A sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) voltou a cair em 2024, pelo terceiro ano consecutivo, e teve a terceira maior descida da década, apenas superada por 2020, ano da pandemia, segundo um estudo que vai ser divulgado esta terça-feira.
O Índice de Saúde Sustentável, desenvolvido pela NOVA Information Management School (NOVA-IMS), indica que a sustentabilidade do SNS, medida numa escala com o nível-base de 100 pontos, passou de 84,8 pontos em 2023 para 79,9 pontos no ano passado, uma quebra apenas superada pelo ano da pandemia, em que a sustentabilidade passou de 101,7 em 2019 para 83,9 em 2020. Sem o efeito da pandemia o valor atingido em 2020 teria sido o nível de sustentabilidade mais elevado de sempre (103,6).
Em declarações à Lusa, o coordenador do estudo, Pedro Simões Coelho, lembrou que este valor representa uma tendência do que já vinha a acontecer: “Mais uma vez, o que justifica é uma queda na produtividade, entendida esta produtividade como a relação entre a atividade e a despesa”.
“A atividade cresceu a um ritmo, estimamos nós, de 1% e a despesa cresceu a um ritmo superior a 10%. Quando é assim, a produtividade cai. Se a produtividade cai, cai o índice”, acrescentou.
Os dados recolhidos, que serão apresentados no Centro Cultural de Belém (Lisboa), apontam para um aumento da despesa de 11%, que não sendo acompanhado por igual aumento da atividade (que apenas cresceu 1%), resulta globalmente numa queda da produtividade – medida pelo número de doentes tratados por milhão de euros de despesa -, que atingiu em 2024 o valor mais baixo dos últimos 10 anos (185).
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O Índice de Sustentabilidade do SNS “não cai pela qualidade, pelo contrário, a qualidade está estabilizada e até com ligeira tendência de subida, nem sequer pela acessibilidade, que até teve, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista percecionado e sentido pelos cidadãos, também ligeiras subidas. Teve exclusivamente que ver com esta relação entre o crescimento da despesa e o crescimento da atividade”, explicou o responsável.
A “acessibilidade técnica e percecionada”, que avaliam o acesso aos cuidados de saúde, registaram uma ligeira melhoria em relação a 2023.
Segundo os dados do Índice de Saúde Sustentável, a acessibilidade técnica, que considera valores como as primeiras consultas em tempo adequado, inscritos em lista espera, episódios de urgência atendidos em tempo previsto e utilização da capacidade disponível de hospitalização domiciliária, subiu de 49,7 pontos para 51 pontos, mas mantém-se como “uma das dimensões mais frágeis do sistema”.
O estudo tem ainda uma comparação de dados desde 2018 até 2024, concluindo que a despesa cresceu mais de 50% (passando de cerca de 10 mil milhões de euros para 15,55 mil milhões de euros) e a atividade cresceu menos de 10% (de 2,66 milhões para 2,85 milhões de doentes).
Nestes seis anos, o índice de sustentabilidade passou de 102,9 para 79,9, a eficácia do SNS de 73,3 para 70,9.
Profissionais de saúde são ponto forte do SNS e tempos de espera o ponto fraco
Já os profissionais de saúde e a qualidade da informação que transmitem são o ponto forte do Serviço Nacional de Saúde (SNS) na ótica dos utentes, que elegem os tempos de espera como ponto fraco.
Segundo o Índice de Saúde Sustentável, a qualidade percecionada pelos utentes relativamente aos serviços subiu ligeiramente, de 72,4 para 73,7. As diferenças entre ambos têm vindo a esbater-se desde 2020.
Já a qualidade técnica do SNS, que avalia critérios como a percentagem de cirurgia em 48h (fraturas da anca), a mortalidade por AVC (hemorrágico ou isquémico), a prevalência de quedas, as cirurgias em ambulatório, os reinternamentos em 30 dias e a incidência de úlceras de pressão (escaras), tinha caído em 2023 para 66,5% e no ano passado manteve-se praticamente inalterada (66,7%).
Na ótica do utente, é no estado de saúde (78,5 pontos) e na qualidade de vida (78,2 pontos) que a eficácia do SNS tem mais impacto. Contudo, os utentes consideram a eficácia dos medicamentos (73,7) superior à dos cuidados de saúde recebidos (70,6).
