Era um daqueles jogos que dificilmente aconteceria se não fosse proporcionado pelo Mundial de Clubes. No extraordinário Lumen Field, que também recebe jogos de futebol americano da NFL, Seattle Sounders e Botafogo cruzavam-se na primeira jornada da fase de grupos da competição dentro de um Grupo B onde o PSG já tinha goleado o Atl. Madrid — ou seja, com a possibilidade de lutar com os espanhóis pelo segundo lugar e respetivo apuramento para os oitavos de final.

De um lado, uns norte-americanos que carimbaram o passaporte para o Mundial de Clubes já em 2022, quando se tornaram a primeira equipa dos Estados Unidos a conquistar a Liga dos Campeões da CONCACAF — com muita ajuda de Fredy Montero, antigo avançado do Sporting que é o terceiro melhor marcador da história do clube. De lá para cá, os Seattle Sounders não voltaram a alcançar qualquer troféu, destacando-se nas fileiras o guarda-redes Stefan Frei, que está há dez anos no emblema.

Do outro lado, os brasileiros orientados pelo português Renato Paiva — que substituiu outro português, Artur Jorge — chegavam ao Mundial de Clubes no sétimo lugar do Brasileirão, mas depois de uma temporada histórica onde não só conquistaram a Taça Libertadores pela primeira vez como acrescentaram o título nacional. No plantel, para além do goleador Igor Jesus que está de malas feitas para o Nottingham Forest de Nuno Espírito Santo, surgia Arthur Cabral, que regressou ao Brasil há poucos dias depois de deixar o Benfica.

“Não gosto muito de falar de mim, porque é um desporto coletivo e os jogadores estão acima de mim. E acima de todos está o Botafogo. Hoje acordei com uma mensagem de Portugal que me emocionou bastante. Falava sobre o Renato que viam há anos na base do Benfica. Quando olhas para trás, vês que começaste nos Sub-10, Sub-14, em campos de areia… Quando comecei ali, tracei um objetivo na minha carreira que era chegar a este patamar de competição. Não sou mais o Renato dos meninos do Benfica, sou o Renato de alguns títulos, com uma trajetória bonita e que está num gigante do futebol mundial. Custou, doeu, mas valeu a pena”, disse Renato Paiva, emocionado, na antevisão da partida.

Num Lumen Field de Seattle que é um dos estádios mais barulhentos da NFL, tendo mesmo tido o recorde do Guinness para estádio mais ruidoso do mundo, Brian Schmetzer apostava em Danny Musovski como referência ofensiva, com Ryan Kent e Jesús Ferreira no apoio ao avançado norte-americano. Já Renato Paiva tinha Igor Jesus e Gonzalo Mastriani no ataque, com o ex-FC Porto Alex Telles na esquerda da defesa e Joaquín Correa, que passou por Lazio, Inter Milão e Marselha e é o grande reforço dos brasileiros para o Mundial de Clubes, a começar no banco, assim como Arthur Cabral.

O Seattle Sounders começou melhor, com mais bola e uma vontade clara de contrariar o natural favoritismo do Botafogo. Alex Roldán deixou o primeiro aviso, com um remate de fora de área que passou por cima (8′), e Jesús Ferreira também assustou com um pontapé desenquadrado (16′) — sendo que, pelo meio, Igor Jesus respondeu com um cabeceamento na área que Stefan Frei encaixou (13′). Já perto da meia-hora, numa fase em que os brasileiros já tinham equilibrado a dinâmica, Jair Cunha conseguiu mesmo abrir o marcador com um cabeceamento depois de um livre cobrado por Alex Telles (28′).

Os norte-americanos reagiram à desvantagem, mas nunca deixou de parecer que a posse de bola de que beneficiavam era apenas consentida pelo Botafogo, que preferia atacar em transição e ia controlando as raras investidas contrárias no último terço. Já perto do intervalo, os brasileiros aumentaram mesmo a vantagem por intermédio de Igor Jesus, que cabeceou quase parado no ar depois de um cruzamento de Vitinho na direita (44′). No fim da primeira parte, o Botafogo estava a vencer o Seattle Sounders.

Ambos os treinadores mexeram ao intervalo, com Renato Paiva a trocar Gonzalo Mastriani por Joaquín Correa e Brian Schmetzer a lançar Reed Baker-Whiting e Jon Bell para os lugares de Nouhou Tolo e Kim Kee-hee. O Botafogo não escondia que queria gerir esforços e intensidades, até por ter do seu lado uma vantagem confortável, enquanto que o Seattle Sounders era completamente inofensivo e inconsequente apesar de controlar a posse de bola.

Os norte-americanos ameaçaram o golo já perto da hora de jogo, num lance em que Albert Rusnák rematou na área e John defendeu (58′), e Renato Paiva voltou a mexer para lançar Arthur Cabral e Cuiabano. A 15 minutos do fim, porém, o Seattle Sounders conseguiu mesmo reduzir a desvantagem: canto curto na esquerda, cruzamento e cabeceamento de Cristian Roldán, com a bola a desviar em Igor Jesus para trair John (75′).

Até ao fim, contudo, já nada mudou. O Botafogo de Renato Paiva venceu o Seattle Sounders e entrou a ganhar no Mundial de Clubes, garantindo que vai provavelmente discutir o apuramento para os oitavos de final diretamente com o Atl. Madrid, que foi goleado pelo PSG horas antes.

A pérola

De forma quase obrigatória, Igor Jesus. Num dos últimos jogos pelo Botafogo, já quem vai mesmo rumar ao Nottingham Forest e à Premier League depois do Mundial de Clubes, o avançado de 24 anos voltou a marcar e até poderia ter marcado mais na primeira jornada da competição. Nascido em Cuiabá, com passagens por Coritiba e Shabab Al Ahli dos Emirados Árabes Unidos, Igor Jesus marcou 31 golos em todas as competições na temporada passada e voltou a mostrar que o clube brasileiro vai mesmo perder a sua maior referência.

O joker

Nascido em Orlândia e com apenas 20 anos, Jair Cunha marcou esta segunda-feira o primeiro golo de uma ainda curta carreira — e desde logo o primeiro do Botafogo no Mundial de Clubes. O central de apenas 20 anos, que esteve no radar do FC Porto no verão passado quando ainda jogava no Santos, chegou ao clube de Rio de Janeiro apenas em fevereiro e no negócio que levou Tiquinho Soares para São Paulo, mas a verdade é que também pode estar de saída e também rumo ao Nottingham Forest de Nuno Espírito Santo.

A sentença

Com a derrota do Atl. Madrid frente ao PSG e a vitória do Botafogo frente ao Seattle Sounders, espanhóis e brasileiros irão discutir entre si o segundo lugar do Grupo B e o apuramento para os oitavos de final. Atl. Madrid e Botafogo cruzam-se na próxima segunda-feira no Rose Bowl, em Los Angeles e já na última e terceira jornada da fase de grupos, e o mais provável é que essa partida seja um autêntico confronto direto pela qualificação.

A mentira

O Seattle Sounders não está no Mundial de Clubes apenas para ocupar uma vaga. Para além de ser a primeira equipa dos Estados Unidos a marcar presença na competição pela segunda vez, a equipa de Brian Schmetzer é bem organizada, sabe ter a bola e está muitos níveis acima do que foi coletivamente demonstrado pelo Inter Miami de Lionel Messi, por exemplo, no jogo inaugural contra o Al Ahly. O Grupo B nunca seria fácil e falta ter a capacidade para criar verdadeiras oportunidades de golo e melhorar a finalização — mas os alicerces estão todos lá.