Às primeiras horas da manhã de segunda-feira foram muitas as pessoas que chegaram às estações de comboios da CP e acabaram por voltar para trás. A greve do sindicato que representa os revisores da empresa teve adesão total e não foram decretados serviços mínimos. Resultado: não houve comboios da CP a circular no dia 28 de abril. No setor não há dúvidas: a greve da CP acabou por “salvar” o dia do apagão no setor dos transportes.
Em Portugal, não houve imagens como as que chegaram de Espanha, onde milhares de pessoas tiveram de ser retiradas dos comboios pelas linhas. Nos primeiros instantes do corte de energia, fonte da Infraestruturas de Portugal (IP), que gere as redes rodoviária e ferroviária, garantia ao Observador que os centros de controlo de tráfego ferroviário e rodoviário mantinham-se em funcionamento, uma vez que dispõem de geradores. E assim foi até ao início da noite. “Foi possível garantir a alimentação durante todo o período do apagão”, adianta fonte oficial da IP.
Apesar da greve da CP, havia comboios a circular em Portugal na segunda-feira. Nomeadamente os da Fertagus, que circulam entre Lisboa e Setúbal e atravessam a Ponte 25 de Abril. Também nas primeiras horas do apagão, a mesma fonte da IP avançava que não havia comboios da Fertagus parados em plena via, estavam todos parados nas estações, não sendo por isso necessário retirar pessoas pelas linhas. Não foi coincidência. “Alguns comboios estavam parados em estações, os outros foram deslizados controladamente até aos locais de paragem”, explica a IP.
Mas até aqui, a greve da CP acabou por beneficiar os passageiros da Fertagus. Teria sido possível fazer a mesma operação, garante a gestora das linhas, “embora com maior dificuldade, uma vez que estariam mais comboios ao longo da rede”. A diferença, continua a IP, “é que nesse caso existiriam mais comboios a circular no momento do apagão, sendo mais exigente essa gestão”.
▲ Em Espanha, foram resgatadas de comboios mais de 35 mil pessoas.
AFP via Getty Images
Caso o corte prolongado de energia tivesse ocorrido num dia sem greve da CP, poderia mesmo ter sido necessário evacuar comboios e retirar passageiros a meio caminho. Isto porque no caso de “as subestações de tração elétrica da IP, que garantem a alimentação aos comboios não receberem energia por parte das subestações da REN ou EDP, não seria possível garantirmos a alimentação elétrica aos comboios”, admite a IP.
Metro de Lisboa não tem backup, mas está a estudar “cuidadosamente”
No caso do Metro de Lisboa, a situação foi diferente. A circulação fazia-se normalmente nas quatro linhas (azul, amarela, verde e vermelha) quando, às 11h33, a luz faltou. E as imagens de pessoas presas nas carruagens foram mesmo das primeiras a ilustrar o impacto do apagão em Portugal, como se percebe pelo liveblog do Observador. Isto porque “o Metropolitano de Lisboa não dispõe de um sistema de backup que permita a deslocação dos comboios até às estações em caso de falha total de energia”, aponta fonte oficial da empresa ao Observador.
A operação dos comboios do Metro “depende integralmente da alimentação elétrica”, explica a empresa, e por isso o apagão “comprometeu essa fonte de energia de forma generalizada”. Quando ocorre uma falha de energia, “o sistema de tração dos comboios interrompe-se de forma imediata, levando à paragem dos veículos no local onde se encontram. Esta paragem é uma consequência direta da ausência de alimentação elétrica e não resulta de uma falha técnica do sistema”, assegura o Metro.
Apesar de o corte de energia levar à paragem dos veículos, “os comboios dispõem de sistemas autónomos que garantem iluminação de socorro por um período suficiente para permitir a evacuação segura dos passageiros”. Também as galerias e estações “estão equipadas com sistemas de iluminação de emergência, cuja autonomia está dimensionada para assegurar as condições de visibilidade e segurança necessárias durante situações de evacuação”. Esta autonomia pode variar “em função do estado específico dos equipamentos”, mas o Metro estima que tanto nos comboios e nas galerias seja “de aproximadamente uma hora, e nas estações até quatro horas“.
Na passada segunda-feira, foi mesmo necessário ativar esses sistemas de emergência para retirar os passageiros que ficaram retidos nas carruagens pelos túneis, sendo esse o procedimento de segurança previsto. A empresa revela ao Observador que foram quatro os comboios que ficaram parados em galeria, ou seja, nos túneis: dois na linha verde e dois na linha vermelha.
“O Metropolitano de Lisboa dispõe de procedimentos de segurança rigorosamente definidos para este tipo de situações, procedimentos estes que se encontram alinhados com as normas nacionais e internacionais aplicáveis ao setor e que visam garantir a segurança e a integridade de todos os clientes e colaboradores, como foi o caso das evacuações efetuadas no dia 28 de abril”, garante a empresa. Assim, numa situação que implique a paragem imprevista de comboios fora das estações, como aconteceu na segunda-feira, “são imediatamente acionados os planos de emergência internos”.
A evacuação, explica a empresa, “é conduzida por equipas devidamente treinadas, que acompanham os passageiros ao longo de todo o processo, assegurando a sua orientação, proteção e conforto, dentro dos condicionalismos do contexto”. No dia do apagão, “todos os procedimentos previstos foram integralmente cumpridos, sem situações de pânico e sem a ocorrência de qualquer tipo de acidente”. Antes das 13h00 a operação de resgate estava concluída.
