Shelly-Ann Fraser-Pryce é muito mais do que uma atleta. É a velocista mais medalhada de sempre, com 24 medalhas entre Jogos Olímpicos e Mundiais, incluindo 13 ouros. Foi a herdeira das esperanças da Jamaica no pós-Usain Bolt, assumindo a garantia de que o país subia sempre ao pódio nas grandes competições. E ainda foi mãe de Zyon, regressando aos treinos apenas 11 semanas depois de uma cesariana de emergência.

Por isso mesmo, por ser muito mais do que uma atleta, Shelly-Ann Fraser-Pryce teve direito a uma despedida à altura. Aos 38 anos, a jamaicana despediu-se este domingo das provas individuais com um sexto lugar na final dos 100 metros nos Mundiais de Atletismo — com as bancadas do Estádio Nacional de Tóquio a corresponderem com uma ovação brutal assim que a atleta foi anunciada, apresentando-se com o característico cabelo colorido mas, desta feita, pintado com as cores da bandeira da Jamaica.

Fraser-Pryce ainda vai competir na estafeta 4×100, arriscando conquistar a última medalha da carreira, e a verdade é que só marcou presença em Tóquio numa espécie de vingança de Paris. Nos últimos Jogos Olímpicos, sendo que já tinha anunciado que iria terminar a carreira ali mesmo, a jamaicana acabou por falhar a meia-final onde era favorita. Adivinharam-se problemas físicos, mas Fraser-Pryce contou entretanto que não conseguiu aparecer em pista devido a um ataque de pânico. Mais de um ano depois, quis despedir-se a fazer o que sempre fez melhor: correr.

“Estou mesmo muito grata por ter podido correr uma vez mais na final dos 100 metros. Queria despedir-me nos meus termos. Estar aqui esta noite foi um privilégio, uma honra e a minha maior bênção. Cheguei a estes Mundiais com tantos obstáculos, mas consegui chegar à final. E acho que isso já é um enorme feito. Uma das minhas maiores bênçãos é ver estas atletas que consegui inspirar ao longo das últimas gerações. Tem sido uma bênção interagir com elas e espero que exista algo que consigam retirar desta jornada. Confiem no vosso talento e vão lá para fora para dar tudo”, indicou a atleta, que ainda foi bicampeã do mundo nos 100 metros depois de ser mãe, para além de ter alcançado a medalha de prata na distância nos Jogos Olímpicos de Tóquio e registado a melhor marca pessoal e terceira melhor de sempre.

A final dos 100 metros dos Mundiais de Atletismo que estão a decorrer foi então arrecadada pela norte-americana Melissa Jefferson-Wooden, medalha de bronze em Paris, com a jamaicana Tina Clayton e Julien Alfred, de Santa Lúcia, a encerrarem o pódio. Os 10.61 segundos de Jefferson-Wooden foram mesmo a quarta melhor marca de sempre de uma mulher na distância, apenas atrás da recordista Florence Griffith-Joyner (1988, 10.49), de Elaine Thompson-Herah (2021, 10.54) e de Shelly-Ann Fraser-Pryce (2021, 10.60).

Resta um disparo ao Foguete de Bolso com perucas coloridas: Fraser-Pryce tem em Paris a última oportunidade para fugir a Bolt