Era dia 6 de maio, era dia de Barça. Passando uma vista de olhos rápida por alguns dos principais meios de comunicação catalães, nenhum falhava a parte da efeméride. Foi a 6 de maio que, numa eliminatória tirada a ferros, Iniesta marcou o golo que qualificou a equipa para a final da Champions de 2009 (ganha frente ao Manchester United ainda de Cristiano Ronaldo). Foi a 6 de maio que, após 75 minutos a zero, Lionel Messi fez sair o seu génio da lâmpada para bisar e praticamente sentenciar as meias-finais da Champions de 2015, último ano que terminou com vitória dos catalães na prova. Agora, a teoria de que não há duas sem três ia mais longe, tão longe que era preciso chegar às letras mais pequenas dos livros históricos para encontrar.

Uma lição de borla(s) ao aluno Lamine: Inter empata em Barcelona num jogo de loucos com seis golos

Um mero dado estatístico não demorou a chegar ao patamar de “maldição”. Então era assim: o 1-0 de Marcus Thuram com apenas 30 segundos de jogo em Montjuïc foi o golo mais rápido numa meia-final ou final da Liga dos Campeões, superando o 1-0 de Paolo Maldini na decisão de 2005 (50 segundos). Ora, como aí o AC Milan chegou ao intervalo a ganhar por 3-0 mas ainda perdeu nas grandes penalidades frente ao Liverpool, marcar cedo era sinal de insucesso. Dava para tudo no lançamento de uma das partidas mais aguardadas da temporada para Barça e Inter, em momentos diferentes nas provas internas mas a 90 minutos de voltarem a uma final europeia. E, mais uma vez, o grande foco estava centrado no mais novo: Lamine Yamal.

“O Lamine criou-nos tantos, tantos problemas… É um talento daqueles que nascem de 50 em 50 anos. Agora que o vejo pela primeira vez em campo em direto, é o que posso dizer. Duplicámos os apoios, triplicámos os apoios e mesmo assim o que fez… Tentámos ajustar algumas coisas mas à frente de um computador ou de um microfone é mais fácil. É um jogador que me impressionou”, admitira Simone Inzaghi, técnico da equipa nerazzurri, que apostava tudo na tentativa de parar os movimentos do internacional espanhol de 17 anos para ficar mais perto da final que irá realizar-se em Munique depois do balde de água fria que foi perder a liderança da Serie A com uma derrota caseira frente à Roma que colocou o Nápoles com mais três pontos.

Já do lado dos catalães, a prioridade passava por estabilizar a equipa nos lances de bola parada defensivos. Jules Koundé e Baldé, lesionados, eram baixas importantes nas laterais mas Hansi Flick acreditava que era possível encontrar soluções para isso e para o arranque de jogo de Robert Lewandowski no banco depois da paragem por motivos físicos. Mais: segundo a imprensa espanhola, o técnico alemão passou a dedicar muitos mais minutos em treino a trabalhar jogadas de estratégia defensivas e ofensivas, em campo ou no auditório de vídeos. “A razão para não estarmos na posição certa ou não pressionarmos o jogador correto em algum momento são pontos importantes. Temos de defender melhor as bolas paradas”, assumiu. “Os mais jovens da estão a viver este momento como uma festa. Eles conseguem retirar importância ao que está em causa mas os mais experientes fazem-nos ver isso”, acrescentou Dani Olmo… a uma pergunta sobre Yamal.

Desta vez, o espanhol de 17 anos não marcou nem assistiu mas teve ações fulcrais na remontada histórica que o Barcelona conseguiu no Giuseppe Meazza, virando de 0-2 para 3-2 na segunda parte. O extremo voltou a jogar muito, fintou, rematou, passou mas sobretudo brilhou na forma como foi ter com os companheiros no apito para o intervalo dando alento e acreditando que o futebol de qualidade poderia vencer. Em condições normais, era isso que tinha acontecido. No entanto, e em mais uma página de uma das eliminatórias mais épicas da Liga dos Campeões, o esquerdino acertou no poste aos 90+2′ naquele que poderia ser o lance decisivo da eliminatória, viu o Inter empatar no minuto seguinte, não conseguiu de novo bater Yann Sommer na última jogada do tempo regulamentar e nada conseguiu fazer para impedir a derrota no prolongamento com golo de Davide Frattesi, médio que já tinha sido decisivo nos quartos frente ao Bayern em Munique poucas horas depois de ter sabido da morte da avó, a quem dedicou o 2-1 do triunfo dos transalpinos.

