Foi um agitado dia de folga na Vuelta. Depois das críticas de João Almeida no passado domingo, com o ciclista português a lamentar-se por não ter conseguido responder sozinho ao ataque de Jonas Vingegaard em Valdezcaray, a UAE Team Emirates anunciou que Juan Ayuso vai deixar a equipa no final da temporada. Ou seja, basicamente, anunciou que Juan Ayuso foi despedido.

Mas é preciso puxar a fita atrás. No domingo e num dia em que perdeu 24 segundos para Jonas Vingegaard, João Almeida lamentou o facto de ter estado muito sozinho durante a etapa — cerca de um ano depois de, no Tour do ano passado, ter sido visto a gesticular de forma clara para pedir a Juan Ayuso que apoiasse o grupo liderado por Tadej Pogacar. “O ataque deles teve algum efeito surpresa. Não estávamos à espera, mas eu estava numa boa posição. Eles atacaram muito forte no final e não consegui diminuir a diferença. É o que é”, começou por dizer.

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“Conseguia ver que eles estavam no limite, por isso, não podiam fazer grande coisa. Talvez tenham errado os meus colegas de equipa, ninguém estava comigo no final. A subida não era assim tão íngreme e na roda poupa-se bastante. Acho que poderia ter lá chegado, mas nunca vamos saber, não é?”, acrescentou o ciclista português. Juan Ayuso, como sempre, não ficou sem resposta.

“Estava bastante cansado, doem-me demasiado as pernas do outro dia. Não podia ajudar muito a equipa. Não estou a correr para a geral, não tem sentido forçar por forçar. Não teria estado lá [para ajudar João Almeida], forçar para aguentar mais cinco minutos não tem sentido”, atirou o espanhol, numa justificação que não impediu a UAE Team Emirates de o despedir por “diferenças na visão dos planos de desenvolvimento e no alinhamento com a filosofia desportiva da equipa”.

A bomba rebentou em plena Vuelta e com tudo ainda por decidir, mas nada disso impediu Juan Ayuso de dar a sua própria versão dos acontecimentos. “Não entendo como é que fizeram este comunicado sem avisar. Querem prejudicar a minha imagem. Sofri faltas de respeito atrás de faltas de respeito por parte da direção da equipa, tem sido uma ditadura. Tínhamos acordado que o comunicado seria público quando acabasse a Vuelta. Falam de valores e união… Aproveitaram as palavras desafortunadas do João e entretanto até já falei com ele e pediu-me desculpa. Eu quero ajudar, ontem não estava bem e ele entendeu. A relação com os meus colegas é boa, incluindo com o João Almeida. Merece todo o apoio que possa dar-lhe”, explicou o ciclista espanhol em declarações ao jornal Marca, revelando que já sabia que iria sair no fim da temporada.

Ora, era neste complexo contexto que a Vuelta voltava à estrada esta terça-feira e numa 10.ª etapa com 175,3 quilómetros entre o Parque da Natureza Sendaviva e Larra-Belagua e uma chegada de montanha. De forma irónica, João Almeida contou finalmente com a ajuda e o acompanhamento de Juan Ayuso na subida final, com o espanhol a impor um ritmo forte durante alguns quilómetros antes de lançar o português nos últimos oito, mas Jonas Vingegaard respondeu bem à única investida dos favoritos à vitória.

No fim, Jay Vine voltou a superiorizar-se à concorrência e ganhou a segunda etapa na Vuelta, a quarta da UAE Team Emirates, à frente de Pablo Castrillo Zapater e Javier Romo, consolidando ainda mais a liderança da classificação de montanha. O grupo dos favoritos chegou a 1.05 minutos, com João Almeida a cruzar a meta em 10.º e Jonas Vingegaard, que foi 11.º, a roubar a camisola vermelha a Torstein Træen para voltar ao topo da classificação geral.

Contas feitas e o dinamarquês da Visma tem agora 26 segundos de vantagem para Torstein Træen e manteve os 38 para João Almeida, que continua a estar no terceiro lugar da Vuelta à frente de Tom Pidcock, Félix Gall, Giului Ciccone, Matteo Jorgenson, Jai Hindley, Giulio Pellizzari e ainda Matthew Riccitello, que encerra o top 10.