Mantiveram-se abertos durante as primeiras horas do apagão, mas ao início da tarde de segunda-feira os postos de combustível acabaram mesmo por encerrar. Não por ter havido uma ordem superior, mas porque não podiam mesmo operar sem energia. Os equipamentos são desligados por questões de segurança. É o que está previsto nos planos de contingência dos operadores em situações de crise, explica ao Observador o presidente da EPCOL (Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes), ex-APETRO.
A entidade deveria ter feito parte da célula de crise presidida pela ENSE (Entidade Nacional para o Setor Energético) que foi controlando a situação dos combustíveis no dia do apagão, mas a falta de comunicações tornou impossível a “convocatória”. Só pelas 23h00 de segunda-feira é que António Comprido conseguiu entrar em contacto com a célula. “Sem o problema das comunicações isto era gerível sem grandes sobressaltos”, afirma o responsável.
Foi neste ponto que esteve o principal fator de preocupação no transporte de combustíveis. “Houve dificuldades, como a dos operadores contactarem os seus transportadores e os próprios postos. Foi o mais complicado. A fluidez da resposta foi prejudicada pela queda total de todo o tipo de comunicações. Nós não temos um Siresp, usamos as comunicações fixas ou móveis”. Ainda assim, defende, “dentro das limitações, não foi por falta de combustível que a situação se agravou”.
Não foram registadas situações de rutura, garante António Comprido. Os postos fecharam e ficaram disponíveis apenas os cerca de 300 que estão incluídos na Rede de Emergência de Postos de Abastecimento (REPA), uma lista de consulta pública, que se mantém em funcionamento para servir hospitais, bombeiros ou polícias. “Foram mobilizados operadores de combustíveis, as forças armadas e os bombeiros para abastecer serviços como hospitais, prisões e empresas de água”, confirmou a ministra do Ambiente e Energia, Maria Graça do Carvalho, esta quarta-feira no parlamento.
“É um procedimento normal”, garante António Comprido. “Os próprios operadores têm os seus planos de contingência e os seus clientes”. Ou seja, “cada hospital, corpo de bombeiros, etc, é abastecido por um operador que está em contacto direto com eles, e foram garantidos todos os abastecimentos nas unidades críticas que precisaram de gasóleo para os geradores e para as viaturas das unidades que tiveram de circular”. Em alguns casos houve necessidade de as forças policiais facilitarem o percurso dos camiões cisterna, relata.
De acordo com a EPCOL, todos os postos que dispunham de geradores de emergência ficaram operacionais. “Isso aconteceu em bastantes e nos que ficaram a funcionar, sobretudo nos grandes aglomerados populacionais, houve um certo congestionamento e uma corrida às bombas, assim como houve corrida aos supermercados”.
Ainda assim, não houve notícias de situações graves de ruturas, assegura. Foi conhecida, sim, uma situação, já revelada pelo Observador e relatada esta quarta-feira pelo ministro Manuel Castro Almeida na RTP3, sobre o risco que correu a Maternidade Alfredo da Costa (MAC), que chegou a ter gasóleo suficiente para alimentar os geradores apenas por uma hora. “O trânsito estava caótico”, justificou o ministro da Coesão, estando por isso dificultada a chegada de veículos com combustível à MAC. Segundo Castro Almeida, o Governo garantiu “várias origens” de combustível, para garantir que a maternidade não chegava ao limite. “À última hora, quando estávamos com medo que não chegasse”, a solução foi determinar que iriam os motoristas dos ministros “levar o gasóleo que têm nos seus automóveis para a MAC”. Os motoristas “foram comprar e levar gasóleo à maternidade, e quando chegaram já um outro carro da GNR” tinha conseguido levar o combustível, “e até estava a Judiciária”. “Antes a mais que a menos”, finalizou o ministro.
Uma situação que António Comprido desconhece. O presidente da EPCOL conta que depois de reposta a energia no país, os postos que ficaram com pouco combustível por causa da corrida dos clientes começaram a ser reabastecidos. “Ontem (terça-feira) ao fim do dia a situação estava praticamente normalizada e não havia postos sem combustível nem em risco de abastecimento”.
Ainda assim, foi tomada uma medida de contingência. A EPCOL pediu uma autorização genérica ao IMT para poder transportar combustíveis neste 1º de maio, feriado, um dia em que, por lei, é proibido transportar matérias perigosas, tal como acontece aos domingos. “Para repor algumas situações que ainda não estivessem resolvidas”, explica. A autorização foi dada, cabendo depois a cada operador informar o IMT sobre as situações particulares de transporte. “É provável que esta quinta-feira haja alguns camiões cisterna a circular, mas serão situações pontuais”.
Outra das situações mais críticas no mapa dos abastecimentos essenciais foi o Aeroporto de Lisboa que é totalmente fornecido por via rodoviária. Neste caso, o problema não foi a falta de combustível para aviões, mas sim a necessidade de assegurar mais gasóleo para manter os geradores da infraestrutura a operar. Fonte da ANA explica que a concessionária tem também de garantir o fornecimento de energia às operações de controlo aéreo, para além dos sistemas fundamentais às partidas e chegadas. A incerteza sobre a retoma da energia elétrica e das comunicações obrigou a gerir com muita cautela as reservas de diesel. Sobretudo, durante as horas de caos e quando existiam enormes filas de carros a rodearem o aeroportos durante a tarde de segunda-feira.
O apagão fez ainda parar a única refinaria do país que, apesar de dispor de uma unidade de cogeração que produz energia, é umas das maiores clientes de eletricidade. Os sistemas da Galp em Sines começaram a retomar na terça-feira. Até à reposição total dos equipamentos ainda são necessários dois ou três dias, mas nada que ponha em causa o normal fornecimento de combustíveis ao país.