Aníbal Cavaco Silva traça um perfil de Presidente de República com características que considera que “os portugueses devem ter em devida conta” na escolha nas próximas presidenciais. Entre elas, o antigo chefe de Estado sublinha a necessidade de ter a “experiência política”,”da vida partidária” e “da governação” para assumir o cargo, defende num texto de opinião no Expresso.
Cavaco Silva elencou uma série de regras para assumir o cargo, incluindo “o respeito da Constituição e dos procedimentos da democracia” e a “isenção e independência em relação às diferentes forças partidárias e às tensões entre Governo e oposição”, para além da “defesa da estabilidade política” e de “falar verdade aos portugueses”. O respeito destas, diz, é “condição necessária mas não suficiente”.
O ex-Presidente lembrou uma série de eventos da sua Presidência em que frisou que teve de usar aquilo que tinha aprendido no seu passado político para poder funcionar como “facilitador de pontes e consensos“, incluindo as negociações de orçamentos do Governo minoritário de José Sócrates ou mesmo a demissão “irrevogável” de Paulo Portas do Governo de coligação PSD/CDS-PP.
É este papel, que define como “magistratura de influência ativa”, que o Presidente deve ter para fazer frente a várias situações que podem surgir durante o mandato, deixando o aviso que, “em campanha, os candidatos a Presidente podem prometer tudo e mais alguma coisa e dizer os maiores disparates” e que não cabe ao chefe de Estado “legislar ou decidir e executar políticas”
Para poder cumprir este papel, disse ainda, o ex-Presidente avisa que o futuro sucessor tem de ser possuidor “de uma boa dose de experiência política”.
“Sem o conhecimento efetivo do funcionamento das instituições da nossa democracia, das especificidades da vida partidária e das tarefas da governação, suas exigências, condicionantes e dificuldades dificilmente conseguirão materializar uma magistratura de influência positiva“, sublinhou, apontando ainda que o chefe de Estado deve ser “o último reduto do sistema político”.
Sobre o painel de aspirantes à Presidência que vão a votos nas próximas eleições, Cavaco Silva questiona-se se “todos os candidatos a Presidente que já se perfilam possuem a experiência política, os conhecimentos e os atributos pessoais” para poderem funcionar neste papel definido por ele. “Falar é relativamente fácil, fazer bem é mais difícil“, rematou.
Gouveia e Melo ao ataque: “Parecia que estava a apoiar Seguro”
Esta sexta-feira, Henrique Gouveia e Melo já veio responder ao apelo de Aníbal Cavaco Silva para que os portugueses elejam um Presidente da República com “experiência governativa” — e respondeu com ironia. Ao Expresso, o candidato presidencial diz ter “estranhado” o artigo de Cavaco Silva, publicado no mesmo jornal: “Pelo perfil que o professor Cavaco Silva define para Presidente, parecia que estava a apoiar mais diretamente o candidato António José Seguro.”
Isto porque no seu texto Cavaco Silva defende que o chefe de Estado deve ter, além de experiência de Governo, um perfil de “distanciamento partidário e de seriedade”, o que para Gouveia e Melo “cabe melhor a António José Seguro que a Marques Mendes”.
Assumindo que interpretou o texto de Cavaco Silva como um ataque contra a sua candidatura — e lembrando que o próprio Cavaco se costumava definir como um não-político –, Gouveia e Melo diz que o ex-Presidente “não teve a coragem de dizer, claramente, e assumir diretamente que é apoiante de Marques Mendes”, o que até o surpreendeu: “Esperaria [esse apoio] e parecia-me óbvio”.
Texto atualizado às 13h21 com reação de Henrique Gouveia e Melo.