Tom Daley é uma figura incontornável do universo olímpico das últimas décadas. Estreou-se em Pequim com apenas 13 anos, tornando-se o atleta olímpico mais novo da história do Reino Unido, e conquistou cinco medalhas em quatro edições diferentes, incluindo uma de ouro em Tóquio. É impossível dizer que não é o nome mais conhecido e reconhecido dos saltos para a água — não só por aquilo que faz nas piscinas como pelo que faz fora das piscinas.
Casado com o argumentista Dustin Lance Black, com quem tem dois filhos, Tom Daley anunciou o fim da carreira depois dos Jogos Olímpicos de Paris onde ainda conquistou uma medalha de prata, continuando a ser treinador adjunto na equipa de saltos para a água da UCLA, a University of Califórnia, Los Angeles. Agora, aos 31 anos, é também o protagonista de “Tom Daley: 1.6 Seconds”, documentário que estreou este domingo no Discovery+.
Tom Daley, o bebé de Pequim que soube crescer até de ser de ouro em Tóquio
Tendo como base a estreia do documentário, o atleta britânico escreveu uma espécie de carta aberta ao jornal The Guardian — um texto com pormenores e pormaiores da infância, da adolescência e da chegada a adulto, entre o momento em que se apaixonou pelos saltos para a água e o momento em que se apaixonou por um homem.
“A minha mãe diz que era muito querido quando era criança, mas sabia bem aquilo que queria. O que é que queria? Fazer o melhor que podia em tudo aquilo que tentava. Essa continua a ser a minha mentalidade. Se tento alguma coisa e não corre de maneira perfeita, já não faço birras, mas fico frustrado. É esse o problema de ser um atleta: ser bom não é suficiente, temos de ser os melhores. Não é algo que possamos aprender, mas cada atleta que chega aos Jogos Olímpico tem essa motivação. Conhecemos as nossas fraquezas antes de qualquer outra pessoa as poder evidenciar”, começou por escrever o britânico natural de Plymouth, no sul de Inglaterra.
Mais à frente, recorda que tinha sete anos quando começou a saltar para a água — primeiro apenas da beira da piscina, depois das plataformas. “Tinha oito anos na primeira vez em que tentei a plataforma dos 10 metros. Lembro-me de rastejar até à ponta porque tinha demasiado medo para andar. Parecia que a prancha ficava mais pequena a cada passo e a dada altura já era só uma corda bamba. Pensava que era impossível saltar dali. Mas quando dei por mim estava no ar e não havia volta a dar. Foi um momento surreal e eufórico, queda livre durante 1.6 segundos. Assim que acabou soube queria repetir”, acrescentou.
Tom Daley termina carreira com cinco medalhas olímpicas nos saltos para a água
No mesmo texto, Tom Daley recorda uma infância feliz, sempre com muito apoio dos pais — tanto que chorava ao telefone, com saudades, sempre que tinha uma prova longe de casa. O britânico sublinha a dor da perda do pai, que morreu em 2011, e lembra que este nunca chegou a vê-lo conquistar medalhas olímpicas, casar ou ter filhos. “Só quando conheci o Lance e ele perguntou o porquê de nunca falar sobre o meu pai é que me permiti a ter espaço para fazer o luto”, garante, antes de aprofundar a relação com o marido.
“Conhecemo-nos num jantar em 2013. Falámos e falámos até percebermos que tínhamos vidas muito semelhantes. Ele tinha acabado de perder o irmão, eu tinha acabado de perder o meu pai. Ele tinha acabado de ganhar um Oscar, eu tinha acabado de ganhar uma medalha olímpica. Foi a primeira vez em que pude queixar-me do sucesso a alguém que iria compreender que não estava mesmo a queixar-me do sucesso. Estava a queixar-me da obrigação de ter de lidar com tudo o que acontece do outro lado, a pressão e as expectativas”, recorda, indicando que assumiu publicamente a homossexualidade nove meses desse primeiro encontro.
Sobre a decisão de expor a vida privada, Tom Daley explica que não conseguiria “manter o segredo”. “Foi absolutamente aterrador colocar aquele vídeo no YouTube, porque as pessoas que geriam a minha carreira naquela altura não me encorajaram e disseram-me que ia perder todos os patrocínios. Foi algo muito assustador de fazer, mas fiquei contente assim que se soube. Tirou a pressão de tudo. Podia ser eu, pela primeira vez”, sublinha.
O atleta termina o texto com um agradecimento aos pais, que “celebraram a pessoa” que sempre foi, e recordações dos Jogos Olímpicos de Paris, onde já participou com dois filhos e “a trabalhar com poucas horas de sono”. “Fui um atleta durante a maioria da minha vida, por isso, estou a demorar a ajustar-me à minha nova realidade. Estou tão habituado a ser disciplinado que se estiver a jantar fora e alguém perguntar se quero um copo de vinho demoro um segundo a lembrar-me de que posso. O mesmo com a comida”, conclui, revelando que teve “algumas questões com distúrbios alimentares” ao longo da carreira e principalmente depois de um treinador lhe dizer que tinha de perder peso.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]