O grave acidente desta quarta-feira a envolver o Ascensor da Glória, operado pela Carris, levanta questões sobre a manutenção das composições e infraestrutura do veículo que liga a baixa lisboeta ao Bairro Alto, com trabalhadores da Carris a queixar-se de “falta de tensão do cabo de sustentação do elevador” e a criticar a manutenção feita por uma empresa privada.

Em agosto do ano passado a Carris informava no Facebook que o Ascensor da Glória iria estaria fora de serviço entre 26 de agosto e 30 de setembro de 2024 para reparação, sem detalhar quais eram os motivos da intervenção necessária. “Estes trabalhos são essenciais para continuar a manter o seu bom funcionamento e segurança”, escreveu a Carris no Facebook.


Antes disso, em 2022, a circulação do Ascensor da Glória esteve suspensa “para realização de reparação geral programada” entre 5 de novembro a 17 de dezembro, segundo informação também publicada também no Facebook da Carris.

Elevador já tinha descarrilado em 2018, mas não houve vítimas nem danos de maior

Este não foi o primeiro incidente a afetar o Elevador da Glória, que já tinha descarrilado a 7 de maio de 2018. Na altura, o jornal Público noticiava que o descarrilamento se tinha devido a “uma falha grave de manutenção”, que fez com que a composição saísse dos carris, “mas ninguém foi ferido nem a carruagem tombou”, sendo que o elevador ficou sem operar durante um mês.

O que aconteceu, porém, segundo destacava o jornal na altura, revelava graves falhas na manutenção dos rodados dos veículos que podiam ser vistas a olho nu, sendo que as rodas deviam ser torneadas periodicamente a fim de manter essa saliência entre a roda e o carril.

António Carloto, membro da APAC (Associação Portuguesa dos Amigos dos Caminhos de Ferro), falou então ao jornal e garantindo que lhe bastou olhar para as rodas para constatar que se via o rasto das rodas de aço deixado sobre as pedras, sendo claro que tinham circulado fora dos carris. “Descarrilou e desta vez não houve consequências. Da próxima poderá não ser assim”, vaticinou.

Carris assegura que “foram respeitados todos os protocolos de manutenção”

Num comunicado emitido sobre o acidente desta quarta-feira, a Carris garantiu que “foram realizados e respeitados todos os protocolos de manutenção, nomeadamente a manutenção geral que ocorre a cada quatro anos e que ocorreu em 2022, a reparação intercalar que é concretizada de dois em dois anos, tendo neste caso a última sido realizada em 2024, e têm sido escrupulosamente cumpridos os programas de manutenção mensal, semanal e a inspeção diária”.

“A Carris abriu de imediato um inquérito em conjunto com as autoridades para apurar as reais causas deste acidente”, indica fonte oficial. A empresa de transportes lamenta ainda a existência de vítimas e está a acompanhar a situação.

Ao início da noite, o Presidente da Carris, Pedro Bogas, falou aos jornalistas no local do acidente e avançou que foi aberto um inquérito para apurar as causas do descarrilamento. “É um dia muito triste para as vítimas e família das vítimas. Lamentamos muito o sucedido”, começou por dizer.

Garantiu depois que o protocolo de manutenção deste elevador “foi escrupulosamente cumprido” e que foram feitas as “manutenções de quatro em quatro anos e as intercalares”, bem como as “inspeções semanais e diárias”, tal como já tinha sido informado no comunicado.

“Há 14 anos que esta manutenção é assegurada por uma empresa externa. Neste momento nem sabemos se foi um problema de segurança”, acrescentou o presidente da empresa de transportes.