Parecia hóquei em patins, mais não era o que o mais puro que o futebol pode ter. Olhando para aquilo que foi o início da temporada do PSG, dava a sensação de que estava quase a pagar a fatura pela sensacional época de 2024/25 onde só faltou a conquista do Mundial de Clubes para acabar com a vitória em todos os troféus: um triunfo muito sofrido no desempate por grandes penalidades frente ao Tottenham com uma recuperação nos minutos finais a valer uma Supertaça Europeia, um triunfo pela margem mínima no arranque da Ligue 1 frente ao Nantes, mais uma vitória magra por 1-0 na receção ao Angers. Dava para ganhar e pouco mais.

Enquanto não chegam os outros sonhos, o legado deles continua a ser fazer história (a crónica da Supertaça Europeia)

Ainda assim, todos estavam à espera de um clique. O clique não demorou, apareceu em Toulouse antes da paragem para as seleções e com o dedo que esta noite foi tudo menos invisível de João Neves, jovem médio internacional português que falhou a Supertaça Europeia ainda pelo castigo depois da expulsão na final do Mundial de Clubes por puxar o cabelo de Cucurella de forma mais ostensiva e não esteve também no início da Ligue 1. Foi substituído aos 66′ diante do Angers, cumpriu os 90 minutos diante do Toulouse. E esse jogo, que acabou com uma vitória por 6-3 enquanto quase todos os olhos em Portugal estavam centrados no clássico em Alvalade entre Sporting e FC Porto, vai ficar para sempre gravado na carreira do internacional.

A marcar presença num dos melhores meio-campos da Europa onde entram também Vitinha e Fabián Ruíz (ou seja, mais uma vez com Warren Zaire-Emery e Lee Kang-in no banco), o médio formado no Benfica aproveitou uma segunda bola a pingar na área após um livre lateral para, de costas para a baliza, preparar o pontapé de bicicleta como se jogasse com a naturalidade de quem está na praia e inaugurasse o marcador com apenas sete minutos de jogo. Bradley Barcola iria aumentar a vantagem pouco depois após assistência de Fabián Ruíz (9′) mas o show Neves estava ainda à espera daquele que iria ser o melhor momento: centro de Hakimi desviado num defesa, bola a ficar na área, receção no peito do jogador português e novo pontapé de bicicleta ao ângulo que deixou os companheiros loucos a correr com o médio (14′).

O jogador parecia de vez feito, quem tinha pago bilhete teve direito a momentos extra de magia mas havia ainda muita história por contar, com Ousmane Dembélé a aumentar a vantagem do PSG para 4-0 de penálti (40′) antes de uma tentativa de reação do Toulouse que reduziu por Charlier Cresswell (37′) e ainda falhou uma grande penalidade por Cristian Cásseres nos descontos da primeira parte (45+8′). O intervalo chegava com 4-1, a segunda parte iria não só trazer mais golos como outro capítulo de glória para João Neves.

O jovem médio de 20 anos nascido em Tavira já tinha bisado no Mundial de Clubes, frente ao Inter Miami, mas estava prestes a escrever mais uma página de história na carreira, enchendo-se de fé já depois do 5-1 por Dembélé na sequência de outro penálti para ganhar uma bola à entrada da área e disparar um autêntico míssil que fez o 6-1 e o primeiro hat-trick da carreira no dia em que se tornou num autêntico Midas por transformar em ouro qualquer jogada onde tocava na bola (78′). Yann Gboho (89′) e Alexis Vossah (90+1′) ainda conseguiram reduzir nos minutos finais para 6-3 mas o encontro estava de vez decidido numa noite onde João Neves desafiou o impossível e mostrou que é cada vez mais um jogador completo.