Era impossível passar ao lado do autêntico mar amarelo e azul que desaguou em Miami. Estava nas praias, estava nos bares, estava nas principais ruas, estava muitas vezes à sombra para descansar antes de voltar às praias, aos bares ou às principais ruas. Simplesmente, estava. Se no Mundial do Qatar era impossível passar ao lado dos milhares e milhares de adeptos argentinos que vendiam casas, carros e tudo mais que tivessem apenas para poder estar ao lado da sua seleção (e às vezes mesmo sem bilhete certo para as partidas), neste Mundial dos EUA era impossível passar ao lado dos milhares e milhares de adeptos xeneizes que invadiram o país em busca de um único objetivo: apoiar o Boca Juniors. Tanto que, coisa rara nesta edição, a equipa de Buenos Aires foi das poucas a esgotar os três encontros da fase de grupos – e a primeira de todas a fazê-lo.

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O Benfica, também com grande apoio dos muitos emigrantes portugueses no país (em alguns casos a fazerem viagens longas nos EUA para verem os encarnados), começava a perder nas bancadas tal como acabara a sua época em Portugal a perder. Perdeu o Campeonato ao empatar na Luz frente ao Sporting no dérbi que iria decidir o título, perdeu a Taça de Portugal de novo frente ao rival num desfecho dramático com a decisão a ir para prolongamento no décimo minuto de descontos do tempo regulamentar. Se dúvidas ainda existissem, um título nos últimos seis anos e nova temporada de desilusão desportiva acendeu um rastilho chamado eleições. Apesar de todos os pedidos de sufrágio antecipado, Rui Costa recusou o cenário de demissão mas deixou tudo adiado para o final do Mundial de Clubes em relação a uma possível recandidatura. Enquanto isso acontecia, Bruno Lage, um dos mais criticados no final de 2024/25, preparava a competição nos EUA.

Também o treinador jogava algo em termos futuros neste Mundial de Clubes, depois de ter devolvido uma esperança perdida com Roger Schmidt de lutar por títulos que acabou por não passar das intenções. E se para uns é o final da temporada e para outros o início da nova época, Lage fica pelo meio termo. “A nossa forma de encarar este troféu tem de ser semelhante àquilo que é o estado de espírito que os jogadores têm ao serviço da seleção. Para nós, não é final de época, nem início da próxima época. Devemos encarar isto como uma competição. Que os jogadores estejam concentrados no que podemos fazer. Esta equipa tem ao longo da época passada jogado como equipa. Cada um corre pela equipa, pelo colega, por isso não vão deixar de o fazer, apesar de algumas situações que ainda estão em aberto por causa do mercado”, frisara.

“A nossa perspetiva é sentirmos a importância da competição e o prestígio que podemos trazer para o clube. É um enorme prazer com que aqui estamos e a nossa intenção é fazer um grande jogo e vencer o primeiro jogo da competição. É um encontro importante, estamos numa competição curta. É dessa forma que estamos a encarar esta competição. Temos três jogos, à semelhança de um Campeonato do Mundo, e sabemos o quanto é importante a conquista de pontos. Vai ser um jogo muito competitivo. Tivemos a oportunidade de analisar o Boca, podem jogar com dois avançados ou com um homem por trás do avançado, mas o ponto importante é jogar como equipa. Jogam juntos, compactos. É uma equipa aguerrida. Temos de dar o nosso melhor. Perspetivo que seja um grande jogo”, acrescentara Bruno Lage antes da estreia.

Faltou apenas completar a ideia: o Benfica ia para uma autêntica batalha. Jogar contra uma equipa como o Boca Juniors é um autêntico teste à paciência coletiva e individual de qualquer formação europeia por toda a intensidade e agressividade que colocam em cada duelo como se fosse o último e também pela forma como vão testando a parte mental do lado contrário. Enquanto teve cabeça, o Benfica foi melhor; quando isso faltou, esteve por baixo. E foi nesse contexto que, a perder por 2-0, Otamendi “ganhou” um penálti em cima do intervalo e resgatou com um golo (e menos uma unidade em campo) o empate que pode ser determinante para as contas deste grupo que tem também o poderoso Bayern e o muito frágil Auckland City.

