Muita pompa, demasiados problemas de circunstância. Entre todas as renitências existentes em torno deste novo formato do Mundial de Clubes, parecia que havia sempre uma questão a mais por resolver. Antes do arranque da competição, as tensões sociais registadas nas ruas de Los Angeles; na antecâmara do início do encontro inaugural, a escassez de bilhetes vendidos mesmo a preços mais acessíveis (que chegavam mesmo a quatro euros para estudantes da universidade local); a poucas horas do pontapé inicial, a questão do trânsito caótico em torno do Hard Rock Stadium que obrigou vários adeptos e até jornalistas a encontrarem alguns meios alternativos para chegarem ao recinto. Por mais que a FIFA quisesse insistir, com uma cerimónia a puxar a tudo o que alimenta apenas os olhos, nada do que estava previsto acabou por acontecer.

Inter Miami e Al Ahly empatam sem golos no início do Mundial de Clubes

“A segurança é para nós uma prioridade absoluta. Estamos a fazer tudo em cooperação com as autoridades para que os adeptos possam assistir aos jogos em total segurança”, apontava Gianni Infantino. presidente da FIFA, numa tentativa de desviar as atenções para aspetos mais ligados com a parte desportiva e da própria organização. “Bilhetes a quatro euros? Primeiro somos criticados porque são muito caso, agora já somos criticados porque fazemos um protocolo com uma universidade… É sempre assim”, acrescentava, quase a branquear os grandes problemas que a organização deste Mundial de Clubes enfrentava e que só poderiam ser mitigados olhando para o que a prova poderia ser no relvado, sobretudo a partir das formações europeias.

Teria de ser mesmo “dia a dia”, com esse reforço extra na noite de abertura a passar pelo capitão do Inter Miami, Lionel Messi. “É um bonito torneio e tenho grande vontade de poder disputá-lo. Tenho outras expectativas em comparação com quando estava noutras equipas mas com muita vontade de competir com os melhores e tentar fazer boa figura. Vêm equipas muito grandes de todo o mundo, o que mobiliza muita gente em todo o planeta. São equipas que têm jogadores muito importantes e que as pessoas gostam de ver. É uma oportunidade para as equipas da América competirem com as europeias e uma boa experiência tanto para o jogador que o disputa como para o adepto que vai ao estádio”, referira antes da partida inaugural. Só faltou mesmo falar das equipas africanas, também elas em final de época. E do Al Ahly.

Em condições normais, ao intervalo, os africanos não só estariam em vantagem como teriam o encontro mais do que arrumado. O que faltou? Outra definição e não terem pela frente um super Oscar Ustari, guarda-redes de 38 anos que teve o momento de glória que parecia adiado há quase duas décadas, quando conquistou o ouro nos Jogos de Pequim mas sofreu uma grave lesão que lhe marcaria o resto da carreira. Depois, já com Lionel Messi a pisar corredores centrais e a ter jogo voltado de frente para a baliza, o Inter Miami até foi melhor, bastando que o número 10 argentino aparecesse para que tudo à sua volta fosse diferente, mas o nulo não seria desfeito num início de Mundial de Clubes que não ajudou a desfazer tudo o resto.

O encontro começou com o Inter Miami a ter controlar em posse o jogo e o Al Ahly a fazer transições que com três/quatro passes conseguiam colocar a bola no último terço para finalização, como aconteceu com Abou Ali (5′) e Emam Ashour (8′). O último, uma das grandes referências dos Diabos Vermelhos, acabou por ser substituído pouco depois por lesão, dando lugar a Zizo (antigo jogador de Nacional e Moreirense), mas o domínio dos egípcios manteve-se com mais uma grande defesa de Oscar Ustari a um remate de Hamdy Fathy (19′) antes de mais duas ameaças de Abou Ali entre um golo anulado. A primeira parte resumia-se ao futebol do conjunto africano, que teve ainda um penálti de Trezeguet que foi também travado pelo guarda-redes argentino de 38 anos, o MVP de 45 minutos com um campo “inclinado” mas sem desfazer o nulo.

Os norte-americanos teriam de mudar algo, os norte-americanos mudaram bem mais do que se esperava. Além da entrada de Marcelo Weigandt para o lado direito da defesa, tendo um remate com muito perigo ao lado após assistência de Lionel Messi, o Inter Miami teve outra capacidade de travar e lançar transições, foi equilibrando os acontecimentos e beneficiou da melhor chance até aos 15 minutos finais onde as equipas iriam arriscar mais com um remate de Messi que ficou encaixado nas malhas laterais (64′). O Al Ahly tinha quebrado em definitivo no plano físico, os visitados começavam a forçar e Fafà Picault voltou a ficar perto do golo inaugural, num desvio de cabeça após cruzamento de Messi desviado por El Shenawy para canto (85′). O encontro iria mesmo terminar sem golos apesar das muitas oportunidades de parte a parte, com Lionel Messi a ter ainda uma bola a bater na trave após desvio do guarda-redes egípcio (90+5′) e Falcon a ver um desvio de cabeça ao primeiro poste após canto ser defendido de novo por El Shenawy (90+7′).

A pérola

  • Chegou a passar por Espanha (Getafe e Almería) e Inglaterra (Sunderland), esteve na Argentina, no México, no Uruguai e no Chile, reencontrou o amigo e antigo companheiro Lionel Messi nos EUA após terem ganho juntos a medalha de ouro dos Jogos de 2008, em Pequim, onde se lesionou com gravidade nos quartos e teve de parar oito meses. Oscar Ustari era um dos jogadores com menos “perfil” para ser o grande destaque no encontro inaugural do Mundial de Clubes mas conseguiu, com uma mão cheia de intervenções, ser o MVP de uma partida que só não caiu logo para o Al Ahly por sua influência. Aos 38 anos, e quando o Inter Miami está sempre à procura da próxima estrela, nasceu um herói improvável que, no final, se estendeu também a El Shenawy, com duas defesas “impossíveis” a salvar o nulo.

O joker

  • Nasceu na Dinamarca, assumiu a nacionalidade palestiniana da família quando chegou aos seniores, só chegou no ano passado ao Egito depois de ter feito toda a carreira na Escandinávia, não deve demorar a dar o salto para uma equipa de outro nível na Europa. Aos 26 anos, o avançado Abou Ali teve uma série de golos falhados sobretudo na primeira parte quando conseguia ir buscar a profundidade nas costas dos centrais do Inter Miami mas a capacidade que mostrou para esticar a equipa, o espírito de luta com ou sem bola e as ações na própria área nas bolas paradas defensivas foram um bom cartão de visita.

A sentença

  • Com este empate, as duas equipas podem ficar numa posição mais complicado em termos teóricos tendo em conta que eram os conjuntos que à partida partiam como outsiders aos dois lugares de passagem à fase a eliminar. Ainda assim, antes do encontro entre Palmeiras e FC Porto, somam um ponto cada, com os norte-americanos a defrontarem agora os dragões e os egípcios a jogarem com o Verdão.

A mentira

  • Apesar de estar nesta competição por mérito desportivo, depois de ter vencido a fase regular da Liga norte-americana, o Inter Miami está a anos luz em termos coletivos de equipas como o Al Ahly. Há Messi, há Luis Suárez, há Sergio Busquets, há pouco mais num conjunto demasiado vulnerável em tudo o que metesse transições defensivas e com um treinador, Javier Mascherano, que foi outro grande jogador mas que está agora a começar a carreira de técnico após passagens por Sub-20 e Sub-23 da Argentina. Aquilo que sobrou é que jogar na MLS tem mesmo pouco a ver com este nível…