O aviso é duro e chega diretamente da boca do primeiro-ministro: o perigo dos incêndios continua aí e pode aumentar. Tendo em conta as condições meteorológicas que aí vêm, e que anunciam uns dias de verão tórridos, não há hipótese de relaxar e reduzir a vigilância quanto aos incêndios — e Luís Montenegro pede que todos tenham consciência desse “perigo”.

Foi a partir de Sernancelhe, Viseu, onde até estava para falar do pós-incêndios e da “reanimação” de quem foi afetado, que o primeiro-ministro avisou: a página dos fogos deste ano ainda não está totalmente virada. “O tempo de adversidade meteorológica ainda não acabou”, avisou, comentando até que sentiu isso mesmo assim que saiu do carro em Viseu — “estava mesmo muito calor”. Além disso, lembrou, não se pode “fugir à realidade” e essa tem a ver com as “implicações das alterações climáticas“.

“Há outra vez no nosso horizonte um período de dias com temperaturas elevadas, baixas taxas de humidade e possibilidade de ventos que podem dificultar se houver novas ocorrências”, avisou o primeiro-ministro, reconhecendo que a mensagem de ajuda e apoio para quem foi afetado poderia parecer contraditória com os novos avisos sobre fogos: “Estamos aqui para cumprir uma tarefa de reanimação do território e ao mesmo tempo ainda temos diante de nós uma situação de ameaça e perigo do qual todos temos de ter consciência”.

Depois, acrescentou um apelo: “Quero alertar o país para não baixarmos a guarda“, disse, pedindo “atitudes de responsabilidade e respeito para as que puderem vir a ser orientações das autoridades nas próximas semanas”.

Durante o mês de agosto, quando Portugal registou a maior área ardida da União Europeia, o primeiro-ministro também falou várias vezes da “severidade meteorológica” que teria contribuído para esse desfecho, embora reconhecendo depois que, apesar de o dispositivo de combate aos fogos ter sido em 2025 o maior de sempre, também terá havido erros. Em Viseu, reconheceu agora que os fundos (vindos do Orçamento do Estado, mas também do PRR e de outros fundos europeus) não foram “suficientes para evitar grandes incêndios, é verdade” e que é preciso “executar ainda mais”, “com a convicção e sentido de responsabilidade de quem tem de falhar menos vezes”.

Não é, de resto, de estranhar que haja novos avisos sérios para setembro: ainda em 2024 os dados do ICNF indicavam que dos 20 maiores incêndios do ano 19 tinham deflagrado na terceira semana do mês; o maior incêndio do ano aconteceria a 16 de setembro, em Vila Nova de Paiva (em Viseu), consumindo mais de 20 mil hectares. No ano dos grandes incêndios em Pedrógão Grande e no centro do país, em 2017, a segunda grande vaga de fogos aconteceu em outubro.

Desta vez, a partir de Sernancelhe, Montenegro justificou que este ano houve um “nível de reacendimentos fora do normal”: “Pareciam controlados e provocaram reacendimentos que trouxeram uma dimensão ainda maior”, explicou, virando-se depois para as soluções e frisando que o Governo tem desde o início de agosto equipas conduzidas pelos ministros da Economia e Agricultura para fazer o levantamento das perdas e “prestar a colaboração necessária” aos mais atingidos”.

Desde então, têm feito um levantamento das necessidades em coordenação com as autarquias e CCDR “com menos burocracia, menos papel, menos necessidade de castigar ainda mais as pessoas com tarefas burocráticas que acabam por ainda mais agudizar o intenso sofrimento“, explicou o primeiro-ministro. Resta saber se este ano haverá mais afetados ou se a época dos incêndios estará perto de estar encerrada.

Quanto à notícia de que o secretário de Estado da Agricultura, João Moura, terá uma empresa sua investigada por suspeitas de corrupção e branqueamento de capitais, Montenegro considerou que a questão “não faz nenhum sentido”, dizendo não ter informação sobre o tema, a e avisou: “Se há alguma coisa a investigar que seja investigada. Não podemos é funcionar num regime em que há uma queixa anónima e há um processo e a pessoa alvo não tem condições para exercer cargos. Vamos acompanhar a situação mas honestamente não sei nada sobre isso”.