Para Donald Trump, no seu esforço para “Tornar os Estados Unidos Seguros Outra Vez”, é preciso remeter para tempos “mais sérios”, com mais de seis décadas. “Quando éramos um país mais sério, não hesitámos em prender os criminosos mais perigosos e mantê-los longe de quaisquer pessoas que pudessem afetar”, disse o Presidente norte-americano. Para isso, não há melhor solução do que requalificar o estabelecimento prisional localizado numa pequena ilha isolada no meio da Baía de São Francisco, na Califórnia: Alcatraz.
Cercada pelas águas frias e agitadas do Oceano Pacífico, a Prisão de Alcatraz foi a casa dos criminosos mais perigosos dos EUA durante 29 anos. A dois quilómetros da costa, com várias torres de controlo onde estavam posicionados dezenas de guardas prisionais — que impunham uma série de regras estritas — e um controlo sufocante dos cerca de 300 prisioneiros que a prisão conseguia receber, o conceito de fuga era impensável. Assim, adaptada de um forte militar para prisão em 1934, Alcatraz era sinónimo de segurança.
Entretanto, já se passaram mais de 60 anos desde que o último prisioneiro foi transferido para outra prisão, e as visitas à ilha transformaram-se única e exclusivamente em turismo. São milhões os que embarcam anualmente para visitar as celas onde estiveram célebres personagens da história criminal dos EUA, como Al Capone e George “Machine Gun” Kelly. Os residentes de Alcatraz, à época, representavam menos de 1% de todos os prisioneiros em prisões federais norte-americanas — tinha a reputação de ser “o último recurso” no sistema prisional dos EUA.
Vista aérea da ilha em Janeiro de 1932, quando ainda era um forte militar (imagem publicada na página do FBI)
A própria agência federal responsável pelas prisões nos Estados Unidos descrevia o estabelecimento como sendo de “segurança máxima e privilégio mínimo”, aludindo para as condições na ilha, e para o tipo de prisioneiros que recebia. “A prisão foi aberta para lidar com os reclusos mais incorrigíveis das prisões federais e para mostrar ao público cumpridor da lei que o governo estava seriamente empenado em pôr termo à criminalidade desenfreada das décadas de 1920 e 1930”, escreve a agência numa nota história publicada no seu site.
Os prisioneiros tinham quatro direitos: alimentação, vestuário, abrigo e assistência médica — qualquer outro privilégio, seja visitas familiares ou o acesso a diferentes formas de entretenimento teriam de ser “merecidas”. A rotina era monótona, altamente estruturada e rígida. Ainda assim, muitos consideravam as condições em Alcatraz melhores do que a maioria das prisões federais, principalmente pelo facto de cada cela ser única por prisioneiro. Por norma, os prisioneiros eram sujeitos a avaliações constantes para verificar se ainda representavam “uma ameaça à sociedade“, e ao fim de cinco anos preso em Alcatraz, em média, os reclusos poderiam ser transferidos para um outro estabelecimento para cumprir o resto da pena.
Interior da prisão em 1986 (fotografia da Biblioteca do Congresso dos EUA)
As fugas míticas e as estrelas de Hollywood
A prisão de Alcatraz fechou em 1963, ao fim de 29 anos de serviço, alegando motivações financeiras e elevados custos de manutenção das operações — apesar de o timing ter batido certo com um dos mais conhecidos episódios associado ao estabelecimento prisional. Em junho de 1962, numa contagem de rotina matinal, os guardas notaram a ausência de três prisioneiros: Frank Morris, John e Clarance Anglin. Nas suas camas estavam “cabeças falsas” feitas a partir de gesso, pintadas em tons de pele e com cabelo humano — que terá servido para iludir os guardas do turno da noite, enquanto os três homens seguiam em frente com o seu plano de fuga.
Tentativas de fuga não eram exatamente incomuns, houve um total de 14, mas terão todas acabado com o mesmo destino. Dada a sua localização isolada da restante civilização, com dois quilómetros de oceano a separar a prisão da porção de terra mais próxima, os prisioneiros que não perdiam a vida ao chegar à água eram rapidamente apanhados pela sempre presente autoridade insular. Existem apenas dois casos, o primeiro em 1937, poucos anos depois de Alcatraz ter aberto as portas, de não se terem conseguido recuperar os corpos de prisioneiros que tentaram fugir.
Theodore Cole e Ralph Roe trabalhavam numa “oficina de tapetes” dentro do recinto da prisão. Durante um período incerto de tempo, enquanto trabalhavam no edifício industrial, foram abrindo caminho através das barras de ferro planas de uma janela, até que no dia 16 de dezembro decidiram mesmo atravessar. Saltaram pela janela, desceram até à zona costeira e entraram mar a dentro, desaparecendo na Baía de São Francisco. Dadas as condições meteorológicas neste dia — “uma tempestade forte e com as correntes da baía especialmente rápidas” — as autoridades deram ambos Cole e Roe como desaparecidos e mortos.
