A cidade de nascimento e a cidade adoptiva fazem parte de Blossoms Shanghai, estreia de Wong Kar Wai em séries de televisão. Não se deixa de pensar nisso desde o visionamento dos primeiros episódios. Quem já chegou aos últimos, sabe que é a Hong Kong que esta história de Xangai vai desembocar. Mais do que toda a relação histórica que existe entre as duas cidades, há para Wong Kar Wai, acima de tudo, uma relação afetiva que se explica umas linhas mais à frente e que vem de longe no seu cinema, já sentida desde Days of Being Wild/Dias Selvagens. Tal como de Xangai vinham as personagens centrais de In the Mood for Love/Disponível para Amar naquela Hong Kong dos anos 60 – e outros casos nesta obra podiam ser chamados a título de exemplo.
Xangai está no título desta série, mas é sabido que é com Hong Kong que Wong Kar Wai se confunde. A cidade ganhou sensual figura com o seu gesto artístico impressionista e estilizado. Em Chungking Express, Wong Kar Wai eternizou no cinema, por exemplo, os micro-apartamentos de Kowloon, uma das áreas mais densamente povoadas do mundo. Não foi propriamente um retrato documental de Hong Kong, que fique claro. Foi a cidade que, graças aos filmes, ele inventou para nós, em cápsulas de mágoa e nostalgia, com personagens insondáveis e relações ambivalentes. Da mesma forma que o cinema de acção de Hong Kong do último quarto do século passado forjou no nosso imaginário de espectadores ocidentais uma metrópole violenta, muito perigosa, dominada por tríades, com descomunais cenas de pancadaria e tiroteios – tudo exagerado, claro, metralhadas e estardalhaços que, em boa verdade, nunca aquelas ruas viram, coisas só possíveis pelo poder do cinema. Mas a audiência acreditou nelas, como se Hong Kong algum dia tivesse sido assim. Tal como acreditou na Hong Kong de Wong Kar Wai que ele transfigurou com classe, a seu gosto.
E contudo, foi em Xangai que Wong Kar Wai nasceu, a 17 de Julho de 1958. Aqui desenvolveu ele Blossoms Shanghai, um dos seus projetos mais gargantuescos, e que lhe consumiu vários anos de trabalho. O cineasta adquiriu em 2013 os direitos do romance Blossoms, que Jin Yucheng publicara pouco antes, o guião arrancou em 2017 e a rodagem coincidiu com a pandemia, entre o final do verão de 2020 e meados de 2023. Resultado: série em 30 episódios, transmitida na China em dezembro de 2023. Foi um êxito nacional tremendo, bateu recordes de audiência no país e até causou romarias a locais emblemáticos de Xangai já empestados de gente como o Peace Hotel e discotecas e restaurantes vizinhos.
Há muito a circular nas catacumbas da pirataria, a série só agora chega, ano e meio depois, a uma plataforma ocidental de streaming — os primeiros 15 episódios, de 45 minutos cada, estão a partir desta terça-feira na Filmin, disponíveis em Espanha e em Portugal antes de qualquer outro território europeu. Os 15 episódios seguintes serão servidos à razão de cinco por cada vez, nas três terças-feiras próximas.
Blossoms Shanghai passa-se nos anos 90 do boom económico chinês, resultante das reformas e da abertura de mercado lançadas por Deng Xiaoping. Arranca no reveillon de 1993, depois recua a 1987. São os anos da especulação, dos milagres do import-export e da abertura da Bolsa da cidade (em 1990), que mal sabia o que isso era. Xangai, eufórica, sonhava então com a cosmopolita Hong Kong, a Pérola do Oriente, a ainda então florescente colónia britânica, potência económica que Xangai em tudo queria imitar, evidentemente. Aliás, Blossoms Shanghai não esconde este traço colonialista, muito permeável a outros filmes de Wong Kar Wai – o Peace Hotel, de resto, é disso símbolo, a sua “suite britânica” é um décor de capital importância na ficção.
A nossa âncora chama-se Ah Bao (Hu Ge a dar ares a Tony Leung), o jovem ambicioso ainda não convencido do rumo que quer dar à vida. Esforça-se todos os dias para “manter as aparências”, diz ele. A série não tarda a contar-nos que há um preço a pagar por isso. Ah Bao quer singrar no mundo dos negócios e socorre-se dos ensinamentos do misterioso Tio Ye, um malabarista das finanças que sabe o que é preciso sobre o corte de um tweed. A ligação desta personagem com a Hong Kong colonial é evidente – pode lá o tweed não ser inglês? Ah Bao coloca a lealdade acima de qualquer outra coisa – ou não fosse esta uma personagem de Wong Kar Wai. Em nome da lealdade, muitas outras no passado optaram pelo sacrifício.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 5.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]
Numa nota de intenções narrada pelo cineasta para este lançamento particular da Filmin, Wong Kar Wai conta à audiência que Blossoms Shanghai fala de “motivações humanas universais, da busca pela reinvenção, da intoxicação das oportunidades e da tensão entre a ambição e o amor”, vectores de um eterno retorno que é padrão no corpo de trabalho desta obra e que, em simultâneo, são um comentário agridoce ao tempo em que vivemos. A isto se acrescentariam os sentimentos inconclusivos, as emoções reprimidas, uma atracção natural de Wong Kar Wai pelo melodrama e que assim continuará, tanto quanto se sabe: depois desta série outra virá, Tong Wars, anunciada como uma saga de gangsters enquanto reflexo da experiência sino-americana no século XX.
Blossoms Shanghai custa a arrancar. Os seus melhores episódios não são os primeiros, em parte confusos no plot, nos flashbacks, nas intenções. Certas figuras tardam a convencer. As principais ganham contudo consistência a partir do quarto tomo, em especial as personagens femininas que gravitam em torno de Ah Bao: Ling Zi, a menina Wang, Li Li. Falta à série a vertigem das melhores ficções de cinema do autor, a sideração de outras bandas sonoras. Só em raros instantes não se superioriza o estilo à emoção. Estas baladas não têm o mesmo efeito de outrora e se calhar nem é suposto terem: se Wong Kar Wai é o cineasta dos sonhos quebrados, de uma beleza passageira, sempre difícil de fixar, mais efémera essa beleza se torna no pequeno ecrã.
Por isso preferimos desde o início ver Blossoms Shanghai de outra maneira, não como um patamar menor face aos trabalhos cinematográficos mas através de uma perspectiva histórica e geopolítica mais interessante e que vai crescendo ao longo da série (perspectiva essa sublinhada por uma opção estética pouco habitual no trabalho do cineasta: o recurso a curtos, mas incisivos, trechos de imagens de arquivo da Xangai da época).
Entre os anos 90 em que se passa Blossoms Shanghai e os dias de hoje, a China acelerou sem olhar para trás, numa direcção inversamente proporcional à felicidade das pessoas. Esta série de Wong Kar Wai não nos fala de outra coisa.
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia