Quando o futebol de clubes foi interrompido para as duas semanas de compromissos das seleções nacionais, há cerca de um mês, o Sporting tinha acabado de somar dois empates consecutivos contra Famalicão e Arouca. A ideia de que os primeiros jogos pós-seleções nacionais eram fulcrais para a continuidade de Rui Borges, portanto, tornou-se uma evidência. Mas o Sporting ganhou, a Sp. Braga e Lens, deixando no ar a perspetiva de que a fase má estava ultrapassada. Até esta quarta-feira.

Na terceira jornada da Liga dos Campeões e depois de duas vitórias, o Sporting capitulou em Alvalade e contra o LASK, acabando por somar a primeira derrota da temporada. Apesar de o desaire não colocar em risco o eventual apuramento dos leões para o playoff ou até diretamente para os oitavos de final da competição, o resultado e a exibição trouxeram de volta o cheiro a desconfiança, desconforto, desnorte. Algo que Rui Borges queria afastar já este domingo, novamente em casa, contra o Académico de Viseu — depois de uma semana em que a estatística brutal de que já desperdiçou 18 vantagens desde que é o treinador leonino foi o tema em cima da mesa.

Ficha de jogo

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Sporting-Académico de Viseu, 1-2

9.ª jornada da Primeira Liga

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Miguel Nogueira (AF Lisboa)

Sporting: Kaique, Iván Fresneda (Vagiannidis, 85′), Ibrahima Ba, Gonçalo Inácio, Maxi Araújo, Sergi Altimira (Silas Andersen, 85′), Issa Doumbia, Flávio Gonçalves (Geny Catamo, 58′), Nestory Irankunda (Jesse Derry, 85′), Luis Suárez, Luis Guilherme (Ioannidis, 58′)

Suplentes não utilizados: Rui Silva, João Simões, Rafael Nel, Moncef Zekri, Pedro Lima, Eduardo Quaresma, Eduardo Felicíssimo

Treinador: Rui Borges

Académico de Viseu: Ewerton, Robinho, Nikos Michelis, Anthony Correia, Miguel Brau, Cihan Kahraman (Alejandro Mestanza, 72′), Luís Silva, Nils Mortimer (Lorougnon Gohi, 64′), Soufiane Messeguem, João Guilherme (Álvaro Zamora, 87′), André Clóvis (Mohamed Bouldini, 87′)

Suplentes não utilizados: Juan Soriano, Matheus Sampaio, Pedro Silva, André Ceitil, Valery Fernández, Cristian Ferreira, Rúben Pereira, Gustavo Costa

Treinador: Bruno Pinheiro

Golos: João Guilherme (24′ e 74′), Luis Suárez (62′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Luís Silva (9′), a Cihan Kahraman (11′), a Issa Doumbia (41′), a Nils Mortimer (45+6′), a Maxi Araújo (88′), a Alejandro Mestanza (90+4′)

“Foram histórias diferentes. Não tenho problemas em falar nisso. O único jogo em que claramente não estivemos à nossa altura foi na segunda parte contra o V. Guimarães. Foi má. Contra o Estrela da Amadora, sim, perdemos a energia na fase final. Contra o Arouca o jogo foi completamente diferente depois de ficarmos com dez. Podia ter feito outras coisas, mas depois de abrir o melão é que vemos se é bom ou mau. Tomo decisões e umas são boas, outras são más. O futebol é bonito nisso. São jogos com histórias totalmente diferentes. A falta de energia é uma sensação é que às vezes olho e digo ‘a equipa não está no mesmo patamar’, porque são jovens. Às vezes não é por não quererem, o corpo não responde da forma como queremos ou desejamos. Essa falta de maturidade nesses momentos em que não temos tanta energia ou perdemos mais passes… Falta mais maturidade para sermos mais espertos e conseguirmos quebrar isso. Mas não é justificação, a culpa é sempre do mister”, atirou Rui Borges na antevisão da partida.

Assim, em Alvalade e sem contar com os lesionados Zeno Debast e Rodrigo Zalazar, o treinador leonino surpreendia e lançava Ibrahima Ba ao lado de Gonçalo Inácio, Flávio Gonçalves nas costas de Luis Suárez e Luis Guilherme aberto na direita, abdicando de Eduardo Quaresma, João Simões e Geny Catamo. Já Bruno Pinheiro, num Académico de Viseu que vinha de ser eliminado pelo Fátima na Taça de Portugal, mas tinha quatro vitórias consecutivas no Campeonato, tinha André Clóvis como crónica referência ofensiva.

O Sporting começou melhor e com a intensidade que se exigia, com Nestory Irankunda a ter desde logo a primeira situação de perigo do jogo com um remate que passou ligeiramente ao lado da baliza (6′). Luis Suárez atirou ao lado de calcanhar (15′), Maxi Araújo rematou por cima (15′), Flávio Gonçalves falhou um cabeceamento (19′) e o Académico de Viseu teve uns 20 minutos iniciais muito complexos em Alvalade, sem capacidade para entrar no meio-campo contrário e passando praticamente todo o tempo dentro do próprio último terço.

À passagem dos 20 minutos, porém, Kaique cometeu um erro e permitiu uma grande oportunidade a André Clóvis, que rematou contra Ibrahima Ba na área (20′), e o lance serviu como uma espécie de catalisador para a equipa de Bruno Pinheiro. O Académico de Viseu cresceu e subiu as linhas, aproveitando também alguma quebra no ritmo alucinante que o Sporting tinha demonstrado nos primeiros minutos, e o improvável acabou por acontecer. Ainda antes da meia-hora, na sequência de um belo cruzamento de Robinho na direita, João Guilherme apareceu quase sozinho ao segundo poste e encostou para abrir o marcador (24′).

Os viseenses poderiam ter aumentado a vantagem logo a seguir, com um remate brutal de Cihan Kahraman de fora de área (29′), mas o lance foi imediatamente anulado por o lançamento lateral anterior foi mal efetuado. Os leões não conseguiram responder ao golo sofrido, afundando-se em remates de longe que passavam por cima ou iam ao lado, e os visitantes iam gerindo a vantagem com uma inesperada tranquilidade e até com capacidade para criar alguns problemas sempre que conseguiam explorar a profundidade.

A equipa de Rui Borges ainda respirou de alívio já perto do fim da primeira parte, quando Miguel Nogueira assinalou grande penalidade de Ewerton sobre Maxi Araújo, mas o VAR acabou por reverter a decisão e anulou o penálti. Assim, ao intervalo em Alvalade, o Sporting estava mesmo a perder com o Académico de Viseu e precisava de se reencontrar para discutir o resultado, já que os últimos instantes antes da ida para os balneários foram de total desnorte.

Nenhum dos treinadores fez alterações no início da segunda parte e o Sporting voltou a começar bem melhor, repetindo o ritmo alto e intenso que tinha demonstrado logo no apito inicial. Ibrahima Ba rematou de longe e por cima (49′), cabeceou ao lado logo a seguir (53′), Irankunda obrigou Ewerton a uma intervenção atenta com um pontapé fortíssimo (56′) e Rui Borges acabou por fazer all in ao tirar Luis Guilherme e Flávio Gonçalves para lançar Ioannidis e Geny Catamo. 

Os dois atacantes entraram muito bem, particularmente o avançado grego com os movimentos sem bola que acabavam por soltar a marcação de Luis Suárez, e os leões conseguiram mesmo chegar ao empate: Fresneda surgiu na direita depois de uma combinação com Catamo e cruzou, com Suárez a atirar de primeira na área para voltar a marcar (62′). Bruno Pinheiro reagiu com duas substituições quase consecutivas, colocando Lorougnon Gohi e Alejandro Mestanza, e o menos provável voltou a acontecer.

Numa altura em que o Sporting ia crescendo cada vez mais à procura da reviravolta e o Académico de Viseu parecia afundar-se, entre o natural desgaste físico e até o golpe moral do empate sofrido, o segundo golo apareceu. Messeguem soltou-se na direita e cruzou para o segundo poste, onde João Guilherme voltou a aparecer com um remate de primeira para bisar e recuperar a vantagem (74′). Maxi Araújo acertou no poste logo a seguir (79′) e ainda obrigou Ewerton a uma defesa brutal (81′), Jesse Derry, Vagiannidis e Silas Andersen ainda entraram, mas já nada mudou.

No fim, o Sporting perdeu com o Académico de Viseu em Alvalade e somou a segunda derrota consecutiva, sofrendo também a primeira no Campeonato. Feitas as contas, à nona jornada da Primeira Liga, os leões estão desde já a nove pontos da liderança do FC Porto, correndo o risco de ficarem a quatro do segundo lugar do Benfica se os encarnados vencerem o Santa Clara esta segunda-feira. Rui Borges diz que precisa de abrir o melão para saber se é bom ou mau — mas já existem poucas explicações para tantos dias de fruta amarga.