Quando terminou a final dos 200 livres, onde recuperou o título que já tinha sido seu em Budapeste quando tinha apenas 17 anos, David Popovici, de bandeira romena às costas qualquer herói nacional de um país que foi “desaparecendo” na alta roda do desporto mundial, teve uma frase lapidar que deixou muita gente quase intrigada: “Esta vitória sabe ainda melhor do que a dos Jogos Olímpicos”. O jovem nadador parecia estar a cometer um sacrilégio, como que reduzindo aquela que é maior de todas as competições no mundo, mas não – estava apenas a analisar um “facto”. Qual? Ao contrário do que aconteceu em Paris, que mais não foi do que o teste a meses a fio de trabalho, superação e muitas privações, teve uma preparação muito mais cool, sem tanta pressão e a andar ao ritmo de um ano 1 do novo ciclo olímpico. Por isso, só por isso, foi melhor.

Um email e o apelido mudaram três vidas: como Bowman fez de Léon Marchand uma criação capaz de bater o seu Phelps

“Aquilo que chamam de post-Olympic blues é real e as pessoas não falam o suficiente sobre isso. Todas as pessoas falam da glória, da fama, do dinheiro e do reconhecimento que vem com o ouro olímpico mas não há ninguém a falar de como ficamos vazios quando atingimos aquele que era o objetivo que sempre sonhámos. Foi um período de desafios. Depois, coloquei tudo em ordem, abrandei um pouco, percebi que a natação não é tudo. Foi isso que me ajudou a focar de novo. Cheguei a estar na Indonésia num resort ótimo, lindo mas não era feliz, não estava relaxado. Encurtei essas férias porque estava muito tenso, queria só dormir na minha cama, comer as minhas sandes e ser normal por um segundo. Passei do período mais stressante da minha vida para o mais calmo porque só precisava de dar um passo atrás e respirar”, tinha dito antes do Campeonato do Mundo ao World Aquatics, antevendo a dura batalha que teria em Singapura.

Porquê toda esta explicação? Aquilo que Popovici passou acaba por ser um reflexo daquilo que todos os nadadores de topo atravessam. Quer isso dizer que não lutam por vitórias? Pelo contrário e o romeno foi um exemplo disso, a par de outros nomes mais sonantes como Summer McIntosh ou Katie Ledecky. Pode isso colocar em risco a hipótese de caírem recordes do mundo? Não é matemático mas, por lógica, sim, tendo em conta que o momento é preparado para esta competição mas sem ter essa preocupação de levar o corpo ao máximo dentro dessa ideia de que a partir de 2027 tudo conta tendo em vista Los Angeles-2028. A regressa pode ser, como todas as regras tem exceções. E uma está escrita, pelo inevitável Léon Marchand.

Léon Marchand bate último recorde do Mundo de Michael Phelps nos 400 estilos

O “fator casa” pode ser aplicado em relação aos Jogos Olímpicos a Florent Manaudou, que ganhou a medalha de bronze de forma surpreendente nos 50 livres, e a Anastasiya Kirpichnikova, que conquistou a prata nos 1.500 livres. No entanto, o outro francês a brilhar, Marchand, era daqueles que não engana. Chegou para ganhar, chegou para bater recordes, chegou para ser melhor do que todos os outros no passado. Neste Mundial de Singapura, não foi diferente. E nem foi preciso chegar a uma final para ser “o” melhor.

A fazer a segunda meia-final dos 200 estilos, naquela que era a penúltima prova do dia antecedendo uma final de estafetas, o francês que já tinha a segunda melhor marca de sempre (1.54,06) conseguiu finalmente bater o recorde mundial de Ryan Lochte que tinha quase 15 anos (1.54,00) e por mais do que um segundo (1.52,69). Para se ter noção do feito do gaulês que já tinha destronado Michael Phelps do melhor registo nos 400 estilos, a segunda melhor marca das meias foi do norte-americano Shaine Casas com 1.55,13. Mais: tendo em conta que o terceiro e quarto segmentos da prova nesta fase costumam ser feitos sem que os nadadores deem o seu máximo, guardando energia para a final, o próprio registo pode estar em risco.

“Sentia-me muito bem hoje, a preparação tem sido boa. Mas é inacreditável. Tem sido uma temporada dura para mim mas estou feliz por cá chegar e conseguir fazer isto. Comecei forte desde início, mantive-me sempre muito relaxado, não cometi qualquer erro mas também não tinha noção de que ia tão depressa. Dei tudo o que tinha, com os braços a toda a velocidade. Nessa parte final já nem queria saber de técnica, era dar tudo até bater na parede”, comentou o tetracampeão olímpico em Paris (200 bruços, 200 mariposa, 200 e 400 estilos, além do bronze na estafeta dos 4×100 livres) que tem cinco ouros e uma prata em Mundiais.

“Este é um ano de transição para mim, por isso queria ter um calendário mais leve do que o habitual, mas estou muito entusiasmado por fazer menos do que o habitual, só para ver até onde posso ir, quão rápido posso ir. O Bob [Bowman] sabe como manter a calma em todas as situações e isso foi algo que nos ensinou ao longo dos anos. Ele também tem muita experiência nos maiores palcos, confio plenamente nele. Bater recordes? Claro que quero bater todos os recordes, só não sei quando é que isso vai acontecer”, tinha referido antes dos Mundiais, entre muitos elogios ao treinador Bob Bowman, ex-técnico de… Michael Phelps.

[Horas depois do crime, a polícia vai encontrar o assassino de Issam Sartawi, o dirigente palestiniano morto no átrio de um hotel de Albufeira. Mas, também vai descobrir que ele não é quem diz ser. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o segundo episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro aqui]