Morreu Brian Wilson, cantor, compositor, produtor e fundador da banda The Beach Boys, aos 82 anos. A notícia foi avançada pela família na conta de Facebook do músico.
“Estamos sem palavras neste momento”, lê-se no comunicado publicado esta tarde. “Por favor, respeitem a nossa privacidade neste momento, pois a nossa família está de luto. Sabemos que estamos a partilhar o nosso luto com o mundo”, acrescentaram, assinando “Love & Mercy”, nome de uma das canções a solo de Wilson.
Apesar de não ter sido ainda adiantada causa de morte, em fevereiro de 2024 a família do cantor tinha anunciado num comunicado citado pelo The Guardian que o músico sofria de demência, passando a estar ao cuidado de dois membros da sua família.
Conhecido principalmente como um dos fundadores dos The Beach Boys, banda da qual era a principal figura, Wilson inscreveu o nome na História como um dos mais geniais compositores da música popular moderna, ajudando a reinventar o conceito de canção e apontando o caminho para as múltiplas expressões que o rock e a pop tomaram desde então, influenciando os próprios Beatles, como Paul McCartney viria a admitir.
Wilson, porém, não se notabilizou apenas como músico, mas também como produtor, sendo responsável por gravar grande parte dos álbuns do período áureo dos The Beach Boys nos anos 60. O culminar de ambas as valências deu-se em Pet Sounds. Lançado em 1966, marcou uma viragem para um tipo de temática menos concentrada no escapismo californiano e mais em temas pessoais e introspetivos, apesar de manter a mesma toada psicadélica que o dealbar da cannabis e da LSD trouxeram. A música e a gravação acompanharam essa mudança com níveis de produção muito altos e inovadores para a época, inclusive recorrendo a complexas orquestrações e arranjos vocais. Por estas razões, o disco é ainda hoje considerado um dos melhores álbuns de sempre, apesar de, pela audacidade que apresentou, ter sido encarado com alguma resistência quando foi lançado.
Nascido em Inglewood, cidade localizada a sul de Los Angeles, na Califórnia, Brian Wilson cedo mostrou pendor para a música, aprendendo melodias de ouvido e conseguindo cantar com afinação perfeita enquanto era ainda criança. Com o irmão Carl, movidos pelo seu amor pela música que cresceram a ouvir — do rock & roll ao doo-wop —, formaram uma primeira banda, Carl and the Passions, nos tempos de liceu, em conjunto com o primo, Mike Love. Seria, contudo, apenas com a entrada do terceiro irmão Wilson, Dennis, e do amigo Al Jardine, que tornar-se-iam nos Pendletones — sendo que Brian seria o principal compositor e o líder de facto do grupo.
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Gerida pelo pai dos três irmãos, Murray Wilson — descrito como violento e abusivo pelos próprios músicos—, a banda conseguiu lançar a sua primeira canção, Surfin’, em 1961, junto da editora Candix Records. Esta, contudo, sem pedir autorização, mudou-lhes o nome para The Beach Boys, selando invariavelmente o seu futuro. Foi com esta formação que a banda conheceu rapidamente sucesso, com álbuns como Surfin’ U.S.A., Surfer Girl e Little Deuce Coupe, os três chegando ao top 10 das tabelas de vendas dos EUA.
Todavia, apesar (e por causa) do sucesso inicial, Brian Wilson sofreria um ataque de pânico no final de 1964 devido à agenda intensa da banda, estabelecendo um padrão de problemas de saúde mental que o atormentaria ao longo da vida. Este revés fê-lo parar de tocar ao vivo com a banda até 1976, sendo que Wilson, na altura já muito interessado em trabalho de produção musical, dedicou-se ainda mais a essa faceta, sendo assim que surgiu Pet Sounds em todo o seu fulgor e criatividade, feito de canções ainda hoje entoadas com arrepios, como Wouldn’t It Be Nice, God Only Knows e Caroline, No.
Brian Wilson e os Beach Boys vão continuar a ser um mistério
Em 1967, com a saúde mental deteriorada, apresentando um consumo cada vez mais descontrolado de drogas e isolando-se dos amigos e dos restantes colegas, viu-se incapaz de terminar Smile, o sucessor de Pet Sounds que era suposto ser uma “sinfonia adolescente para Deus”. Ao invés, admitiu ceder o controlo criativo dos The Beach Boys aos outros membros, resultando assim em Smiley Smile, versão simplificada do álbum original, ainda pior recebido que o disco anterior, apesar de tornar-se um clássico de culto.
