Os Serviços de Inteligência dos EUA intercetaram uma comunicação privada entre altos funcionários do governo iraniano que discutiam os ataques militares norte-americanos deste mês contra o programa nuclear do Irão. Segundo o Washington Post, a conversa veio revelar que ao contrário do que Donald Trump afirmou — que a operação “obliterou completa e totalmente as instalações chave de enriquecimento nuclear do Irão” — os ataques foram menos devastadores do que se esperava.
O jornal norte-americano cita quatro fontes anónimas, assim como a resposta da administração Trump, que, quando questionada, não negou a existência de um relatório com este conteúdo, mas minimizou a sua importância, porque o governo dos EUA “discorda fortemente do que os iranianos dizem” naquela comunicação.
“É vergonhoso que o Washington Post esteja a ajudar pessoas a cometerem crimes ao publicar fugas de informação fora de contexto”, disse a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt. “A noção de que funcionários iranianos não identificados sabem o que aconteceu debaixo de centenas de metros de escombros é um disparate. O seu programa de armas nucleares terminou”, reitera.
O relatório preliminar deste domingo segue-se a um primeiro publicado na passada terça-feira e no qual os serviços secretos norte-americanos davam conta que os elementos centrais das centrais de Fordow, Natanz e Isfahan continuam intactos e o programa apenas terá sofrido atrasos, concluindo assim que as reservas de urânio enriquecido, assim como as centrifugadoras utilizadas nesse processo permanecem intactas. “A avaliação é que os EUA atrasaram [o Irão] uns meses, no máximo”, relatou uma pessoa com conhecimento do documento à CNN, que confirmou a informação junto de outras duas fontes. Em resposta, a Casa Branca acusou a CNN de divulgar “fake news“, sem negar, no entanto, a existência deste relatório.
Também este domingo, o chefe da Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA), Rafael Grossi, considerou que o Irão tem capacidade técnica para voltar a enriquecer urânio dentro de “alguns meses”. Numa entrevista ao canal americano CBS, declarou que as três instalações tinham sido “em grande parte destruídas, embora algumas ainda estejam de pé”. “A capacidade nuclear [de Teerão] mantém-se. Podem ter as centrifugadoras a produzir urânio enriquecido numa questão de meses, ou até menos. Francamente, não se pode dizer que não há mais nada”.
O Washington Post pediu ainda um comentário ao gabinete do diretor dos serviços secretos, tendo um alto funcionário dos serviços secretos dos EUA dito que “uma parte dos serviços secretos, por si só, não reflete o quadro completo dos serviços secretos”. “Uma única chamada telefónica entre iranianos não identificados não é o mesmo que uma avaliação dos serviços secretos, que tem em conta um conjunto de provas, com múltiplas fontes e métodos”, disse.