Pode a saída de um corredor que não é favorito à conquista da Volta a França mudar todos os planos de mais do que uma equipa? Em condições normais, não. Nem faria muito sentido. Neste caso, perante a desistência de João Almeida, todos teriam de rever a planificação para as próximas duas semanas num dia especial em que se assinala a Tomada da Bastilha e que antecede o primeiro descanso do Tour. Até a forma como Tadej Pogacar comentou a saída de cena do português depois de todas as mazelas com que ficou após uma queda na descida da etapa de sexta-feira mostrou que a UAE Team Emirates ia de “jogar” de forma mais fria.

Deu para tentar, não deu mesmo para conseguir: João Almeida desiste do Tour

“Não era esta a forma que tinha pensado em terminar este Tour. Saio triste e desapontado com o sucedido, dei tudo o que tinha, mas chega-se a um ponto em que temos de ouvir o nosso corpo. Resta-me descansar, recuperar as feridas e a costela fraturada, e depois pensar nos próximos objetivos. Nesta primeira semana acho que fiz um bom trabalho, saio orgulhoso do que fiz. Desejo aos meus colegas toda a sorte até ao final, sei que temos capacidade de vencer o Tour. Temos uma equipa forte mas infelizmente não vou fazer parte dela”, comentou o português após a desistência na tirada deste domingo, que voltou a ter uma chegada ao sprint, antes de nova etapa a subir que fazia a ligação entre Ennezat e Mont-Dore para mexer na geral.

“É uma pena perder o João, estava numa boa forma física. É um colega importante para nós. É pena vê-lo desistir mas podemos entender. Esta etapa até para mim foi complicada, nem quero imaginar para ele com as lesões que tinha. Era um luxo tê-lo, tínhamos um dos melhores trepadores do mundo connosco. Mas vamos ter de fazer as coisas sem ele, vamos ter de nos organizar e que esta perda não nos afete muito”, destacara o esloveno que tenta revalidar a vitória de 2024 para chegar ao seu quarto triunfo no Tour.

Jhonatan Narváez, Pavel Sivakov, Adam Yates ou Marc Soler ganhavam novos e redobrados papéis para ajudarem a defender a amarela de Pogacar, que tinha 54 segundos de avanço sobre Remco Evenepoel, 1.11 sobre o surpreendente Kévin Vauquelin e 1.17 sobre Jonas Vingegaard, apontado como principal adversário na luta pela vitória na classificação geral também pelo poderio da equipa da Visma-Lease a Bike. Ainda assim, a parte estratégica seria tão ou mais importante do que as pernas até pelas movimentações que não demoraram a aparecer na frente sempre com essa expetativa de haver um vencedor francês no dia.

Julian Alaphilippe foi o primeiro a querer aparecer sem medo na frente, quase como um bastião principal da armada gaulesa em dia de feriado, mas esteve longe de andar sozinho na frente, com a fuga a formar-se com cerca de 20 corredores e a passar depois para quase 30 com vários nomes com potencial para causar alguma surpresa em termos de classificação geral. Sivakov também chegou a andar na frente mas descaiu para ficar a resguardar Pogacar, com a Emirates a tentar perceber junto das outras equipas favoritas quem poderia ou não fazer as despesas em termos de perseguição quando a fuga levava dois minutos de avanço ainda a mais de 110 quilómetros e perto de três subidas quase consecutivas de segunda categoria.

Todos os pormenores contavam. Sivakov, depois de ter andado a entregar água a todos os companheiros, foi descaindo mais para o grupetto, por não estar nas melhores condições ou por uma questão de poupança para as etapas nos Pirenéus. Remco Evenepoel, na entrevista feita antes da partida, falava numa etapa que podia ser favorável pelas características das subidas. Pogacar parecia não recusar a luta pela terceira vitória numa etapa em 2025, tendo em conta que era a Emirates que ia encurtando de forma ligeira a distância para o largo grupo de fugitivos. Lenny Martínez aproveitava para somar mais pontos e ficar mesmo com a camisola da montanha. Na frente seguiam Iván Romeo, Pablo Castrillo (Movistar), Raúl García Pierna (Arkéa), Víctor Campenaerts, Simon Yates (Visma), Valentin Paret Peintre, Ilan van Wilder (Soudal-Quick Step), Ben Healy, Alex Baudin, Neilson Powless, Harry Sweeny (EF Education), Lenny Martinez (Bahrain), Thymen Arensman (Ineos), Quinn Simmons (Lidl-Trek), Quentin Pacher (Groupama), Julian Alaphilippe, Michael Storer (Tudor), Ben O’Connor, Luke Plapp, Mauro Schmid (Jayco-AlUla), Bruno Armirail, Aurélien Paret Peintre (Decathlon-Ag2r), Clément Champoussin, Simone Velasco (Astana), Steff Cras (TotalEnergies), Michael Woods, Joe Blackmore, Alexey Lutsenko (Israel) e Anders Johannessen (Uno-X).