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Com desfecho semelhante, a segunda história acabou por receber uma atenção mediática ainda maior. Alcatraz entrou em “lock down” logo pela manhã do dia 12 de junho de 1962, e as autoridades deram início a uma extensa e intensa missão de busca pelos três prisioneiros. Os barcos foram para o mar e os homens para o terreno, para procurar em todos os cantos da ilha por vestígios dos irmãos Anglin e Frank Morris e Frank Morris. Os dias passavam e poucos eram os resultados produzidos pela investigação.
As fotografias dos três fugitivos de Alcatraz publicadas na página online do FBI
De acordo com o FBI (Federal Bureau of Investigation), o plano começou a ser desenhado com seis meses de antecedência, em dezembro. Com ferramentas improvisadas e construídas de raiz através de material inutilizado na prisão, os três prisioneiros foram gradualmente removendo os parafusos que trancavam as condutas de ar que tinham nas celas. Quando conseguiram abrir o buraco na parede, utilizaram como cobertura malas ou pedaços de cartão para disfarçar a óbvia remodelação do quarto.
Abandonada a cela, os protagonistas do filme “Escape from Alcatraz“, de Clint Eastwood (1979), conseguiram recolher mais de 50 casacos de uma sala de guardas, transformando-os em coletes salva-vidas e uma espécie de jangada para atravessar a baía. Na noite de 11 de junho, seis meses depois de terem começado a preparação, colocaram o plano em ação. Escaparam pelo buraco na parede, subiram até ao telhado da prisão, desceram até à costa e lançaram a jangada. O que aconteceu a partir daqui não é conhecido e permanece um mistério até aos dias de hoje. Se sobreviveram à travessia e conseguiram escapar às autoridades, ninguém sabe, mas é certamente uma das hipóteses mais populares.
As imagens dos bonecos de gesso que os reclusos fizeram para fingirem que estavam a dormir (fotografias publicadas na página do FBI)
A própria polícia e o governo americano dizem que os três reclusos foram vítimas das mesmas condições duras do mar que os restantes prisioneiros antes deles. O FBI, que fechou o caso em 1979, admite a possibilidade de sucesso na travessia, mas não vêm com a mesma positividade um cenário de chegada até terra, dado que o plano — roubar roupas e um carro — não foi concretizado nesse período de tempo. As autoridades dos EUA também estavam a acompanhar de perto qualquer interação com os respetivos familiares, negando qualquer episódio que tenha surgido após a fuga. No fim, apesar de não terem confirmação, adiantam que “não têm provas credíveis” que sugiram a sobrevivência dos três fugitivos de Alcatraz, tanto em território americano, como no estrangeiro. Os U.S Marshals (“Delegados federais”, na tradução literal para português) continuam, atualmente, a investigar o que aconteceu naquela noite.
Trump: “Reconstruir e abrir Alcatraz”
Para manter as operações e restaurar a prisão, em 1963, estima-se que seria necessário um investimento anual de três a cinco milhões de dólares. Este valor não previa os custos operacionais — a agência federal das prisões refere que Alcatraz era quase três vezes mais cara que qualquer outra prisão no país. A maior despesa provinha exatamente do fator que a diferenciava de qualquer outro estabelecimento prisional nos EUA: o seu isolamento.
O facto de estar localizada numa ilha no meio do mar, significa que qualquer tipo de recurso como comida, água ou combustível teria de ser transportada via barco. “Por exemplo, a ilha não tinha qualquer fonte de água potável, por isso quase quatro milhões de litros de água tinham de ser importados todas as semanas“, escreve a agência, justificando que para o governo norte-americano, seria mais vantajoso abandonar Alcatraz e construir uma nova prisão.
Agora, em 2025, a página mudou e parece que Alcatraz voltou a ser um investimento atraente para a Casa Branca. No passado dia 4 de maio, Donald Trump expressou, no seu perfil da rede social Truth, o seu objetivo: “RECONSTRUIR E ABRIR ALCATRAZ“. O Presidente dos Estados Unidos da América refere que o país tem sido “assolado por delinquentes cruéis, violentos e reincidentes, [pela] escória da sociedade, que nunca contribuirá para nada mais do que miséria e sofrimento”, pelo que a única solução seria pagar pela mesma moeda através da reinstalação desta prisão icónica.
“É por isso que hoje [dia 4 de maio], estou a dar instruções ao Gabinete das Prisões, juntamente com o Departamento de Justiça, o FBI e a Segurança Interna, para reabrir um ALCATRAZ substancialmente ampliado e reconstruido, para albergar os criminosos mais cruéis e violentos da América”, escreveu Trump, concluindo que a reabertura da prisão vai representar um símbolo de “Lei, Ordem e Justiça“.