Questionado pelo Observador sobre o possível reforço de sistemas de backup na sequência do apagão, para evitar problemas no futuro, o Metro revela que “a possibilidade de reforço dos sistemas de backup, ou de implementação de soluções alternativas que aumentem a resiliência do sistema face a falhas prolongadas e energia, está a ser cuidadosamente estudada pelos serviços técnicos do Metropolitano de Lisboa”.
A análise, refere a empresa, “está a ser conduzida não só com base na experiência operacional interna e nas ofertas atuais de mercado, mas, também, tendo em conta as práticas e soluções implementadas ou a implementar em sistemas de metropolitano congéneres, a nível nacional e internacional”. O objetivo, acrescenta a mesma fonte, “é identificar opções tecnicamente viáveis, seguras e alinhadas com os mais elevados padrões do setor”. As conclusões da análise que está a ser feita “serão fundamentais para suportar qualquer decisão futura sobre investimentos em sistemas de apoio ou reforço da infraestrutura elétrica”.
Apesar de a energia ter sido reposta ainda na noite de segunda-feira, o Metro de Lisboa só voltou a abrir na manhã do dia seguinte. E não foi logo às 6h30 da manhã, pelo menos em todas as linhas. O Observador testemunhou que nas linha verde e azul, por exemplo, algumas estações ainda não estavam abertas quando já passava das 7h00.
O Metro explicou, nessa manhã, que a circulação estava a ser “reposta faseadamente” nas quatro linhas, tendo começado pelas linhas azul e vermelha. O problema, adiantou fonte do Metro ao Observador, foi o facto do apagão ter “desprogramado alguns equipamentos que tiveram de ser reprogramados para serem reativados”. Neste caso, “todos os equipamentos considerados vitais para a operação e segurança do sistema — como sistemas de sinalização, comunicações, videovigilância e controlo — estão ligados a fontes de energia socorrida”, ou seja, geradores, “que garantem o seu funcionamento por um período estimado de cerca de quatro horas após a falha da alimentação principal”. Na segunda-feira, a interrupção foi mais longa, e por isso a autonomia prevista do sistemas foi ultrapassada, “o que levou à desprogramação de alguns equipamentos”.
O Metro admite que embora “não seja tecnicamente viável garantir energia socorrida indefinidamente”, estão a ser “analisadas medidas que possam mitigar este tipo de impacto, nomeadamente através da revisão de autonomias, de rotinas de reposição mais céleres e da avaliação de soluções utilizadas noutros sistemas com desafios semelhantes”.
▲ O Metro de Lisboa reabriu progressivamente as estações na manhã de terça-feira.
No setor dos transportes, o impacto do apagão também se fez sentir na Carris, nomeadamente nos elétricos de Lisboa, que ficaram parados na via, tendo sido socorridos por reboques. Os autocarros circularam com normalidade e a Câmara Municipal de Lisboa deu a indicação de que os passageiros poderiam utilizá-los de forma gratuita, de forma a facilitar o transporte.
A mesma medida foi tomada pela Transtejo Soflusa, que liga Lisboa à margem sul do Tejo por barco. Todas as ligações fluviais foram mantidas e a empresa decidiu que, enquanto houvesse passageiros, o transporte seria gratuito.
O Metro do Porto também parou, mas ao contrário do que acontece em Lisboa, não houve relatos de passageiros retirados pelas linhas. O serviço foi reposto na terça-feira às 6h00, informou a empresa.
O Governo já revelou que vai pedir várias auditorias a setores afetados pelo apagão, como é o caso dos transportes. Esta quinta-feira, em comunicado, o ministério das Infraestruturas comunicou que será feita uma auditoria pelo Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT) “enquanto organismo da administração indireta do Estado encarregue das funções de regulamentação técnica, coordenação, fiscalização e planeamento nos setores dos transportes terrestres, fluviais e
respetivas infraestruturas”.
As exigências do Governo são várias. O trabalho deverá incluir a “identificação dos impactos na integralidade e funcionalidade das infraestruturas”, a “avaliação da capacidade operacional dos gestores das infraestruturas”, a “avaliação da resiliência, redundância e capacidade de recuperação dos serviços dos operadores de transporte, bem como dos detentores de infraestruturas” e a “verificação dos mecanismos de prevenção, deteção e mitigação de falhas implementados,
nomeadamente a existência, ativação e implementação de planos de contingência”.
O ministério de Miguel Pinto Luz quer ver ainda apurada a “eficácia das comunicações e reporte entre os agentes” dos vários transportes “e as autoridades públicas durante o evento”, o “impacto nos serviços críticos e essenciais, com destaque para os sistemas de emergência e proteção civil”, e uma avaliação “dos serviços prestados e do cumprimento das obrigações legais, regulamentares e contratuais de serviço público por parte dos agentes dos setores suprarreferidos ou detentores de
infraestruturas”.
Pedem-se ainda “propostas de medidas corretivas, estruturais, regulatórias ou outras consideradas adequadas para assegurar o funcionamento, resiliência e a segurança dos setores dos transportes terrestres – rodoviários e ferroviários – e fluviais, bem como da prestação dos respetivos serviços”.