A vantagem do tempo incerto é que mantém muita gente em casa, os portugueses detestam chuva, frio, mau tempo, consideram que é uma ofensa pessoal e ficam em confinamento. Enfin, c’est bizarre, mas muito vantajoso quando se quer passear com mais à-vontade por Lisbonne como sucedeu connosco num desses dias portugueses de sol semi escondido.
A nossa intenção era almoçar para discutir la troisième saison de The White Lotus, mas acabámos por falar da eleição do Papa, o tema de que toda a gente andava a falar, além de outros tópicos mais pessoais e divertidos.
Por motivos que não ficaram claros, a minha amiga quis ir a um pequeno restaurante no Bairro Alto, em Lisboa, chamado (verifiquei mais tarde) Alfaia. Percebi depois que era por causa da feijoada à brasileira que acabámos por não provar porque pensámos melhor na linha e outras consequências de feijoadas. Mas ainda bem que fomos ao Alfaia, devo admitir. Todos os dias tenho saudades de um restaurante que não tenha toldo preto, menus indecifráveis e nos impinja cozinha do mundo como se fosse a salvação dos nossos pecados. Nada tenho contra o tourisme, mas cansa-me a propaganda que lhe costuma estar associada e agride-me a estética simplista e déjà-vu.
Nunca lá tinha ido. O restaurante, que se diz a funcionar desde 1880, não parece ter tido muito jeito a expor esse peso histórico que é sem dúvida uma mais-valia. Apesar de ser acolhedor, senti-me mais num restaurante que homenageia restaurantes que funcionam desde 1880 do que num restaurante que funciona de facto desde 1880. Alguém deixou por ali um décorateur qualquer à solta, porque só o chão de pedra, polido por décadas e décadas de uso, acusa que aquele sítio é mais antigo que os costumes. Não é que a decoração atual, cheia de motivos do mundo do vinho, seja má ou insuficiente, simplesmente apresenta-se trop récent e abala a crença de que estamos num sítio com quase século e meio. Gostei do teto de madeira, pintado a casca de ovo, mas nunca consegui superar a falta de patine.
Sem surpresa nem castigo, o Alfaia dedica-se hoje ao vasto mundo do interesse dos forasteiros pelas choses nationales. Se Portugal está na moda, é preciso alimentar a fome. Na Travessa da Queimada, no Bairro Alto, o Alfaia é confortável, tem bom serviço e uma das melhores cartas de vinhos nacionais da cidade, pela certa. Vimos a carta, que incluía aqueles clássicos portugueses (Barca Velha, Tapada de Coelheiros, Pera Manca, etc, incluindo em versões Magnum, para quem quer festejar um campeonato do seu clube), mas também olhámos para os preços. A confusão foi demasiada para nós e pedimos água para beber, aquele não era dia de prova e nessa semana já tivéramos festas suficientes na nossa vida.
No Alfaia, o ambiente nem é descontraído nem tenso. Como já viemos um pouco tarde para almoçar, conseguimos a atenção dos empregados, que vestem uma espécie de uniforme, discreto e que lhes fica bem. Sente-se que o sítio é calmo sem ser chato, bom sem ser ótimo, caro sem ser exagerado. Com várias salas e ambientes, incluindo uma esplanada nos dias bonitos, no Alfaia esperam-nos toalhas e guardanapos de pano, loiça Costa Verde, copos de vidro agradáveis, moinho de pimenta e saleiro já na mesa, ofertas que quase fazem esquecer o pão embrulhado em plástico (!).
Serviram-nos uma sopa de peixe muitíssimo salgada, mas quente e saborosa. O prato estava quinado em dois sítios, mas não faz mal, não se espera que um inspetor Michelin apareça por ali, je suppose. Acompanhados pela felicidade ruidosa de um grupo de brasileiros que riam tão alto como conseguiam, conversámos sobre os detalhes do conclave enquanto comíamos o borrego assado (16,95 €) e o lombo de peixe galo (15,95€), que chegou estranhamente acompanhado de uma rodela de tomate cortado pelo menos no dia anterior com um borrão de molho tártaro por cima, que não tocámos, nem tocaríamos nem por bilhetes para o golden circle da Taylor Swift. Se era decorativo, ficou ali muito mal.
O castanho do deep fried no peixe assustou. Tamanha fritura seria desculpável, mas o peixe não estava nada do outro mundo. O arroz de grelos podia ter ficado menos tempo no calor, o borrego podia estar mais apurado, mas a calma geral e um certo silêncio que se manteve apesar das ameaças brasileiras, foram mais do que suficientes para compensar. Comemos bem, ficando com a sensação de que podíamos ter comido melhor se houvesse um pouco mais de mais atenção no sal e no tempero.
O Alfaia está au currant. Tem site, página Facebook, tem reservas naquelas apps, é uma autêntica maravilha desse ponto de vista das choses modernes, aceita grupos, encomendas, está longe de ter ficado em 1880, quem sabe até aceita bitcoins. Coisa rara na cidade, a cozinha fecha muito tarde e não há dia de folga.
A lista pode ser consultada online e inclui pratos raros, como arroz de galo do campo (14,95€), raia escalfada em azeite (14,95 €), vários pratos de polvo e bacalhau, tudo e mais alguma coisa que seja tipicamente portuguesa, incluindo sobremesas cheias de açúcar e ovos (que são as melhores, como sabemos). Percebi que tem dias fixos de Cozido e dias fixos de feijoada à brasileira.
Como quase tudo em Portugal que vou conhecendo melhor, o Alfaia é bom, honesto e está pertinho de ser francamente melhor. Mas não quer. E se calhar não é necessário, qu’est-ce que je sais, afinal está por cá desde 1880 e o tempo é melhor juiz de todos…
Alfaia, Rua do Diário de Notícias, 125. Lisboa. Tel.: 21 343 3079. Todos os dias, das 12h00 às 2h00.
Patrícia Le Mans estudou Filosofia e Moda. Gosta de queijo, champagne e de amêijoas à Bulhão Pato. Tem mãe portuguesa, pai francês, vai flutuando entre Lisbonne e Paris e escrevendo para o Experimentador Implacável.