em 2022. Recentemente vimo-lo a contracenar com Nicole Kidman em Babygirl, de Halina Reijn.

Também anunciados esta quarta-feira no Un Certain Regard, juntam-se à lista Love Me Tender, de Anna Cazenave Cambet, Un Poeta, de Simón Mesa Soto e The Chronology of Water, estreia na realização de outra atriz norte-americana, Kristen Stewart – elevando assim para 20 o número de filmes a concurso nesta categoria.

O júri da secção Un Certain Regard ainda não foi anunciado, à semelhança dos jurados restantes da competição principal que acompanharão a presidente do júri deste ano, a atriz francesa Juliette Binoche.

UN CERTAIN REGARD 2025

O Riso e a Faca, de Pedro Pinho

La Misteriosa Mirada del Flamenco, de Diego Céspedes (primeira obra)

Météors, de Hubert Charuel

My Father’s Shadow, de Akinola Davies Jr. (primera obra)

L’inconnu de la Grande Arche, de Stéphane Demoustier

Urchin, de Harris Dickinson (primeira obra)

Homebound, de Neeraj Ghaywan

A Pale View of Hills, de Kei Ishikawa

Eleanor the Great, de Scarlett Johansson (primeira obra)

Karavan, de Zuzana Kirchnerova (primeira obra)

Pillion, de Harry Lighton (primeira obra)

Aisha Can’t Fly Away, de Morad Mostafa (primeira obra)

Once Upon a Time in Gaza, de Arab e Tarzan Nasser

The Plague, de Charlie Polinger (primeira obra)

Promised Sky, de Erige Sehiri

Le Città di Pianura, de Francesco Sossai

Testa o Croce?, de Matteo Zoppis e Alessio Rigo de Righi

Love Me Tender, de Anna Cazenave Cambet

Un Poeta, de Simón Mesa Soto

The Chronology of Water, de Kristen Stewart (primeira obra)