Mais de quatro anos depois, muito mudou na vida de Pedro Pablo Pichardo. Foi vice-campeão mundial em Pista Coberta, ganhou os Europeus ao Ar Livre e de Pista Coberta, sagrou-se campeão mundial ao Ar Livre, ficou com a medalha de prata nos últimos Europeus e Jogos Olímpicos. Entretanto, e de forma mais recente, acabou por deixar o Benfica depois de um longo litígio com responsáveis dos encarnados, assinou em março pelos italianos do ATL-Etica, foi deixando que o rasto se fosse perdendo. Essa era a grande diferença neste regresso do saltador ao Estádio Nacional de Tóquio: ia lutar por medalhas mas as medalhas iriam exigir uma luta maior do que aconteceu em 2021, quando se sagrou campeão olímpico com uma larga distância para a (pouca) concorrência. E foi na qualificação para a final que se começou a perceber isso.
Num apuramento a dois grupos com a marca mínima de qualificação a 17,10, apenas dois atletas superaram essa fasquia “modesta” em termos mundiais: o argelino Yasser Triki (17.26) e o jamaicano Jordan Scott (17,19). Pichardo, que realizou apenas dois dos três saltos, ficou-se pelos 17,09 depois de ter começado o concurso a 16,82. Todos os potenciais candidatos a medalhas seguiram em frente para a decisão, com o italiano Andy Díaz (bronze nos Jogos, ouro nos últimos Mundiais em Pista Coberta) e o burquinense Hugues Fabrice Zango (campeão mundial em 2023) à cabeça de um lote de atletas com esperanças de aproveitar uma possível final com marcas mais acessíveis para baterem o recorde pessoal e chegarem ainda ao pódio.
“O que aconteceu foram problemas técnicos. Tinha de aquecer de uma maneira, não aqueci da maneira certa, e o meu pai [o treinador] puxou-me um pouco as orelhas. Notou-se, na prova, que não o tinha feito da maneira certa e o corpo não reagia bem. Foi um erro técnico da minha parte, no aquecimento. Mas é tranquilo, na sexta-feira vai ser diferente. Esta é uma pista que, para mim, me deixa muito contente por saltar. Aqui fui campeão olímpico e é um estádio muito especial para mim. A diferença, agora, é ter público. Vai ser bom e diferente [ter público na final]. Para nós, saltadores, que precisamos daquelas palmas, o apoio é muito importante. A minha meta é sempre a medalha. Não posso garantir que aconteça mas vou à luta, dar o meu melhor e tentar a medalha de ouro. Para marca, não temos. Nesse sentido, o meu pai só me disse que temos de tentar a vitória”, apontou o atleta português de 32 anos à agência Lusa depois da qualificação.
A etapa final da Liga Diamante, em Zurique, mostrou que longe iam os tempos em que uma medalha podia cair com saltos acima dos 17,70/17,80, como aconteceu nos Jogos de Paris quando Pichardo perdeu apenas por dois centímetros para o espanhol Jordan Díaz (17,86-17,84). Aí, Díaz venceu o concurso com 17,56, mais nove centímetros do que o português que alcançou nessa prova a sua melhor marca do ano. No entanto, a melhor versão do ano de 2025 estava mesmo guardada para um Estádio Nacional de Tóquio que vai ficar não só na história de Pedro Pablo Pichardo mas também do próprio atletismo português.
THE FINAL JUMP OF THE NIGHT! ????
