Jimmy Gressier é conhecido pelas celebrações depois da meta. Em 2018, nos Europeus de corta-mato, deslizou com os joelhos à jogador de futebol. Em 2019, na mesma prova, ganhou com tanta distância que terminou a passo. No mesmo ano, em França, cumprimentou quase individualmente as pessoas que estavam a assistir. Em 2023, comeu um crepe à beira da meta. Em 2025, saltou por cima da fita da meta. Na vitória mais importante da carreira, porém, nada fez.
Este domingo, Jimmy Gressier acelerou na ponta final dos 10 mil metros dos Mundiais de Atletismo que estão a decorrer em Tóquio e assinou uma vitória para lá de surpreendente — algo que, naturalmente, foi também o porquê de não ter nenhuma celebração preparada. Numa final disputada com mais de graus e 70% de humidade, o francês de 28 anos ficou à frente do etíope Yomif Kejelcha e do sueco Andreas Almgren, tornando-se o primeiro não africano a sagrar-se campeão mundial da distância desde o italiano Alberto Cova em 1983.
???????? ???????????????????????????????????????? ! JIMMY GRESSIER EST CHAMPION DU MONDE DU 10 000 MÈTRES ! pic.twitter.com/arqfgL3EQ4
— Eurosport France (@Eurosport_FR) September 14, 2025
A história de Jimmy Gressier, contudo, não é uma história qualquer. Nascido em 1997 em Boulogne-sur-Mer, a cidade do norte de França onde cresceu Franck Ribéry, o atleta começou por ter o sonho que a larga maioria dos jovens franceses acaba por ter: ser jogador de futebol. “O futebol era o que eu mais amava, adorava jogar. Os treinadores diziam que nunca tinham visto aquelas características num jogador da minha idade. Mas, ao mesmo tempo, estava a correr em competições de atletismo escolares e a ganhar a toda a gente”, contou o francês aos meios dos Jogos Olímpicos há alguns anos.
Foi conseguindo conciliar as duas atividades: jogava futebol e competia em provas de corta-mato, com sucesso equivalente em ambas. Em 2017, foi convocado para uma seleção de França que iria marcar presença na World Schools Football Cup, na Guatemala, e foi convocado para os Mundiais Júniores de Corta-Mato, na China. Marcou presença nas duas, mas percebeu nesse momento que tinha de tomar uma opção. Aos 17 anos, decidiu deixar o futebol e concentrar-se exclusivamente no atletismo.
“Desisti porque os meus treinadores diziam que podia chegar aos Jogos Olímpicos, ser um atleta olímpico e representar França. Vestir as cores do nosso país é demasiado bonito”, explicou. Depois de uma primeira fase em que continuou a participar em provas de corta-mato e a acumular com a pista, dedicou-se por fim ao fundo. Pelo meio, continuou a estudar, terminou um curso profissional em Negociação e Relação com o Cliente e chegou a estagiar num banco.
Jimmy Gressier en Une pour sa perf historique, l'occasion de rappeler que c'est un vrai passionné de foot et que durant sa jeunesse c'était un ailier qui a évolué en U17 national. Mec doué partout. pic.twitter.com/oBubRmN4le
— ???????????? (@TalkMyFootball) September 15, 2025
“Cresci num bairro difícil e não era bom na escola. O desporto iria sempre tirar-me do bairro. Se não fosse o desporto tinha acabado a trabalhar numa fábrica, porque teria desistido da escola. Sabia que tinha de continuar a estudar para ser um atleta profissional, por isso nunca desisti. Sabia que queria ser bem sucedido no desporto”, desabafou o francês, que foi 27.º nos 5 mil metros e 13.º nos 10 mil metros nos Jogos Olímpicos de Paris, os únicos em que participou.
Uma década depois de ter deixado o futebol para abraçar por inteiro o atletismo, Jimmy Gressier alcançou uma medalha de ouro que a Europa não via há mais de 40 anos — e, apesar de não ter tido tempo para celebrar, poderá ter tempo para comprar a capa do L’Équipe da qual foi dono e senhor esta segunda-feira.