O contexto era diametralmente oposto. A postura, essa, manteve-se praticamente igual. Há mais de quatro anos, naquele Estádio Nacional de Tóquio vazio devido à pandemia de Covid-19 que impediu a presença de público, Pedro Pablo Pichardo ainda teve de lutar contra um “incidente” na comitiva nacional ao ver Nelson Évora, antigo campeão olímpico português, a puxar por um dos seus principais adversários com quem tinha estado a trabalhar, Hugues Fabrice Zango, mas mantinha os mesmos trajetos, da aproximação à bancada para falar com o pai sobre a técnica dos saltos que ia fazendo ao isolamento dos demais concorrentes quase a pedir força para a tentativa seguinte ser sempre melhor. Agora, com o recinto cheio e a apoiar os atletas junto à caixa da areia enquanto não chegavam as aguardadas finais dos 200 metros, havia uma outra envolvência. E o que fez o saltador português? Continuou a falar com o pai, continuou a repousar isolado.
Quando todos pensavam que a decisão do triplo salto estava entregue a Pichardo, as câmaras televisivas iam fixando o atleta nacional deitado no chão, com os braços pousados na testa, a pensar naquilo que podia sair da sexta e derradeira tentativa. Sem que o pai e treinador, Jorge, soubesse previamente da decisão, o filho decidiu prescindir do quinto salto para dar tudo a fechar (algo que também costuma ser habitual nas provas em que está na frente). Problema? Sem que nada o fizesse esperar, com nomes fortes como Andy Díaz, Zango ou Jordan Scott afastados da luta pelas medalhas, Andrea Dallavalle fez o salto de uma vida a 17,64 para bater o recorde pessoal e passar para a liderança com mais nove centímetros do que o português (dois saltos a 17,55). Pichardo teria de dar tudo, não só para melhorar mas para ser campeão. E conseguiu.
Numa tentativa verdadeiramente fantástica que aproximou Pichardo daquilo que fez nos Jogos de Tóquio e nos Europeus de Roma (ficando acima da melhor marca nos Jogos de Paris), a técnica esteve toda lá, aquele segundo apoio saiu com uma naturalidade que falhara antes e o resultado acabou por ser um 17,91, melhor marca mundial e pessoal do ano. Três anos depois, o atleta de 32 anos reconquistava a medalha de ouro e tornava-se o primeiro português de sempre a ser bicampeão mundial, neste caso do triplo salto. A medalha podia ser apenas mais uma num currículo que conta ainda com um ouro e uma prata em Jogos Olímpicos, um ouro e uma prata em Europeus ao Ar Livre, uma prata em Mundiais em Pista Coberta (mais uma por Cuba, em 2014) ou dois ouros em Europeus em Pista Coberta mas sabia a muito mais do que isso, até pela reação firme de ficar a olhar para a bancada a perguntar “Quem é o melhor?” depois do sexto salto.
???????? O salto que valeu a Pedro Pablo PICHARDO o título de CAMPEÃO DO MUNDO???? ????
Palmarés do atleta português em Mundiais: ???? ???? ???? ???? pic.twitter.com/RYzXiVDgwE
— Eurosport Portugal (@EurosportTV_Por) September 19, 2025
“Pensava que estava ganho mas ele aí puxou… Eu não queria saltar mais, pensava que estava ganho. Em princípio, também ia abdicar do sexto. Mas, mal vi o salto [de Andrea Dallavalle], levantei-me logo, calcei-me, ainda tinha energia. Agradeço ao atleta de Itália, que fez com que saísse esse grande salto. Puxou por mim. O triplo é um evento muito técnico, estava a cometer alguns erros leves, segundo o meu pai. Não estava a saltar mais longe mas, com o ensaio do italiano, fiquei ‘cego’. E consegui”, comentou Pedro Pablo Pichardo na zona mista do Estádio Nacional de Tóquio, em declarações reproduzidas pela agência Lusa.
THE FINAL JUMP OF THE NIGHT! ????
Pedro Pichardo takes gold at the VERY end of the event, victory in the same stadium where he won Olympic gold at #Tokyo2020. The man just loves it here! ????#WorldAthleticsChamps | #RoadToLA28 pic.twitter.com/WkumsphOxt
— The Olympic Games (@Olympics) September 19, 2025
“Sabia que estava bem mas não estava a contar saltar tão longe. Tenho de agradecer ao meu pai e treinador por ter feito magia no último mês e meio”, apontou, antes de detalhar os episódios até aqui desconhecidos em termos públicos que teve de superar antes destes Mundiais, da hospitalização do pai durante mais de uma semana “a lutar pela vida” à lesão que sofreu nas costas, “com uma fratura e edema”. Foi também por isso que, na hora dos agradecimentos, não esqueceu as equipas médicas da Federação de Atletismo e do Comité Olímpico de Portugal, nas pessoas de José Gomes Ferreira e Ricardo Paulino. “Primeiro português a ser bicampeão mundial? Não sabia mas fico muito contente com isso”, salientou o atleta que igualou também os dois ouros do recordista mundial da disciplina, Jonathan Edwards (18,29).
