Matthew Prince, co-fundador e CEO da Cloudflare, voltou à carga nas queixas sobre a burocracia, a sobrelotação do aeroporto e a gestão dos processos de imigração em Portugal. Numa publicação na rede social X, o empresário considera que o país “piorou significativamente” desde que a empresa começou a investir por cá, há cerca de seis anos. “Se essa tendência continua, vamos parar de investir”, declara.
Esta não é a primeira vez em que Matthew Prince aponta falhas ao país: já o fez em 2024 e também em 2020. Desta vez, Prince deixa um conselho às empresas tecnológicas que estejam a considerar investir em Portugal: “São loucos se o fizerem sem garantias do Governo”, escreve. Noutra mensagem, reforça a ideia: “A situação do aeroporto em Lisboa é um desastre e as multinacionais que estão a pensar em investir aqui devem pensar duas vezes”, mostrando-se disponível para trocar ideias nas mensagens privadas.
Honestly: across the board, Portugal has gotten significantly WORSE since we started making investments in the country. If the trend continues, we’ll stop investing. And if you’re considering it as a tech firm, you’d be crazy to without some hard reassurances from the government.
— Matthew Prince ???? (@eastdakota) May 25, 2025
A publicação do executivo tem vários comentários e Prince apresenta mais contexto sobre as preocupações que levanta. Por exemplo, declara que não faz esta publicação apenas por estar aborrecido com a sobrelotação do aeroporto. “Não é só o aeroporto. Mas, sim, é claro em todos os níveis que Portugal não é sério em relação a investimento a longo prazo”, acompanhando a resposta com a hashtag #clownshow [festa de palhaços, em tradução livre] e um emoji de um palhaço.
Not just the airport. But yes, on every level clear Portugal isn’t serious about long-term investment. #clownshow ????
— Matthew Prince ???? (@eastdakota) May 25, 2025
Questionado por Paul Graham, empresário e fundador da incubadora de startups Y Combinator, sobre os problemas que encontrou, Prince queixa-se “sobretudo sobre a imigração, mas também sobre questões de “licenciamento”. “Há uma burocracia sufocante generalizada. E a completa falta de um aeroporto funcional”, responde. “Principalmente estou farto que me digam que as coisas vão melhorar se investirmos mais apenas para continuarem com tendência a piorar.”
Mostly around immigration. But also permitting. General stifling bureaucracy. And a complete lack of a functional airport. Mostly I’m sick of being told things are going to get better if we just invest more only for them to continue to trend worse.
— Matthew Prince ???? (@eastdakota) May 26, 2025
Prince não concretiza o que é que foi prometido pelo Governo português, referindo apenas que lhes foi “prometido muito se contratássemos um monte de gente em Portugal”. Diz que a empresa cumpriu com a sua parte do acordo, mas acusa o Governo português de “não cumprir com nenhuma das suas promessas”.
Matthew Prince acrescenta que, em comparação com países do Médio Oriente ou da Ásia, “Portugal promete muito e entrega muito, muito menos”. Em resposta a uma afirmação sobre como a América do Sul “tem potencial inexplorado”, Prince responde de forma afirmativa. “Concordo. A Colômbia, o Chile e agora talvez a Argentina. Todos são países muito mais sérios do que Portugal.”
Agree. Colombia, Chile, and now maybe even Argentina. All much more serious countries than Portugal.
— Matthew Prince ???? (@eastdakota) May 25, 2025
Já esta segunda-feira, Prince lançou uma sondagem na conta do X, em que pergunta “se alguém consegue adivinhar quantos políticos portugueses é que já me contactaram para falar sobre as questões” levantadas.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 1.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
As anteriores queixas de Prince à burocracia nacional
Há alguns meses, Matthew Prince aproveitou a inauguração do novo escritório da empresa, em Lisboa, para se queixar sobre os problemas que “atrasam Portugal”, afirmou em outubro de 2024. Justamente os problemas que menciona nesta publicação no X: o sistema de imigração, o aeroporto de Lisboa e a dificuldade em contratar gestores de produto.
“Há pessoas que queriam vir para Portugal, para trabalhar a partir daqui, mas não conseguimos obter um visto. E por isso temos que mandá-las para o escritório de Londres”, afirmou em 2024, salientando que ao longo dos anos a empresa aprendeu “todo o tipo de truques” para lidar com estas preocupações.
Antes, em 2020, também já se tinha queixado governo socialista sobre os constrangimentos no aeroporto de Lisboa e também sobre a burocracia. “Caro António Costa, quando a sua equipa promete trabalhar com as empresas em troca de estas transferirem uma quantidade significativa de empregos para Portugal e apresenta leis que apoiam essas promessas; e depois os vossos burocratas recusam-se a seguir essas leis e promessas – acha isso bem?”, escreveu no X, dirigindo-se ao então primeiro-ministro. “Sinto que me mentiram”, afirmou, mencionando Paddy Cosgrave, CEO da Web Summit no texto.
Dear @antoniocostapm, when your team promises to work with companies in exchange for moving significant jobs to Portugal and shows laws to support those promises; then your bureaucrats refuse to follow those laws and promises — is that ok? I feel lied to. Cc: @paddycosgrave
— Matthew Prince ???? (@eastdakota) November 4, 2020
Segundo números do ano passado, a Cloudflare empregava mais de 350 funcionários em Portugal, mas tinha a ambição de contratar mais 400 pessoas nos próximos anos.