Era apenas o primeiro jogo do Mundial, podia ser o jogo “decisivo” do Mundial. Portugal regressava a uma fase final do Campeonato do Mundo com uma base que foi construindo nos últimos anos com experiências em três Europeus consecutivos mas sabia que tinha de furar a lógica dos favoritismos teóricos para chegar a uma histórica participação nos oitavos da competição, à semelhança da saga dos heróis de 2002 que saíram da Argentina com uma inédita oitava posição. Ganhar à Colômbia na última jornada era fulcral, bater o pé a Cuba ou EUA no arranque também fazia parte das obrigatoriedades. Afinal, o impossível era bem possível e a melhor versão da Seleção mostrou que está nas Filipinas para deixar a sua marca após 23 de ausência.

O regresso com um triunfo histórico: Portugal vence gigante Cuba no arranque do terceiro Mundial na história

Apesar de não ter o melhor início, com vários erros que cavaram um fosso irreversível no primeiro set, o jogo com Cuba (que está no top 10 mundial do ranking) terminou com um dos melhores resultados de sempre de Portugal: o serviço melhorou a pique, o bloco foi somando pontos, a defesa baixa esteve irrepreensível, toda a variedade ofensiva deixou a defesa cubana sem poder de resposta e a Seleção entrou mesmo no Campeonato do Mundo com uma vitória por 3-1 que funcionava como passo fulcral para chegar à fase seguinte. “O que é que me vai na alma neste momento? O próximo jogo”, comentou João José, selecionador nacional (que esteve na epopeia de 2002 tal como o agora adjunto Manuel Silva). No entanto, tinha consciência da importância do momento, não só em termos históricos como rampa de lançamento para a qualificação.

“Não iniciámos da forma que se calhar gostaríamos do jogo. Ficámos ali um pouco apreensivos. A chave para a reviravolta foi a capacidade de adaptação e a comunicação eficaz entre a equipa. Essa alteração permitiu provocar dano e deu para gerir o risco coletivamente. Mas é preciso conter aqui de certa forma também os ânimos para o resto da competição, este foi apenas o primeiro passo na direção certa”, frisou em declarações reproduzidas pela Federação Portuguesa de Voleibol. “Conseguimos jogar o nosso voleibol, tivemos muita confiança em nós próprios e isso ficou demonstrado com grande entrega e energia”, salientou também Nuno Marques, eleito o MVP do encontro frente a Cuba depois de ser o melhor marcador do jogo (19 pontos).

Seguia-se uma montanha ainda maior para escalar chamada EUA, num encontro que deveria definir não só o primeiro apurado do grupo mas também o vencedor da poule D. Atuais medalhas de bronze olímpicos, com uma derrota na “negra” com a Polónia na “negra” antes do triunfo por 3-0 diante da Itália, os EUA, ex-campeões olímpicos, mundiais e continentais, chegavam às Filipinas apostados em regressar ao pódio num Mundial depois das campanhas menos conseguidas na Liga das Nações. Com algumas mexidas em relação à convocatória de Paris, com um leque tão forte como o anterior de opções, com argumentos para mostrar em campo o quinto lugar do ranking mundial frente a uma Seleção (23.ª) que deixou de ser surpresa logo a abrir pelo triunfo frente a Cuba, que se “redimiu” do desaire com uma vitória por 3-0 diante da Colômbia.

Os primeiros pontos do encontro mostraram de imediato as dificuldades acrescidas que Portugal teria de enfrentar, com dois parciais de 3-0 a darem uma vantagem confortável de 11-7 aos norte-americanos que nem a pronta reação nacional, com três pontos seguidos, conseguiu abalar. A Seleção até estava melhor nos pontos no bloco (quatro), conseguia ter ataques com sucesso sobretudo por Lourenço Martins (seis pontos no set inicial) quando Miguel Tavares Rodrigues colocava a distribuição mais afastada da rede mas nada podia fazer perante um conjunto norte-americano que cometeu apenas dois erros não forçados no primeiro parcial, que terminou com uma vantagem de 25-19 adensada pelo distanciamento nos derradeiros pontos.

Um pouco à semelhança do que tinha acontecido com Cuba, o descanso fez bem a Portugal, que encontrou duas rotações nos serviços de Kelton Tavares e mais tarde de Miguel Tavares Rodrigues para liderar pela primeira vez o set, com um primeiro parcial de 3-0 para o 5-2 e para outro parcial de 4-0 para o 12-8 que dava esperança para a conquista pelo menos de um parcial. Os EUA atravessavam a fase menos conseguida do encontro mas a agressividade no serviço e a eficácia no bloco conseguiram inverter o resultado para 16-14 com cinco pontos seguidos, o que levou também à entrada em campo do distribuidor Tiago Violas. “Malta, é preciso paciência. Não dispersem, está muito muito barulho e vai cada uma para seu lado. Temos de fechar, temos de jogar com convicção”, pediu João José num desconto de tempo que já não foi a tempo de inverter o novo rumo que o segundo parcial tinha ganho, com triunfo dos norte-americanos por 25-22 depois de uma rotação com Ethan Champlin no serviço que deixou tudo encaminhado para o 2-0 na partida.

Na paragem, João José lamentava a qualidade de serviço dos EUA e as dificuldades para fazer o side out, o que desequilibrava ainda mais um jogo que seria sempre desequilibrado. Ainda assim, o selecionador tentava procurar outras alternativas que trouxessem nova vida a Portugal, apostando na distribuição de Bruno Dias e na colocação de André Pereira com Lourenço Martins a assumir nova posição. O equilíbrio ainda marcou o arranque do parcial mas o serviço voltou a fazer a diferença, desta vez com Gabriel García a marcar uma vantagem de três pontos para os norte-americanos que não voltou a ser desfeita até ao 25-17 final. Segue-se a “final” com a Colômbia na madrugada de quarta-feira (3h) que pode valer a presença nos oitavos, caso a Seleção consiga também ganhar por 3-0 e a formação cubana não ganhe aos EUA por 3-1 ou 3-2.