Quarta-feira era um dia como tantos outros para os milhares de pessoas que se encontravam numa das artérias centrais de Lisboa. Ao final da tarde, tudo mudou com o descarrilamento do elétrico da Glória, que resultou em 16 mortos e 23 feridos. Entre aqueles que faziam o sentido descendente em direção aos Restauradores estava Pedro Trindade, antigo árbitro e dirigente de voleibol e trabalhador da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, cuja morte foi confirmada inicialmente pela Federação Portuguesa de Voleibol nas redes sociais.
“É com profundo pesar que recebemos a notícia da tragédia ocorrida ontem [quarta-feira] com o elevador da Glória, em Lisboa. Neste momento de dor imensa, os nossos pensamentos estão com todas as famílias e amigos que perderam os seus entes queridos. A Federação Portuguesa de Voleibol (FPV) está profundamente consternada com a tragédia, que vitimou um antigo membro da sua comunidade: Pedro Manuel Alves Trindade. Ex-árbitro da Associação de Voleibol de Lisboa (AVL), Pedro Trindade também exerceu funções de dirigente na mesma entidade. As nossas mais sinceras condolências a todos os que foram afetados por este trágico acontecimento. Que possam encontrar força e conforto uns nos outros para superar este momento tão difícil”, partilhou, em comunicado, o organismo responsável pelo voleibol nacional, com a AVL a associar-se a esta morte com “enorme pesar”.
Pedro Trindade tinha 61 anos e estava a pouco dias de comemorar o 62.º aniversário, que iria acontecer no dia 15 de setembro. Passou mais de duas décadas da sua vida ligado ao voleibol, primeiro como jogador, depois como árbitro regional e nacional e, mais tarde, como dirigente da Associação de Voleibol de Lisboa. O primeiro contacto de Pedro com a modalidade aconteceu há 46 anos, contou Paulo Gonçalves, presidente da AVL, ao Observador. Enquanto jogador, começou a sua carreira aos 16 anos, ao serviço do União da Pontinha. Quatro anos depois ingressou na equipa do Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos e, aos 28 anos, encerrou a carreira no Loures.
A ligação ao voleibol não ficou por aí e, em 1993, concluiu o curso de árbitro nacional. Entre o ano seguinte e o início do século XXI, Pedro Trindade foi árbitro de categoria principal e esteve nos maiores palcos do voleibol nacional.
▲ Pedro Trindade (primeiro à esquerda na fila de cima) durante o curso de árbitros nacionais, em 1993
“Era uma pessoa fantástica. Como árbitro e como jogador tinha as suas características. Foi um excelente praticante e um excelente executante. Era uma pessoa com um sentido de humor muito peculiar e que se divertia muito a jogar voleibol. Tive o privilégio de ser várias vezes arbitrado por ele e era alguém muito rigoroso, disciplinador, com uma atitude ativa e pedagógica em relação aos atletas e às equipas, com uma imagem e uma ideia do voleibol sempre muito positiva. Teve um trabalho muito importante na divulgação e na promoção do voleibol e da arbitragem. Ajudou muito a arbitragem do voleibol de Lisboa. É uma pessoa muito importante”, recordou Paulo Gonçalves, que não escondeu a “consternação” e garantiu que o “amigo” será “sempre lembrado”.
“Ele já estava afastado há uns tempos, mas era uma pessoa muito presente junto dos amigos. Mesmo afastado sempre teve o seu marco. Foi muito importante para o desenvolvimento do voleibol de Lisboa e nacional. Ele chegou a ser convocado para apitar jogos grandes, de Benfica, Sporting, Sporting de Espinho, Leixões… foi alguém que esteve no topo como árbitro. Tinha um papel bastante fundamental como dirigente da arbitragem e foi uma pessoa bastante influente. Estava sempre disponível para apitar”, garantiu o dirigente do voleibol lisboeta.
Foi precisamente na AVL que Pedro continuou o seu percurso no voleibol, como membro do Conselho de Arbitragem da associação entre 1989 e 1996, durante dois mandatos, e numa altura em que acumulava a função com o papel de árbitro. Quando abandonou a AVL, Pedro Trindade iniciou a licenciatura em Relações Públicas e Publicidade, tirando posteriormente uma pós-graduação em Comunicação e Marketing, um Mestrado em Comunicação Integrada e dois Doutoramentos, um em Ciências da Comunicação e outro em Turismo.
▲ Pedro Trindade (à direita) durante uma partida de voleibol de praia
Estas valências definiram-lhe o percurso profissional depois da sua passagem pelo mundo do desporto. Era funcionário da Santa Casa de Lisboa de 2018, onde desempenhava as funções de técnico superior de Estudos de Mercado e de Gestor Funcional de Projeto de Transformação Digital. Para além disso, Pedro era investigador da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), desde 2012, professor de Marketing de Eventos e Organização Empresarial na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE), instituição que, reagiu à morte do seu docente através da Comissão de Integração e Acolhimento. “Recordaremos sempre a sua dedicação, generosidade e contributo inestimável para com a comunidade académica e com todos os que tiveram o privilégio de aprender com o mesmo”, lê-se na nota. Por sua vez, a Associação de Estudantes da ESHTE promete lembrar “a sua dedicação à comunidade académica, a sua disponibilidade e a relação única para com os inúmeros estudantes e a paixão com que transmitia o conhecimento”. Quem por lá passou recorda Pedro Trindade como um excelente professor.