Acompanhe o nosso artigo em direto sobre este acidente
Entre os destroços do Elevador da Glória, um polícia encontrou uma criança de três anos. O agente, da Divisão de Investigação Criminal, foi um dos primeiros a chegar ao local, pouco depois de se levantar a nuvem de fumo causada pela colisão do ascensor com 140 anos contra a parede de um hotel. Tem 45 anos, há 25 que é polícia e encontrava-se no local em trabalho de prevenção criminal, detalha a PSP ao Observador. Foi o primeiro a socorrer a criança alemã. A mãe da criança encontra-se em estado crítico; o pai não resistiu aos ferimentos.
Como este alemão, mais 16 pessoas morreram neste acidente causado pela quebra de um cabo e 21 ficaram feridas. O ascensor junto à Avenida da Liberdade caiu de uma pequena altura, mas o que se encontrava mais perto do miradouro de São Pedro de Alcântara seguiu desenfreado até à curva onde se deu o embate.
“Quando o elevador que estava mais em baixo se preparava para estacionar, sofreu um pequeno solavanco e as pessoas lá dentro assustaram-se, obviamente, e prontificámo-nos para ajudar. Logo a seguir, vimos o elevador que vinha de cima desenfreado, sem travões”, recorda Teresa d’Avó, que tudo viu junto à Calçada da Glória, ao Observador.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Maria (nome fictício), que trabalha numa loja junto ao Elevador, estranhou o “aparato” nos minutos seguintes ao estrondo, incomum para “uma cidade tão calma” como é Lisboa, relata ao Observador. De repente, uma turista entrou na sua loja, sentou-se e começou a chorar. E aí, Maria percebeu que algo grave tinha acontecido.
Farid Shovro, dono de uma loja perto do Hard Rock Cafe, pensou logo que poderia ter sido uma “explosão”. Não obstante, abandonou o estabelecimento a correr assim que ouviu os gritos e viu o fumo vindo da Glória. “Assim que ouvi o barulho, fui lá a correr, eu e um condutor de tuk-tuk. Assim que cheguei, vi um corpo”, adianta. “Nunca vi tantas pessoas mortas juntas.”
“Vi uma senhora que perdeu uma perna, estava sentada”, termina, antes de desabafar: “Sinto-me morto por dentro”.
A polícia chegou ao local “em cinco minutos”, como contou Teresa d’Avó ao Observador, e os trabalhos de resgate e salvamento começaram em instantes. Carlos Moedas, em declarações aos jornalistas, referiu que foram sinalizados às 18h08 e chegaram pelas 18h11. Fonte dos Bombeiros Sapadores de Lisboa confirmou ao Observador, tal como já referido, que o acidente foi causado por “um cabo que se soltou” na estrutura do elevador.
Turistas e transeuntes curiosos juntaram-se perto do perímetro de segurança montado pela PSP, enquanto bombeiros, técnicos do INEM e outros elementos das autoridades socorriam os feridos.
Cerca das 20h30, as autoridades fizeram o primeiro balanço e o INEM avançou o número de 15 mortos. Ao longo da noite, os 18 feridos contabilizados nesse momento aumentaram para 23, numa última contagem divulgada pela Polícia Judiciária na SIC. Na manhã de quinta-feira, o serviço municipal da Proteção Civil revelou que dois dos feridos morreram durante a noite, subindo para 17 o número de mortos e baixando para 21 o número de feridos. Mais tarde, depois da conferência de imprensa do primeiro-ministro o número foi corrigido pela Proteção Civil para 16 vítimas mortais.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Pouco depois do acidente, surgiu a denúncia: Manuel Leal, dirigente sindical da Fectrans e do STRUP, garantiu ao Observador que os trabalhadores da Carris já tinham reportado a “falta de tensão do cabo de sustentação do elevador”, o que provocava “dificuldade no próprio sistema de travagem”. Cerca das 21h30, o presidente da empresa de transportes, Pedro Bogas, acorreu ao local para assegurar que o protocolo de manutenção deste elevador tinha sido “escrupulosamente cumprido” e que foram feitas as “manutenções de quatro em quatro anos e as intercalares”, bem como as “inspeções semanais e diárias”.
