O mito começou a cair nos quartos da Liga dos Campeões, quando a desvantagem de três golos trazida de Londres não mereceu sequer um esboço de remontada num Santiago Bernabéu que andou a desafiar anos a fio missões impossíveis que se concretizavam, o mito caiu de vez no Olímpico de Montjuïc, onde nem mesmo um avanço de dois golos numa fase inicial do clássico frente ao Barcelona foi suficiente para a vitória e um reabrir da luta pelo título. O Real Madrid perdera com os catalães na Supertaça, perdera com os catalães na Taça e nem mesmo essa janela de oportunidade aberta por um bis que se viria a tornar hat-trick de Kylian Mbappé serviu para inverter a lei do mais forte no plano interno. Com mais três jornadas por disputar, a época dos merengues estava fechada. Ao mesmo tempo, a caixa de Pandora sobre o futuro abria-se.

Quem joga assim nunca desiste e até põe Travis Scott a festejar: Barcelona volta a golear Real Madrid e dá passo de gigante rumo ao título

A Confederação Brasileira de Futebol, pressionada pela falta de um nome já desde março para substituir Dorival Júnior no comando da seleção, deu um passo maior do que a perna quando conseguiu finalmente a assinatura de Carlo Ancelotti e anunciou de forma rápida aquele que era o mais desejado tendo em vista a conquista do Mundial de 2026. O facto de, horas antes, Xabi Alonso ter sido dado como certo pela imprensa espanhola atenuou o impacto de algo que deveria ser comunicado oficialmente a 26 de maio mas nem por isso o Real Madrid pode apresentar razões de queixa – muito pressionado pelos adeptos e pela comunicação social, Florentino Pérez assumiu Julen Lopetegui como técnico na antecâmara do início do Campeonato do Mundo de 2018 e atirou a seleção espanhola para uma crise com o despedimento imediato do técnico pelo então líder da Real Federação Espanhola de Futebol, Luis Rubiales. Agora, o filme foi inverso.

Mas os sinais do momento não ficavam por aí. Pela primeira vez desde que o Santiago Bernabéu se mostrou ao mundo como um dos recintos mais modernos na Europa e no Mundo, a lotação para um encontro do Real Madrid não estava esgotada. O facto de haver bilhetes entre os 75 e 225 euros para uma partida realizada numa quarta-feira às 21h30 também não ajuda, mas todos percebiam que o maior problema era mesmo a fase que a formação de Madrid atravessa, a ponto de poder entregar o título ao Barcelona em caso de derrota na receção ao Maiorca. Ou seja, não havia nada a ganhar mas existia muito a perder e o melhor mesmo era ficar em casa apesar dos mais de 50.000 ingressos “vendidos” (contando com os lugares anuais, claro).

O ambiente no balneário também não era o melhor nem mais fácil. Para Carlo Ancelotti, o maior de todos os tempos na Liga dos Campeões e que teve um papel fulcral nos últimos quatro anos para o clube, no pasa nada. E foi com essa postura que abordou a conferência de imprensa antes da receção ao Maiorca, sendo que ainda iria fazer uma última partida de despedida na derradeira ronda da Liga, com a Real Sociedad.

“O futebol, como a vida, é uma aventura que começa e termina. Um dia tem mesmo de acabar. Se a nossa vida um dia acaba, imagina a passagem durante um período por uma equipa de futebol… Vai chegar ao fim um tempo que gostei muito. Nunca senti que o Real não me queria, vai continuar a querer-me indo eu para o Brasil. Não poderia ser treinador do Real para sempre. Pode ser que o clube necessite de um novo impulso, um novo treinador que dê isso. São coisas normais da vida, sem drama. Aceito tudo com total naturalidade”, referiu, numa atitude que “desarmava” tudo o resto. “Quero acabar da melhor forma esta fantástica aventura. Só penso nos dias que tenho aqui, quero respeitar esta camisola até ao último dia. Queria ganhar a Liga e a Champions mas sou muito feliz”, acrescentou, quase resignado com o triunfo do Barça.

Para a tal boa despedida, a lista de ausências não encontrava fim. Rüdiger, Mendy, David Alaba, Carvajal, Éder Militão, Camavinga, o castigado Tchouameni, os novos lesionados Lucas Vázquez, Vinícius Jr., Rodrygo e a dúvida Lunin. Quase uma equipa de fora quando era preciso a melhor equipa para evitar que os catalães fizessem já esta quarta-feira a festa do título e com esse dado importante: era preciso recuar dez anos para ser ver o Real Madrid a perder duas vezes seguidas com Ancelotti, algo que nunca aconteceu nesta segunda passagem iniciada em 2021. E como um mal nunca vem só, também Brahim Díaz mostrou um desconforto muscular, ficando de fora e fazendo com que Ancelotti tivesse apenas três substituições pelas regras.

Um problema de cada vez, pensaria o italiano, e o primeiro a solucionar chamava-se Maiorca. E era mesmo um problema a sério: já depois de um remate de Endrick na área defendido por Leo Román que deixou o brasileiro a protestar por ter sido empurrado na altura do movimento final (4′), os visitantes foram uma vez à baliza de Courtois e inauguraram o marcador com o central Martin Valjent a combinar com Mateu Morey perante a total passividade da equipa merengue antes do tiro de pé esquerdo sem hipóteses (11′). Bellingham, um dos mais inconformados, ainda obrigou Leo Román a mais uma intervenção apertada para canto (18′) mas era o Barcelona que fazia a “festa” com um resultado que virtualmente lhe dava o título. Luka Modric (37′) e  Valverde (41′) ainda criaram perigo mas o guarda-redes do Maiorca estava intransponível.

Se a primeira parte já tinha registado uma corrente única de jogo no sentido da baliza dos visitantes, após o intervalo essa tendência foi ainda mais acentuada. Leo Román fez a exibição de uma vida, o Real fez quase 40 remates à baliza, beneficiou de um total de 26 cantos mas o máximo que conseguiu foi mesmo evitar o desaire com o empate por Kylian Mbappé numa jogada individual (68′). Dentro das limitações com que iniciava a partida, seria complicado pedir mais. Atitude, compromisso, entrega, espírito de sacrifício, tudo esteve lá menos os golos, em mais um capítulo do fim da era Ancelotti que espelhou aquilo que foi a temporada do Real Madrid mas que teve um prémio no último minuto de descontos com o 2-1 da reviravolta por Jacobo Rámon (90+5′). A festa do Barcelona ficou adiada para esta quinta-feira, com os blaugrana a jogarem fora o dérbi frente ao rival Espanyol, mas a equipa da capital já está a preparar de forma assumida a próxima temporada e com uma primeira contratação “fechada”: o central Dean Huijsen.