O Chega, tendo em conta as primeiras projeções da noite eleitoral, tem possibilidade de se tornar no segundo partido mais votado em Portugal, à frente do PS e apenas atrás da AD. Mesmo no resultado menos favorável — em que não atinge um segundo lugar — vai solidificar a presença no pódio e aproximar-se do segundo partido mais votado. Trata-se de um caminho de evolução constante em eleições legislativas, em que o partido surge a crescer desde que André Ventura pisou, sozinho, a Assembleia da República.
Tudo começou em outubro de 2019, quando o quadro parlamentar mudou com a entrada de três novos partidos (Chega, IL e Livre). André Ventura tornava-se nesse dia deputado único. Em apenas dois anos conquistou o lugar de terceira força política e nas eleições seguintes elegeu o número histórico de 50 deputados.
Recuemos no tempo. Estamos em 2017 e André Ventura é o candidato à Câmara Municipal de Loures pelo PSD, com o apoio do CDS. As eleições são a 1 de outubro e em julho desse mesmo ano, Ventura dá uma entrevista ao jornal i cujo título escolhido foi: “Os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado”. O caso causaria impacto nacional. Assunção Cristas, na altura presidente do CDS-PP, retirou o apoio ao candidato, mas Pedro Passos Coelho segurou-o e manteve-o até ao fim — atitude jamais esquecida por Ventura.
André Ventura, na altura social-democrata, seria eleito vereador nessas eleições e o PSD elegeu três no total, com o melhor resultado do partido em Loures desde 1989. Renunciaria um ano depois, em outubro de 2018, em rutura (e desiludido) com os sociais-democratas — e em abril do ano seguinte fundou oficialmente o Chega. Nesse mesmo ano ainda houve uma espécie de ensaio com uma candidatura às europeias, que juntava o Chega (ainda em processo de legalização), o PPM e o Partido Cidadania e Democracia Cristã (PPV/CDC) e o movimento Democracia 21. Não surtiu efeito.
O primeiro feito do partido chegaria mesmo nas legislativas de 2019, no dia 6 de outubro, quando André Ventura conseguiu um assento na Assembleia da República, com 67.826 votos, ou seja, 1,29%. Daí em diante, em eleições legislativas, foi sempre a subir.
Pelo caminho, e pouco mais de um ano depois de entrar no Parlamento pela primeira vez, Ventura foi a votos nas presidenciais de 2021, onde conquistou 496.773 votos, ficando a um ponto percentual de Ana Gomes, que ficou no segundo lugar. Marcelo Rebelo de Sousa voltaria a vencer com mais de 60% dos votos, mas o Chega viu naquele resultado um impulso e a prova de que parte do país estava a aceitar o fenómeno da direita radical que tinha demorado a chegar a Portugal.
Em janeiro de 2022, o Chega voltaria a carimbar mais um passo no crescimento do partido na Assembleia da República. Tal como André Ventura tinha ambicionado (e pedido à exaustão), o partido que lidera conseguiu ficar como terceira força política, com 399.510 votos a nível nacional. Elegeu 12 deputados numas eleições que deram a maioria absoluta a António Costa.
Dois anos depois, embalado pelo caso que derrubou o governo socialista, o Chega não só se manteve como terceira força política como disparou para mais de um milhão de votos (1.169.836), com mais de 18% dos eleitores, o que lhe permitiu eleger 50 deputados — um resultado histórico que colocou o partido à frente do PRD, que em 1985 tinha conseguido 45 parlamentares. Nessa noite, André Ventura festejou o “fim da bipartidarização” em Portugal, colocando-se no campeonato dos grandes, mais perto de PS e PSD do que dos partidos mais pequenos.
O problema que se colocou nessa noite — a tese de que o Chega seria uma “peça-central” mas sem capacidade de influenciar a governação — acabou mesmo por acontecer, já que Luís Montenegro levou o “não é não” ao limite e não permitiu que André Ventura entrasse num governo, por muito que o líder do Chega tenha tentado. Ainda assim, o Chega, com a dimensão da bancada, acabou por ter a capacidade de aprovar medidas fosse ao lado do PS ou do PSD sem qualquer dificuldade.
O único momento em que o Chega não se destacou — como aconteceu sempre de legislativas para legislativas — foi nas eleições europeias, que caiu a pique, tendo obtido apenas 386.705 de votos. Com um pormenor: António Tânger Corrêa era o candidato e Ventura, por muito que tenha tentado ser o foco da campanha, não era a cara em entrevistas e debates.