Alaphilippe tentou, só Ben O’Connor conseguiu sair do grupo dos fugitivos a 100 quilómetros do final, com uma vantagem acima dos 20 segundos após receber instruções da equipa para arriscar a fuga. A ideia não durou muito mas o grupo de fugitivos acabou por partir entre mais pontos acumulados por Lenny Martínez na montanha, com os principais favoritos à geral a mais de três minutos de distância. A meio da etapa a subir e descer, a fuga tinha feito a sua primeira seleção, ficando Victor Campenaerts, Simon Yates, Valentin Paret Peintre, Ben Healy, Alex Baudin, Harry Sweeny, Lenny Martinez, Thymen Arensman, Quinn Simmons, Quentin Pacher, Michael Storer, Ben O’Connor, Luke Plapp, Raúl García Pierna, Pablo Castrillo, Michael Woods, Joe Blackmore e Anders Johannessen à frente de um grupo onde estava Alaphilippe, entre outros, que já levava 1.20 minutos da frente. Mais atrás, era a Emirates que pautava o ritmo do principal grupo, tendo uma fase com menor fulgor a 60 quilómetros do final quando a diferença subiu para 4.20 minutos.

Nesse cenário, Ben Healy tinha virtualmente a camisola amarela, num movimento que poderia não ser mau de todo para Tadej Pogacar, que evitava aquela hora/hora e meia de cerimónias para poder ir logo descansar. Mas as mexidas faziam-se sentir a vários níveis, com a EF Education a trabalhar na frente mas a Visma a ver também a possibilidade de lutar pela etapa com Simon Yates caso imperasse a fuga e Lenny Martínez a tentar fechar o dia com chave de ouro depois de ganhar a camisola da montanha. Mais atrás, era a vez de Marc Soler trabalhar para reduzir a diferença para a frente que chegara entretanto aos cinco minutos, ficando a ideia de que a Visma poderia não estar tão interessada em lançar um ataque de Vingegaard. Tudo em aberto, no vencedor da etapa e no possível novo líder da classificação geral numa tirada com muita tática.

A 30 quilómetros do final, as movimentações começavam a ter um outro peso. Lá atrás, no grupo de todos os grandes candidatos, a Visma de Vingegaard aproveitou a descida para vir para a frente levando na sua roda a Soudal Quick-Step de Remco Evenepoel, com Sepp Kuss a agarrar na batuta, com a Emirates a mostrar falta de argumentos, com Pogacar a agarrar na roda de Vingegaard e com Adam Yates e Narváez a surgirem depois para segurarem um ataque que não passou das intenções. Na frente, os ataques de Healy, O’Connor, Simmons e Campenaerts foram provocando outro desgaste, provocando mais uma redução do grupo para 14 elementos que tinha deixado para trás Lenny Martínez, que ficou a sangrar do nariz depois de uma pequena queda, mas as atenções estavam em definitivo divididas, sobretudo quando foi Jorgenson que assumiu o grupo dos líderes tendo uma resposta imediata de Tadej Pogacar e de Remco Evenepoel.

Havia uma curiosidade interessante entre os dois planos de atenção: com o grupo de trás a puxar para ver se Pogacar mostrava algum sinal de cedência, o próprio Ben Healy tinha de dar mais ao pedal, conseguindo a 15 quilómetros do final deixar o grupo reduzido a cinco na luta pelo triunfo na etapa (que daria também, num plano ainda virtual, a amarela a Pogacar). Teria um prémio, poderia perder o outro. A camisola amarela já parecia assegurada, com 5.45 minutos de vantagem a dez quilómetros do final, a etapa podia estar em perigo por todo o esforço que fez na frente com quatro adversários diretos na roda. Mais atrás, Sepp Kuss acabou por ceder, deixando Vingegaard apenas com Jorgenson contra Pogacar, na frente Simon Yates quis abrilhantar o dia da Visma com um ataque antes do início da última subida com Ben Healy a ceder.

A etapa começava a desenhar-se para ser discutida entre Simon Yates, Thymen Arensman e Ben O’Connor, que acabou por quebrar depois de mais um ataque do britânico que causou a derradeira mossa apesar de toda a combatividade do corredor da Ineos. A Visma conseguiu fazer prevalecer a sua estratégia de lançar dois corredores na fuga e alcançou uma das vitórias do dia (terceiro triunfo por etapas no Tour para o vencedor do Giro de 2025 e da Vuelta de 2018), tentando na parte final um segundo objetivo de colocar Pogacar em mais dificuldades do que tinha acontecido até aí. Acabou por ser Remco Evenepoel a sair entre esse estudo feito entre Pogacar e Vingegaard, com o esloveno a dar mais um recital brutal com uma explosão que “partiu” tudo e todos menos o dinamarquês antes de um abrandamento que mais parecia quase propositado para ceder a camisola amarela a Ben Healy mantendo os grandes rivais controlados.

Simon Yates ganhou a décima etapa em 4.20.05, menos nove segundos do que Arensman e menos 30 do que Ben Healy, seguindo-se Ben O’Connor (49”), Michael Storer (1.23), Joseph Blackmore (3.57), Anders Haaland Johannessen (4.38), Lenny Martínez (4.51), Tadej Pogacar (4.51) e Jonas Vingegaard (4.51), com a dupla a ganhar seis segundos a Remco Evenepoel e quase 50 a Kévin Vauquelin. Já na classificação geral, Ben Healy passou a ser o novo camisola amarela com 29 segundos de avanço sobre Pogacar, seguindo-se Remco (1.29), Vingegaard (1.46), Matteo Jorgenson (2.05), Kévin Vauquelin (2.26), Oscar Onley (3.24), Florian Lipowitz (3.34), Primoz Roglic (3.41) e Tobias Haaland Johannessen (5.04).