A Polícia Judiciária realizou buscas no Estádio do Bessa, o estádio do Boavista, durante a manhã desta terça-feira. Em comunicado, as autoridades já indicaram que estão em causa suspeitas de fraude fiscal e frustração de créditos e branqueamento praticados por quadros dirigentes, contabilistas certificados, escritórios de advogados e sociedades de revisores oficiais de contas. Foram constituídos seis arguidos, entre singulares e pessoas coletivas.

Na mesma nota, a Polícia Judiciária detalha que foram cumpridos dez mandados de busca domiciliária e não domiciliária no Grande Porto e em Viseu e que os factos em investigação ocorreram entre 2023 e finais de 2024 e estão relacionados com um grupo de empresas ligadas ao fenómeno desportivo e lucros ilícitos estimados em cerca de 10 milhões de euros.

Boavista SAD avança com processo de insolvência com vista à própria recuperação

Também de acordo com a Polícia Judiciária, o modus operandi em causa envolvia a utilização de contas bancárias de passagem tituladas por terceiros singulares, transferências internacionais e depósitos em numerário de origem e destino não clarificados, movimentos esses justificados apenas parcialmente e por contratos de empréstimos cruzados que levantavam suspeitas quanto à ocultação de rendimentos, num desvio de fundos com vista a prejudicar credores e consequente branqueamento.

A Polícia Judiciária refere ainda que foi apreendida diversa documentação relacionada com os crimes em investigação, assim como equipamento informático, visando a recolha de prova documental e pessoal sobre a natureza de diversas transferências suspeitas comunicadas pelas entidades bancárias, e ainda movimentações em numerário e outras operativas relacionadas com a transferência de ativos das empresas.

Tanto o Boavista como a respetiva SAD, que gere o futebol profissional do clube, já manifestaram total disponibilidade para colaborar com as autoridades. Segundo a agência Lusa, após o final das buscas, Rui Garrido, presidente da direção do clube, recordou que foi eleito apenas em janeiro de 2025, isentando o atual órgão que dirige de quaisquer responsabilidades quanto à matéria sob investigação.

“A única coisa que poderei dizer é que, desde logo, o objeto do processo não está nada relacionado com a atual direção ou com o mandato que se iniciou em janeiro de 2025. Está circunscrito num determinado lapso temporal de que não posso, naturalmente, estar aqui a falar. A direção está a acompanhar a situação e estamos a colaborar com a Polícia Judiciária, porque é também do nosso interesse esclarecer de forma cabal o que se sucedeu”, afirmou, à porta do Estádio do Bessa.

Tanto o clube, na pessoa do seu presidente, como a SAD, em comunicado divulgado esta tarde, negaram ser visados no processo, apesar de fonte judicial ter confirmado à agência Lusa que ambos integram o rol de seis arguidos, à semelhança de Vítor Murta, antigo presidente de ambos os organismos, numa altura em que ainda não terão sido formalmente notificados.

“O conselho de administração manifesta total serenidade relativamente ao processo em causa e reafirma a sua inteira disponibilidade para cooperar com transparência, responsabilidade e espírito institucional. De ressalvar que a Boavista FC Futebol, SAD não foi constituída arguida, sendo ela a alegada lesada”, pode ler-se na nota publicada no site oficial do clube.

A administração que tutela o futebol profissional adiantou ainda que as buscas da Polícia Judiciária procuraram monitorizar movimentações bancárias suspeitas nas épocas desportivas de 2022/23 e 2023/24. “As buscas e a recolha de prova documental resultam da verificação de movimentações bancárias suspeitas nas épocas em questão, tendo sido identificadas numerosas transferências de avultados montantes. Subsistem indícios de que as contas bancárias visadas possam estar a ser utilizadas para a ocultação de fluxos financeiros, bem como para pagamentos e recebimentos em nome da Boavista SAD”, esclareceu a sociedade desportiva.

Terrenos do Bessa leiloados antes de Boavista ser declarado insolvente

A operação surge numa altura em que o clube vive uma situação financeira complexa, que levou o clube a avançar para um processo de insolvência na semana passada — e que culminou com o falhanço de inscrição na Segunda Liga e na Liga 3, levando o Boavista para o Campeonato de Portugal, o quarto escalão do futebol português. Durante a operação, que está a ser conduzida pela Polícia Judiciária do Porto, os inspetores tiveram de forçar a entrada no estádio com um aríete, numa altura em que já se encontravam pessoas dentro do local.