O futebol mudou. Há 15 anos, na última ocasião em que Barcelona e Inter cruzaram nas meias-finais da Liga dos Campeões, o fenómeno José Mourinho rivalizava fora de campo com aquilo que Messi, Xavi, Iniesta e companhia conseguiam fazer no terreno de jogo. Agora, entre muitas estrelas mesmo sem o currículo de todos os supracitados, sobressaía uma que resgatava todos os holofotes aos 17 anos: Lamine Yamal.

Szczesny vai mesmo ter de continuar a lembrar-se da praia: Barcelona perde, mas elimina Borussia Dortmund

A cumprir o jogo 100 com a camisola dos catalães, pulverizando mais um recorde que parecia destinado a ficar nas mãos de um Deus chamado Lionel Messi, o espanhol assinalava nas meias-finais da Champions dois anos desde que foi lançado primeira primeira vez na equipa principal. Também por isso, por tudo aquilo que já consegue arrastar em termos de mediatismo, Lamine Yamal apareceu de imagem renovada (vulgo, com o cabelo pintado de amarelo e puxado para a frente) na conferência de imprensa de antevisão da receção ao Inter para mostrar que a idade não passa de um mero número presente no Cartão de Cidadão.

O Toro de Milão abateu o Killer rumo a Munique: Kane ainda assustou, mas Lautaro comandou reviravolta em quatro minutos e apurou o Inter

“Medo? Nunca tive medo de nada. Tenho motivação, muita motivação, ainda sinto aquele frio da barriga antes dos jogos, mas acredito que isso é algo bom e que todos os jogadores têm. O medo deixei-o no parque de Mataró há muito tempo”, atirou, recordando os tempos em que se apresentava ao futebol ainda nos jogos de rua. “É a minha primeira meia-final da Liga dos Campeões, minha de vários companheiros. Temos muita vontade de chegar à decisão. Época do Lamine? Não acredito nisso, espero é que seja a época do Barça. O Messi não marcou ao Inter? Deve ter sido um dos poucos adversários mas oxalá consiga fazê-lo. Não me quero comparar a ninguém. Só penso em melhorar todos os dias como jogador, as comparações que se fazem não têm sentido. Muito menos com o Messi… Só quero ser um bom jogador e uma pessoa educada, como os meus pais me ensinaram em casa desde sempre”, acrescentou durante a conferência de imprensa.

Uma década depois, com a liderança no Campeonato a juntar-se às conquistas da Taça e da Supertaça com o rival Real Madrid, era em Lamine Yamal que recaíam todas as esperanças dos catalães para uma temporada como há muito não se vê na Catalunha. O avançado que só quer aprender, mais uma vez, não falhou: fez um golo, jogou muito, esteve nos melhores momentos do Barça. No entanto, e entre tantas “borlas” que o setor defensivo foi dando sobretudo nos esquemas táticos, aprendeu também uma lição do Inter: até mesmo numa fase menos conseguida da época, que valeu a perda do primeiro lugar da Serie A para o Nápoles, a equipa nerazzurri tem sete vidas nos momentos decisivos, levando tudo em aberto para Milão com um 3-3.

Em menos de um minuto, aquilo que devia começar empatado já o tinha deixado de ser. Jules Koundé ainda fez um primeiro corte após cruzamento de Dumfries mas a total passividade da defesa catalã permitiu que o neerlandês voltasse a ter espaço para assistir Marcus Thuram para um subtil toque de calcanhar que fez o 1-0 no Montjuïc e deixou em euforia os muitos adeptos transalpinos presentes. O Barcelona não demorou a ter uma reação à entrada em falso, assumindo o controlo do jogo com bola e beneficiando de duas oportunidades para o empate, mas foi o Inter que continuou a fazer imperar a eficácia na frente com Dumfries a aproveitar um canto da esquerda para aumentar a vantagem por 2-0 pouco depois dos 20 minutos iniciais de jogo.

Com bola, sem golos e a ver a eliminatória escapar pelas mãos na Catalunha, o Barcelona agarrou-se a Yamal e Yamal agarrou o Barcelona: o internacional espanhol reduziu de seguida a desvantagem com um remate em arco de pé esquerdo que bateu ainda no poste (24′), teve no ataque no minuto seguinte uma jogada fantástica que fez a bola bater na trave da baliza de Yann Sommer e contribuiu também fase defensiva para o lance que fez o empate em Montjuïc, com Ferran Torres a desviar de primeira após assistência de cabeça de Raphinha (38′). O susto tinha passado e era o Inter que esperava por tudo pelo intervalo para serenar entre baixas por lesão nas duas equipas que colocaram de fora o francês Jules Koundé e o argentino Lautaro Martínez.

Aí, Simone Inzaghi voltou a ganhar a Hansi Flick. Por um lado, o Inter conseguiu ter outros argumentos para travar o jogo ofensivo dos catalães, que tiveram menos chances de golo do que no primeiro tempo. Por outro, soube explorar de outra forma a profundidade nas costas da defesa da casa, criando mais problemas para a baliza de Szczesny. Numa noite europeia para mais tarde recordar, Dumfries bisou com um desvio de cabeça após mais um canto (64′), o Barça empatou também na sequência de um canto com Raphinha a ver um remate de fora da área acertar no ferro e bater nas costas de Sommer para o 3-3 no minuto seguinte (65′) mas foi o Inter a ficar perto de nova vantagem, num lance em que Mkhitaryan ainda marcou mas o lance acabou anulado por fora de jogo. A eliminatória segue “igual” para Milão após uma noite de loucos em Barcelona.