Levei um puxão de orelhas dos meus pais no ano passado por ter ameaçado retirar-me. Eles conseguiram que fizesse mais este ano. Por enquanto, estou cá. Os meus pais e a minha esposa são quem decide a minha carreira desportiva. O que disserem, faço. Vou continuar a competir mas depois tudo depende de como esteja a reagir o meu corpo”, destacou Pichardo.
“Por pouco não me deu um enfarte. É terrível. Ele deixou de fazer o quinto salto para fazer o sexto, não me disse que ia abdicar. Quando olhei para a pista, surpreendeu-me. Esta temporada, tinha mês e meio de treino apenas, porque teve uma lesão nas costas. Tentei que ele corrigisse a posição que devia ter quando fazia o segundo salto e hoje conseguiu. Melhor marca do ano? Não estava à espera, pensava que ele saltaria nos 17,70″, admitiu também à agência Lusa Jorge Pichardo, pai e treinador que, noutras ocasiões, nunca teve problemas em assumir que esperava saltos acima dos 18 metros – algo que, desta vez, não aconteceu.
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Pedro Pichardo volta a conquistar o ???????????????? mundial do Triplo Salto, depois de Eugene 2022, no mesmo palco onde se sagrou Campeão Olímpico ????????????#EquipaPortugal | ???? EPA pic.twitter.com/xdOk0uDSxR
— Comité Olímpico de Portugal (COP) (@COPPORTUGAL) September 19, 2025
“Isto é uma medalha que não é surpresa. Tenho dito que Portugal tem dos melhores do mundo. Pichardo é dos melhores, se não o melhor do mundo. A medalha está bem entregue. Naquele penúltimo salto de que abdicou e o italiano passou para a frente, foi um balde de água fria que me caiu… Mas notou-se que ele estava calmo, confiante e aquele último salto foi uma coisa extraordinária. Ele merece, a Federação merece, a modalidade também merece porque precisa muito destes resultados para andar para a frente. Esta competição, com duas medalhas de ouro, deixa-me sem palavras. Mais uma vez, apelo a quem de direito para que olhem pela nossa modalidade. Queremos chegar muito mais longe mas, sem o apoio devido, não vamos conseguir. Precisamos de apoio porque vivemos com muita dificuldade”, referiu também Domingos Castro, que lidera pela primeira vez a delegação nacional – e que como atleta ganhou a medalha de prata nos 5.000 metros na primeira edição de Campeonatos do Mundo com pódios portugueses, no ano de 1987 em Roma.
[Ouça aqui as declarações de Domingos Castro à Rádio Observador]
“O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa saúda vivamente Pedro Pichardo pelo notável triunfo e conquista da medalha de ouro do triplo salto, nos Campeonatos do Mundo de atletismo que se realizam em Tóquio, no Japão, em mais uma enorme demonstração da sua dedicação e perseverança desportiva. Num concurso repleto de emoção, o atleta nacional, com um memorável e extraordinário salto, ‘voou’ para o lugar mais alto do pódio, tornando-se o primeiro português bicampeão mundial de atletismo, deixando o Presidente da República e todos os portugueses orgulhosos com a sua vitória”, salientou Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República, numa mensagem colocada na página da Presidência após a conquista.
Grande Pedro Pablo Pichardo! Que salto, que garra do agora bicampeão mundial do triplo salto. Uma conquista histórica no Japão que orgulha todos os Portugueses. Parabéns! pic.twitter.com/ywzluS5rD1
— Luís Montenegro (@LMontenegro_PT) September 19, 2025
“Grande Pedro Pablo Pichardo! Que salto, que garra do agora bicampeão mundial do triplo salto. Uma conquista histórica no Japão que orgulha todos os portugueses. Parabéns!”, escreveu também o primeiro-ministro Luís Montenegro, na rede X. “Pedro Pichardo é medalha de ouro! O atleta é campeão do mundo no triplo salto, nos Mundiais de atletismo de Tóquio, com um ‘voo’ de 17,91m. Parabéns, Pedro! Um resultado fantástico que honra o desporto nacional. Muito obrigada!”, elogiou também Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto, numa mensagem na rede X.
Pedro Pichardo é medalha de ouro!
O atleta é campeão do mundo no triplo salto, nos Mundiais de atletismo de Tóquio, com um “voo” de 17,91mt.
Parabéns, Pedro!
Um resultado fantástico que honra o desporto nacional.
Muito obrigada!
— Margarida B Lopes (@margaridalopes) September 19, 2025