Só em 2018 tinha acontecido algo semelhante, um acidente que, ao contrário deste, não deixou vítimas.
Médicos voluntariaram-se para ajudar feridos. Ao Instituto de Medicina Legal, também chegaram reforços
A notícia do acidente, que fez manchetes na imprensa internacional, levou médicos do Hospital de Santa Maria, e do Hospital de São José, a apresentarem-se ao serviço apesar de não estarem escalados, apurou o Observador. Entre eles, ortopedistas. Foram estas duas unidades hospitalares que receberam mais feridos. Em Santa Maria, deram entrada oito feridos — um deles em estado crítico. Entre eles, encontra-se uma criança, que não é um caso grave.
Prestes a fazer 140 anos, o Elevador da Glória é uma relíquia em andamento no coração de Lisboa
No Hospital de São José, foram recebidos pelo menos nove feridos: cinco em estado grave e quatro ligeiros. Entre estes últimos, deu entrada na Urgência outra “criança, de três anos, estável, que por uma questão de precaução” iria ser transferida “com o pai para o Hospital Dona Estefânia”, apontou fonte oficial ao Observador. A mãe da criança, que está grávida, foi transferida para a Maternidade Alfredo da Costa.
No Amadora-Sintra, deram entrada dois doentes. Um deles chegou lá de transporte próprio. Contudo, ambos não apresentavam ferimentos graves e terão alta em breve. Para o Hospital São Francisco Xavier foram enviadas três pessoas: uma em estado crítico e duas politraumatizadas.
Entre as vítimas há pessoas de nacionalidade portuguesa, mas também estrangeiros. Dois espanhóis, bem como uma italiana, ficaram feridos.
Além do pai do bebé alemão, foi confirmada a morte de mais uma pessoa: o guarda-freios do Elevador da Glória. André Marques era de Castelo Branco e a sua morte foi confirmada pelo Sitra (Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes), através de uma nota nas redes sociais.
Os corpos foram encaminhados para o Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF), cujos profissionais se disponibilizaram para ajudar de forma a ter as autópsias prontas até quinta-feira de manhã, “permitindo a identificação de todas as vítimas, sejam portuguesas ou estrangeiras”, indicou o Ministério da Justiça numa nota enviada à Lusa. A equipa de desastres foi ativada.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Depois da identificação de vítimas mortais e de feridos, os familiares serão avisados ou, em caso de não ser possível contactá-los, serão alertadas as embaixadas em Lisboa para prestar apoio consular.
Luto nacional e municipal começam com flores e velas no chão
É meia-noite e um homem ajoelha-se no fim da Calçada da Glória, onde antes estavam 100 curiosos, e agora só resiste pouco mais de uma dezena. Quando ele se levanta, velas e flores repousam no chão.
Quem passa, tira fotografias e há quem faça um vídeo, mas já pouco acontece. Cerca de 15 polícias mantêm-se a guardar o perímetro de segurança, até que os trabalhos de peritagem continuem, na quinta-feira de manhã, dia em que se assinala o luto nacional decretado pelo Governo. Luís Montenegro manifestou a sua “profunda consternação e solidariedade”, assegurando que “no devido tempo” se farão as “averiguações necessárias ao apuramento das causas deste lamentável acidente”. Também Marcelo Rebelo de Sousa lamentou “profundamente o acidente, em particular as vítimas mortais e os feridos graves, bem como os vários feridos ligeiros”. Numa nota publicada no site da Presidência o Chefe de Estado disse “esperar que “a ocorrência seja rapidamente esclarecida pelas entidades competentes”.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A Câmara de Lisboa suspendeu a atividade dos restantes elevadores na capital — Bica, Lavra, Graça e Santa Justa —, encomendando inspeções imediatas a estes serviços municipais. Cerca das 20h desta quarta-feira, enquanto se dirigia aos jornalistas para expressar as suas condolências com as vítimas e fazer um balanço da situação, o presidente da Câmara de Lisboa recebeu críticas das pessoas presentes no local. “Lisboa está de luto”, disse Carlos Moedas, que decretou três dias de luto municipal. “É um dia trágico para a cidade.”
Texto atualizado às 13h48 desta quinta-feira com o número atualizado de mortos e feridos