Lamine Yamal teve o primeiro remate com perigo do jogo, em mais uma diagonal a ziguezaguear da direita para o meio antes de atirar de fora da área para defesa segura de Yann Sommer (15′). O Barcelona entrava no encontro como queria, a comandar com bola e a controlar as saídas transalpinas tendo sempre como ponto de referência os dois alas lançados por Çalhanoglu, Barella ou Mkhitaryan. Quando isso deixou de acontecer, os catalães ficaram expostos a situações de igualdade numérica ou a erros de posicionamento no quarteto defensivo que abriam autoestradas pelo meio sem fora de jogo. Ato contínuo, foi assim que surgiu o 1-0: Di Marco foi ao corredor central fazer uma interceção, lançou Dumfries e o neerlandês dez mais uma assistência para golo confirmado por Lautaro Martínez, que esteve em dúvida até ao início do encontro (21′).

O Barça estava mais uma vez em desvantagem, o Barça reagiu mais uma vez da melhor forma tendo boas oportunidades desperdiçadas por Dani Olmo na área após cruzamento rasteiro de Pedri (25′) e por Lamine Yamal quando estava isolado com tudo para marcar (36′), o Barça voltou a esticar em demasia a manta e com isso a sofrer mais um golo: depois de um remate de meia distância de Çalhanoglu que por pouco não fez o 2-0 (41′), Pau Cubarsí arriscou em demasia num corte de carrinho quando Lautaro Martínez seguia para a baliza, o VAR considerou grande penalidade e o internacional turco não tremeu perante Szczesny (45+1′).

O intervalo chegava com o Inter em vantagem por dois golos, os ânimos continuavam muito acesos entre os jogadores num despique que começou entre Iñigo Martínez e Acerbi, Lamine Yamal passava ao lado de tudo e dava alento aos companheiros entre cumprimentos e abraços pelo que tinham feito na primeira parte. Essa naturalidade com que o mais novo em campo olhava para o que se passava quase passou por osmose para a formação blaugrana e o que se viu na reentrada foi a metamorfose completa do jogo: Acerbi viu um golo anulado num livre lateral em que a defesa visitante definiu bem a linha de fora de jogo, Éric Garcia foi à área contrária desviar ao segundo poste um cruzamento de Gerard Martín numa combinação improvável que fez o 2-1 (54′), o mesmo Éric Garcia permitiu uma defesa fabulosa a Yann Sommer numa jogada em que o Barça surgiu em superioridade numérica (57′) e Dani Olmo fez mesmo o 2-2 consumando a boa entrada (60′).

Voltava a estar tudo em aberto mas com o Barcelona por cima a todos os níveis: anímico, motivacional, técnico, tático (o Inter deixou de conseguir sair em transições pela pressão alta que sofria), até físico. Simone Inzaghi mexia, com as entradas de Darmián, Carlos Augusto e Taremi, mas todo o jogo era feito no meio-campo dos nerazzurri, que viram Yann Sommer ser de novo decisivo com mais uma defesa fabulosa a remate em arco de Lamine Yamal, a mostrar-se cada vez mais na partida (77′). Os minutos finais estavam a chegar e, quando o Inter parecia estar a serenar a partida, voltou a aparecer o génio individual de Pedri, com o passe para Raphinha na área e o remate defendido com recarga de pé direito que fez o 3-2 (87′). Tinha acabado? Não. Tudo menos isso. E já depois de uma bomba de Yamal ao poste (90+2′), Acerbi foi à área contrária quase do nada, apareceu ao primeiro poste após cruzamento de Dumfries e marcou o 3-3 (90+3′).

No último minuto de descontos, Lamine Yamal, após um passe fantástico de Raphinha, ainda teve nos pés a oportunidade de evitar o prolongamento mas a eliminatória seguiu mesmo para tempo extra, com o Inter a poder mostrar menos pilha do que o Barcelona mas a contar com um reforço anímico impressionante das bancadas pela forma dramática como o empate chegara. Foi essa parte que contou mais no arranque, com os catalães menos capazes em termos ofensivos e os transalpinos letais como sempre no ataque, aproveitando uma combinação entre Thuram e Taremi com assistência do iraniano para o 4-3 de Frattesi (99′). O jogo tinha mais uma inesperada reviravolta e eram os nerazzurri que estavam a pouco mais de 20 minutos da final da Champions, num cenário que se confirmou entre uma oportunidade soberana falhada por Robert Lewandowski e duas defesas monstruosas de Yann Sommer a remates do inevitável… Lamine Yamal.