A saúde de Wilson, entretanto, agravou-se de tal forma que foi forçado a um internamento num hospital psiquiátrico em 1968, onde foi diagnosticado com esquizofrenia — quadro clínico entretanto refutado. O seu declínio repercutiu-se na banda, que viu perder muita da sua popularidade até ao final da década, quando os álbuns Sunflower e Surf’s Up — lançados em 1970 e 1971, respetivamente — foram encarados como uma espécie de regresso bem sucedido.
Wilson continuou a trabalhar com os The Beach Boys, apesar do seu papel ser cada vez mais diminuto e da sua insularidade continuar a aumentar devido à dependência de drogas e álcool — algo que se agravaria com a morte do pai em 1976 e do irmão Dennis em 1983, por afogamento.
Foi então que o seu caminho cruzou-se com o de Eugene Landy, o controverso psicólogo que começou a controlar progressivamente a sua vida, atingindo um ponto de rotura em 1982, quando o terapeuta obrigou-o a sair da banda para fazer um tratamento intensivo, exercendo um domínio cada vez maior sobre as suas finanças e a sua atividade criativa. Foi sob a sua égide, aliás, que Wilson lançou um primeiro álbum a solo em 1988, sendo que só se livraria do seu controlo em 1992 quando, na sequência de uma ação judicial intentada por Carl Wilson e outros membros da família, o psicólogo viu a sua licença ser revogada e recebeu uma ordem de restrição. A relação entre Wilson e Landy seria retratada no filme Love and Mercy – A Força de Um Génio, lançado em 2015.
Os anos 90 marcaram o início da sua recuperação, mas não sem novas controvérsias, como os múltiplos processos por difamação que sofreu da parte de Mike Love, do irmão Carl e da mãe Audree pelo que escreveu no livro de memórias Wouldn’t It Be Nice: My Own Story, de 1992. Os dois últimos perdoá-lo-iam por considerar que foi manipulado por Landy, mas não o primeiro, sendo que Love também colocou Wilson reclamando créditos de composição e as royalties subsequentes, vencendo parcialmente o caso. Esta nova década turbulenta foi ainda marcada pela morte de Carl, vítima de cancro, em 1998.
Na viragem dos anos 2000, Wilson conseguiu finalmente atingir alguma estabilidade na sua vida. Voltou a tocar ao vivo, conseguindo também lançar finalmente uma versão própria do projeto inacabado da banda, Brian Wilson Presents Smile, em 2004, álbum amplamente celebrado como a concretização idealizada do disco abortado de 1967.
Não sendo já capaz de ter o peso que outrora tivera de cativar massas, continuou a lançar álbuns bem recebidos, participando inclusive (como produtor e compositor) no último dos The Beach Boys, That’s Why God Made the Radio, de 2012, lançado nos 50 anos da banda e um ano após ter-se juntado aos membros sobreviventes para tocar ao vivo. No que toca à sua carreira a solo, o último disco de originais data de 2015, No Pier Pressure, que contou com os préstimos de Kacey Musgraves e Zooey Deschanel. Um ano depois, fez a sua primeira e única visita a Portugal, quando assinalou os 50 anos de edição de Pet Sounds, no festival Primavera Sound no Porto.
Antes de ser assolado por demência, Wilson escreveria ainda um segundo livro de memórias, I Am Brian Wilson, lançado em 2016, e venderia os direitos das suas músicas à Universal por 50 milhões de dólares em 2021. A 26 de julho de 2022, deu o seu último concerto, no âmbito de uma digressão conjunta com os Chicago.
Casado duas vezes, teve duas filhas do primeiro casamento, com Marilyn Rovell, e adotou cinco crianças no decurso do segundo, com Melinda Kae Ledbetter, que também era a sua manager. Enviuvou em janeiro de 2024.
Celebrado quase unanimemente pela sua influência nos mais variados géneros musicais, foi por nove vezes nomeado aos prémios Grammy, vencendo em duas ocasiões. Entre as distinções que obteve ao longo da vida, destaca-se também a medalha do Kennedy Center, em 2007. Faz parte do Rock and Roll Hall of Fame desde 1988, quando os The Beach Boys foram introduzidos, e pelo seu trabalho com a banda recebeu também um Grammy de carreira em 2001.