Os níveis de satisfação e confiança mantêm-se globalmente estáveis, sem alterações significativas, com exceção para os cuidados de internamento, que registam uma avaliação mais positiva. Globalmente, os utentes continuam a considerar o preço do SNS adequado e apenas 11% considera o valor das taxas moderadoras do SNS inadequadas.
Contudo, os utentes continuam a ter uma perceção errada dos valores das taxas moderadoras: 25% considera que se pagam taxas que atualmente são gratuitas, como as consultas com médico de clínica geral ou médico de família no centro de saúde, a consulta externa hospitalar ou o internamento.
Relativamente aos episódios de urgência, os utentes têm igualmente uma perceção errada, pois o valor apontado é de 13,82 euros quando os valores reais variam entre 14 euros (urgência básica), 16 euros (urgência médico-cirurgica) e 18 euros (urgência polivalente).
Quanto aos medicamentos, dos 94% que tomaram em 2024 algum medicamento prescrito pelo médico, 10% (valor que se manteve) optou por não comprar algum deles devido ao seu custo
“O sistema, de um ponto de vista geral, tem gerado satisfação e, sobretudo, confiança, em todas as valências, particularmente em valências como internamento, em que a satisfação e a confiança são altíssimas, quase de 90 pontos na escala 0 a 100, e as mais baixas, claro, são nas urgências, como seria de esperar”, disse à Lusa o coordenador do estudo, Pedro Simões Coelho.
O responsável destacou ainda o facto de, no internamento, a satisfação e a confiança dos utentes estarem alinhados – “quer dizer que se está a apostar um serviço que está alinhado com aquilo que é a confiança do cidadão” -, destacando que, na urgência, “é onde há maior ‘gap’ entre as duas coisas”.
“O que é que isso significa? É que as pessoas não estão satisfeitas com o que se passa na urgência, mas no fim do dia têm uma grande confiança naquilo que lá se faz”, acrescentou.
Portugueses admitem desconhecimento sobre uso de IA na saúde, mas confiam
Mais de um terço dos portugueses revela desconhecimento sobre o uso da Inteligência Artificial (IA) na saúde ou tem um conhecimento limitado, mas quase metade tem confiança na utilização da tecnologia e pede regulamentação e controlo rigoroso.
O questionário sobre a perceção dos portugueses relativamente à IA indica que 38% dos inquiridos têm um conhecimento muito limitado e 21,6% não têm qualquer conhecimento.
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Apesar disso, 59% dos portugueses consideram que a IA terá um impacto positivo no setor da saúde e 46% afirmam ter confiança na sua utilização.
“A mensagem geral é de uma enormíssima confiança. Eu acho que é extraordinário que 60% das pessoas tenham noção que isto vai ter impactos positivos na saúde e que (…) apenas 13%, uma pequeníssima minoria, não tem confiança no uso da inteligência artificial na saúde”, disse à Lusa Pedro Simões Coelho, coordenador do estudo, acrescentando que se trata de “uma surpresa para muitos, que achavam que a saúde é uma área muito sensível e que poderia haver muitos receios na utilização da inteligência artificial”.
Entre as principais preocupações associadas ao uso da IA na saúde estão os erros em diagnósticos ou tratamentos (56,6%) e o receio da substituição de profissionais de saúde por máquinas (55,4%). A privacidade dos dados pessoais é algo que preocupa 37,8% dos utentes.
Os benefícios mais mencionados são os diagnósticos mais rápidos, a redução dos tempos de espera e o melhor aproveitamento dos dados de saúde.
Apenas 9% dos portugueses referem já ter utilizado ferramentas de saúde com base em IA. Entre essas ferramentas, destacam-se as aplicações para consulta de sintomas (38%), o diagnóstico automatizado (36%) e aplicações/robôs para atendimento ao doente (28%).
Os desafios técnicos, ligados à confiabilidade e segurança, são vistos como os mais relevantes na adoção da IA na saúde. A maioria (63%) considera essencial regulamentar o uso da IA na saúde e 52% acreditam que a IA pode vir a substituir os profissionais de saúde em algumas funções.
Para aumentar a confiança dos cidadãos na utilização da inteligência artificial na área da saúde, a supervisão humana rigorosa é apontada como essencial por 79,6% dos inquiridos.
Quando questionados sobre a decisão final numa situação de diagnóstico, 63% afirmam preferir que a decisão seja tomada pelo médico com o auxílio de IA. Apenas 35% preferem que essa decisão fique exclusivamente nas mãos do médico.