Pedro Pichardo takes gold at the VERY end of the event, victory in the same stadium where he won Olympic gold at #Tokyo2020. The man just loves it here! ????#WorldAthleticsChamps | #RoadToLA28 pic.twitter.com/WkumsphOxt
— The Olympic Games (@Olympics) September 19, 2025
Agora, a decisão voltou a ter um início discreto por parte de Pedro Pablo Pichardo, que não foi além do 17,07 no primeiro salto antes de ir ao pé da bancada falar com o pai enquanto Andy Díaz e Jordan Scott tinham as tentativas iniciais nulas. Ainda assim, e no final da série inicial, o atleta nacional estava no pódio mas na terceira posição, atrás de Yasser Triki (17,25) e de Lázaro Martínez (17,16). Foi aí que o ex-campeão olímpico (e atual vice) mostrou que quem sabe nunca esquece, fazendo um salto a 17,55 para a melhor marca pessoal do ano que não só “garantia” o pódio como poderia ser um passo importante para ganhar o título, até tendo em conta que Jordan Scott, com uma segunda tentativa válida, não passou dos 17,19 e só Lázaro Martínez parecia fazer alguma sombra com 17,49. Mais: antes do meio da prova, e claramente a saltar com uma cara de motivação como há algum tempo não se via, Pichardo voltou a repetir os 17,55 à terceira.
La finale du triple saut est en cours actuellement à Tokyo ! ????????
Le classement après 2/6 sauts :
???????? Pichardo (17.55)
???????? Martinez (17.49)
???????? Triki (17.25)Les yeux rivés sur Yasser Triki, potentiel premier médaillé algérien de ces championnats du monde. ???? pic.twitter.com/OjDnER2Qhe
— Le Fennec (@LeFennecFC) September 19, 2025
Hugues Fabrice Zango continuava uma sombra do que costuma ser, Andy Díaz não passava dos 17,19, Andrea Dallavalle chegou aos 17,24 mas também não melhorava, Jordan Scott mantinha-se abaixo dos 17 metros, Yasser Triki teve uma tentativa nula quando ia trabalhando para melhorar os seus 17,25, Lázaro Martínez não fez melhor. Pichardo parecia ter o título mais encaminhado mas nem por isso prescindiu da sua quarta tentativa à procura de subir a fasquia, ficando pelos 17,36 mas com uma “lição” no salto do meio para perceber aquilo que poderia fazer de diferente. A luta estava sobretudo centrada no terceiro lugar, com as marcas muito próximas entre Triki, Dallavalle, Scott e Andy Díaz, a vitória portuguesa parecia uma garantia até ao autêntico golpe de teatro no último salto, com Andrea Dallavale a fazer 17,64 e a passar para a frente. Por pouco tempo: com uma tentativa fabulosa a 17,91, Pichardo fez a melhor marca do ano e ganhou.
DALLAVALLE COSA HAI FATTO!? ????????????
L'azzurro sfodera il miglior salto della carriera e con 17.64 all'ultimo tentativo strappa un argento mondiale stupendo! Fa meglio solo Pichardo ???????? ????????????????????????????????#WorldAthleticsChamps #Atletica #Athletics #Tokyo2025 pic.twitter.com/gUeqIEtqLr
— Eurosport IT (@Eurosport_IT) September 19, 2025
???????? O salto que valeu a Pedro Pablo PICHARDO o título de CAMPEÃO DO MUNDO???? ????
Palmarés do atleta português em Mundiais: ???? ???? ???? ???? pic.twitter.com/RYzXiVDgwE
— Eurosport Portugal (@EurosportTV_Por) September 19, 2025
A história estava feita e, além de ter conseguido revalidar o título mundial conquistado em 2022, naquele que foi o segundo ouro de Portugal neste Campeonato do Mundo depois de Isaac Nader, Pichardo tornou-se o primeiro na história do atletismo nacional a ser bicampeão em Campeonatos do Mundo (por Cuba tinha ganhou duas pratas, em 2013 e 2015) num palmarés que conta ainda com um ouro e uma prata em Jogos Olímpicos, um ouro e uma prata em Europeus ao Ar Livre, uma prata em Mundiais em Pista Coberta (mais uma por Cuba, em 2014), dois ouros em Europeus em Pista Coberta e mais três vitórias em Ligas Diamante, entre outras distinções internacionais. Ainda assim, apesar de estar longe desse registo, o atleta de 32 anos não esqueceu esse sonho de um dia chegar ao recorde mundial de Jonathan Edwards de 18,29. E é isso que vai alimentando o “animal competitivo” até à meta de chegar ainda a Los Angeles-2028.