Ficha de jogo

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Boca Juniors-Benfica, 2-2

1.ª jornada do grupo C do Mundial de Clubes

Hard Rock Stadium, em Miami (EUA)

Árbitro: César Arturo Ramos (México)

Boca Juniors: Agustín Marchesin; Advíncula, Nicolás Figal, Ayrton Costa, Lautaro Blanco; Ander Herrera (Belmonte, 20′), Rodrigo Battaglia; Kevin Zenón, Palacios (Alarcon, 66′), Alan Velasco (Giménez, 58′) e Merentiel (Zeballos, 66′)

Suplentes não utilizados: Brey, Garcia, Saracchi, Marcos Rojo, Janson, Miramón, Fabra, Braida, Aguirre, Blondel e Delgado

Treinador: Miguel Ángel Russo

Benfica: Trubin; Dahl (Belotti, 46′), António Silva, Otamendi, Álvaro Carreras; Florentino Luís (Leandro Barreiro, 90′), Renato Sanches (Kökçü, 61′); Di María (Prestianni, 77′), Aursnes, Bruma (Aktürkoglu, 61′) e Pavlidis

Suplentes não utilizados: André Gomes, Schjelderup, Tiago Gouveia, Gonçalo Oliveira, João Veloso, Bajrami, Rafael Luís, João Rego, Diogo Prioste e Leandro Santos

Treinador: Bruno Lage

Golos: Menentiel (21′), Battaglia (27′), Di María (45+3′) e Otamendi (84′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Palacios (66′), Álvaro Carreras (67′), Pavlidis (83′) e Ayrton Costa (85′); cartão vermelho direto a Herrera (45′, no banco), Belotti (70′) e Figal (88′)

Apesar do início escaldante da partida com os adeptos xeneizes a fazerem-se ouvir alto e bom som, o Benfica não sentiu propriamente qualquer tipo de intimidação e agarrou de forma natural no encontro com Ángel Di María a começar a abrir o livro em posições mais interiores e os movimentos ofensivos a surtirem efeito, com Álvaro Carreras a ganhar a linha de fundo para o cruzamento atrasado que terminou com um remate na passada de Renato Sanches que passou perto do poste da baliza de Marchesín (6′). Onde “ganhava” o Boca Juniors? Na intensidade com que abordava todos os lances, na agressividade (algumas vezes excessiva, o que deixou Bruno Lage à beira de um ataque de nervos) e pouco mais, tendo em conta que a pressão do Benfica fazia com que, à exceção de um tiro de meia distância de Velasco por cima da trave de Trubin, a formação argentina não conseguisse fazer mais do que três passes antes de procurar sem êxito a profundidade.

Di María, quando não era atropelado ao receber a bola, continuava a fazer a diferença e, em mais um lance de génio com um passe a rasgar da direita para a esquerda que parecia destinado a Carreras, assistiu Bruma para um remate ao poste do internacional português que viria a ser anulado por fora de jogo que parecia não existir (19′). O Benfica parecia perto do golo antes do céu de Miami desabar em cima da equipa em menos de dez minutos de total: num lance que começou com Dahl a perder o lance de cabeça, Blanco colocou a bola entre as pernas de Florentino Luís e serviu Merentiel para o desvio ao primeiro poste em antecipação a Otamendi ao primeiro poste (21′); pouco depois, ainda empurrados pela loucura dos adeptos atrás da baliza de Trubin, Battaglia aproveitou um desvio ao segundo poste após canto para o lado contrário para saltar nas costas de Aursnes e fazer o 2-0 (27′). Bastaram duas oportunidades para tudo ficar virado.

O Benfica acusou e muito os golos sofridos, o Boca Juniors entrou na sua zona de conforto com os golos marcados. A boa entrada em jogo dos encarnados não só não teve continuidade como foi cilindrada por dois lances com muitas culpas próprias à mistura que deixaram a equipa perdida em campo, sem capacidade de ligação entre setores, em busca dos espaços entre linhas que deixaram de aparecer e sem linhas de passe para fazer a construção a três que estava preparada. Os minutos passavam, a reação continuava adiada. Contudo, em cima do intervalo, um erro da defesa argentina acabou por dar nova vida aos lisboetas, que beneficiaram de uma grande penalidade de Palacios sobre Otamendi na sequência de um canto para reduzirem para 2-1 por Ángel Di María, a bater com classe Marchesín para um golo que surgia na altura certa (45+3′).

Luís Nascimento, adjunto e irmão de Bruno Lage, antecipava logo ao intervalo a entrada de Belotti (para o lugar de Dahl, passando Aursnes para o lado direito da defesa) e um arranque mais pressionante do Benfica para tentar manter a chama do triunfo em aberto. No entanto, o Boca Juniors continuava na sua zona de conforto, podendo descer linhas sem bola para depois procurar as transições que pudessem encontrar os espaços em aberto para ferir os encarnados. À exceção de um desvio de cabeça de Otamendi na sequência de um canto de Di María (58′), jogar com dois avançados fez com que não chegasse nenhuma bola a essas novas referências ofensivas. O técnico não esperou e, entre quebras de tempo por argentinos caídos no chão, Kökçü e Aktürkoglu entraram para os lugares de Renato Sanches e Bruma (61′). Contudo, o Benfica deixou-se levar e Belotti foi expulso num lance em que foi de pé alto e atingiu a cabeça de Blanco (74′).

Os minutos passavam sem que o Benfica conseguisse perceber como chegar à baliza do Boca Juniors, algo que nem a entrada de Prestianni para o lugar de Di María veio descobrir (pelo contrário, acrescente-se). Os argentinos nunca ficaram confortáveis mesmo tendo um jogador a mais, quase abdicaram de saídas rápidas que pudessem matar de vez o encontro e acabaram por ver os encarnados mostrarem que são melhor equipa com Otamendi a fazer o empate na sequência de um canto à direita de Kökçü (84′) e Carreras a ficar perto da reviravolta com um remate de pé direito defendido por Marchesín (86′). Ainda houve mais uma expulsão, com Figal a ter uma entrada à canela de Florentino Luís que nem precisou de VAR (88′), mas aquilo que sobrou foi um episódio quase patético com o árbitro a dar apenas cinco minutos de compensação depois de tantas paragens que a segunda parte teve, acabando o encontro ainda nos 4.59 de tempo extra…

A pérola

  • Otamendi não fica isento de culpas no primeiro golo, num lance em que toda a equipa do Benfica falhou em termos defensivos e o central acabou por ser ultrapassado por Menentiel ao primeiro poste, mas voltou a ser o capitão que os encarnados precisavam num encontro em que esteve sempre sob pressão por parte dos adversários e dos adeptos contrários mas nunca se deixou afetar, “ganhando” a grande penalidade convertida por Di María e fazendo golo do empate a seis minutos do final.

O joker

  • Menentiel ganhou o prémio de MVP do jogo (mais uma vez, num critério muito duvidoso…) e fez um bom jogo, batendo-se enquanto teve forças a jogar muitas vezes sozinho na frente contra os dois centrais do Benfica e mostrando que é uma das grandes mais valias do Boca Juniors nesta fase. Ainda assim, a principal surpresa por tudo aquilo que conseguiu dar ao jogo foi Battaglia, antigo médio do Sp. Braga e do Sporting que marcou um golo e foi um autêntico guerreiro no meio-campo da equipa argentina.

A sentença

  • Com o empate resgatado por Otamendi e a goleada à antiga do Bayern frente ao Auckland City (10-0), o grupo torna-se claro em relação à passagem aos oitavos do Mundial de Clubes: a não ser que exista uma grande surpresa, Benfica e Boca Juniors medirão forças entre si entre quem conseguir fazer melhor resultado contra os germânicos e quem conseguir marcar mais golos aos neozelandeses.

A mentira

  • A arbitragem do mexicano César Arturo Ramos nunca seria fácil, tendo em conta a importância do jogo para o resto do Mundial de Clubes e as equipas em campo. No entanto, dentro de excessos que não foram sancionados de início, o árbitro foi tentando manter o critério largo para evitar algo que acabaria por surgir de forma quase “natural” com três vermelhos (Herrera no banco, Belotti e Figal). Houve erros, houve decisões acertadas, houve uma opção que se tornou quase ridícula perante aquilo que foi acontecendo em campo: dar cinco minutos de compensação numa segunda parte onde foram raros os momentos em que se jogaram dois/três minutos seguidos não tem uma explicação lógica…